Esse não é mais um texto feliz. É sobre como os momentos terminam e como a vida pode ser frágil e inconstante. Há quem diga que o tempo não existe, que somos nós que o inventamos e tentamos controlá-lo com nossos relógios e calendários, sem nunca olhar para trás; sem conseguir vencê-lo.
E olhando para você agora, consigo ver o reflexo do que um dia eu fui. As olheiras denunciam a noite mal dormida, o olhar vazio e opaco de alguém que perdeu algo muito importante e que sabe que nunca mais voltará. Eu sei, eu te entendo. A dor é excruciante, e a sensação é que podemos explodir – literalmente – a qualquer momento, pois esse aperto no peito é cada vez maior, assim como a ausência de ar.
Apesar de todas as pessoas que vieram prestar condolências, você se sente vazio, solitário, porque a verdade é que sempre foi assim. Nenhuma daquelas pessoas tirou um tempo para mandar uma mensagem, tomar um café junto ou perguntar como foi o dia ou semana; foi necessário – infelizmente – uma fatalidade para se reunirem e lembrarem um dos outros. E lá estava o morto, num caixão muito bem embalado, ao seu lado estavam os sete herdeiros, cada um caprichando no seu papel de parente inconsolável.
É uma revolta tempestuosa que vai se acumulando dentro de nós; palavras sendo sufocadas porque você sabe que seria injusto dizê-las no momento, em volta de todo esse caos e raiva que se transformou a sua vida. Eu queria poder dizer muito mais do que gostaria, queria abraçá-lo tão forte e protegê-lo de toda essa dor. Mas o universo é um ser traiçoeiro, fazendo de nossas vontades vestígios cósmicos do que um dia elas foram.
Assim como você, eu também perdi a pessoa mais importante da minha vida. Palavras não serão suficientes para acalentar o seu coração, e sei que, talvez, elas podem trazer o efeito contrário. Provavelmente você deve estar revoltado com as pessoas, com a vida, com Deus – ou qualquer outra divindade a qual você acredita ou desacredita – e, principalmente, com você mesmo. E é por esse fato que não irei dizer que essa dor irá passar.
Porque essa é a pior mentira que contamos. Essa dor nunca vai passar.
Mas com o tempo ela ameniza. Com o tempo a dor no peito vai afrouxando, deixando você respirar novamente; toda essa raiva acumulada vai se dissipando e transformando-se em vestígios de uma lembrança ruim. Você vai conseguir se lembrar dos sorrisos sem chorar, vai conseguir conversar com alguém a respeito sem sentir tanta dor. Vai conseguir vislumbrar as memórias com a alma calma, apenas com gosto de saudade.
Porém, até chegar esse momento a dor vai ser imensurável. Haverá dias que serão insuportáveis, e nenhum sorriso falso irá conseguir mascarar a tristeza que domina o seu âmago. E está tudo bem ter uma recaída. Ninguém é forte o tempo todo; nós fomos programados para cair. Haverá noites de insônia, saturadas de falsas lembranças e arrependimentos, onde sua única companhia são as lágrimas e finitas interpelações. E está tudo bem chorar, dar um tempo e se permitir sentir. Afinal, sem a pequena morte de toda noite, como sobreviver à vida de cada dia?
Mas você vai ficar bem. Eu sei que parece que a vida não faz mais sentido e que o vazio que foi deixado é insubstituível. Mas com o tempo você vai entender que a vida é feita de chegadas e partidas, que apesar de não estarmos nunca preparados, haverá despedidas tétricas o bastante para nos jogar no abismo da depressão. E aqueles que se foram acabam se tornando estrelas-guias, uma das maiores motivações da nossa vida, para que possamos um dia olhar para o céu com orgulho, porque nós vencemos.
A vida continua mesmo após um ponto final. Algumas histórias chegam ao fim, mas não a sua vida. Você continua aqui, e você é forte o bastante para permanecer.
Eu consegui sobreviver. E você conseguirá também.
Nós vamos ficar bem.