Quando o Sol ia, no fim de todas as tardes, esconder-se no leste, uma parte de mim o seguia. Aquele pedaço meu que respondia a tudo com um sorriso que é cuidadosamente lapidado todos os dias em frente ao espelho do banheiro em que agora me banho. A máscara descartável com duração de oito horas: do café da manhã até o fim do turno. Aquele “eu” que está nas minhas roupas, mas não no que elas cobrem.
Saio do banho e a Lua brilha prateada no céu. Cheia, como nas melhores noites, num céu desprovido de nuvens. É uma noite daquelas que pedem para ser estendidas para além do horário de dormir, para a alta madrugada, quando todas as luzes da cidade se apagam e as estrelas brilham em todo o seu esplendor.
Me visto, e não consigo impedir que um sorrisinho malicioso surja no canto de minha boca. Quão diferente estou agora! Com uma roupa destas como a que estou usando… quem imaginaria que, há apenas algumas horas atrás, eu estava banhando uma multidão de ouvintes com o sermão mais moralista já escrito? A resposta é simples: ninguém, e nem mesmo eu, poderia sequer imaginar que tal metamorfose acontecesse, e ainda mais com a frequência que acontece.
Era para ser apenas numa noite daquelas, em que, para que a alma consiga respirar, deve-se tirar o véu que a cobre. A situação complicou-se quando “uma daquelas noites” se tornou toda noite. E cá estou, o homem que diariamente combate os vícios da carne, perfumando-me com a mais afrodisíaca das fragrâncias; o homem que dedica cada hora de Sol para lutar contra a degeneração do corpo, colocando na carteira o dinheiro do álcool e da nicotina. Eis-me aqui, pois, à luz da Lua; uma outra pessoa, o oposto de quem eu sou quando o Sol ilumina tudo.
Mas não me julguem pelos excessos desta(s) noite(s) que chega(m); sem a pequena morte de cada noite, como sobreviver à vida de cada dia? E não demora até que lá eu esteja, no lugar de sempre: minha mão direita segura um copo cheio até a boca de vodca, a esquerda um cigarro, e em meu colo senta-se uma prostituta, que ri de cada piada minha. Sou eu quem a estou fazendo rir para conseguir um desconto, ou é ela que está rindo de propósito para conseguir um cliente?
– Sabes que sou fiel aos teus serviços. – Digo. – Tu não deves rir daquilo que não achar graça.
E ela, rindo de novo, diz-me que falo como um padre; e é a minha vez de rir. Ah, se ela soubesse quem sou durante o dia…
Há quem diga que o tempo não existe, que somos nós que o inventamos e tentamos controlá-lo com nossos relógios e calendários… Quando ouvi isto pela primeira vez, achei um absurdo. Como pode o tempo não existir se a cada rotação da Terra surge um novo dia? Se a cada translação, o ano velho sai para dar lugar ao novo? Mas hoje, isto não me é mais absurdo: o tempo não existe, e o que eu invento tem apenas duas horas: a hora do Sol, em que a máscara me protege da sua luz que tudo revela, e a hora da Lua, em que retiro a máscara e me torno outro…
Digo uma ou duas frases bonitas à prostituta, que nesta noite se chama Alexandra; minha mão rasteja para dentro de sua saia curta, e eu digo que a Luz que ela carrega dentro dela é como um farol, que guia o meu barco para dentro de seu porto. Mas ela se irrita, porque já ouviu isso antes, de outra boca que não a minha.
– É a minha Luz. – Diz Alexandra. – Essa Luz não é sua.
E suas palavras me afastaram dela como se uma ventania tivesse atingido as velas do meu pobre barquinho e jogado-o para longe.
Mas eu respondo simplesmente com:
– Ah, é, é, estás certa. – Porque vejo Patrícia chegando ao bordel.
A dama com o cabelo cheio de penas de ganso é conhecida por fazer até mesmo os mortos gemerem, em qualquer tipo de clima. Eu vou até ela e digo:
– Ei Pat, ei baby: você é o Sol, você é a única, e eu sou o seu planeta fiel, sempre em torno de ti.
E ela, felizmente, aceita estas palavras, que são minhas apenas por esta noite, e talvez por algumas outras mais, e eu termino a minha vodca e jogo o meu cigarro fora e saímos de mãos dadas. Ela tem o cheiro da noite, o cheiro de cama nova, e agora dou uma mordidinha a sua orelha e sinto o familiar sabor da carne, o lar de toda a humanidade que vive sob a luz da Lua. E ela ri, ela gosta deste tipo de coisa, e não quero nem mais ir para a minha casa; por mim nos despiríamos ali mesmo. Mas meu frenesi é interrompido porque ouço uma voz me chamar:
– Pastor, pastor! É você aí?
E Pat, que não sabe quem eu sou debaixo do Sol, deixa escapar uma risadinha, e virando-se para a voz, que agora vejo que é a minha vizinha fofoqueira, frequentadora assídua da Igreja, Patrícia diz:
– Quem? Esse aqui! – E gargalha de propósito. Eu dou uma beliscadinha, de leve, em seu braço, e ela entende o recado, pois se cala.
– Depois te explico. – Sussurro.
E a fofoqueira se aproxima de nós e me diz:
– Pastor, posso falar com você em particular por um momento? – E sussurra ao meu ouvido: – Esta mulher, pastor, ela é da rua: uma meretriz!
E eu respondo-a bem alto para que Pat possa me ouvir:
– Sim, eu sei! Precisamente por ela ser uma mulher da rua estou com ela nesta noite – e antes que eu possa me explicar, a vizinha interrompe-me:
– Mas você é pastor!
– Por isso mesmo! Sou um pastor de almas perdidas, como a de nossa querida Patrícia: esta noite conversaremos, e eu a guiarei para luz. Agora, se der-me licença… – E vou com Patricia à minha casa.
Sim, sim, a guiarei para a luz! A luz que entra pela janela na manhã e ilumina os corpos dos amantes da noite anterior. Gosto tanto de Patrícia que digo-lhe a verdade. Ela ri; sempre me chamou de Roberto, e eu digo que durante o dia todos me chamam só de pastor. E ela me pergunta, brincalhona, quem eu sou: o pastor ou Roberto. Eu digo que sou os dois, mas a verdade é que eu não sei.
Terminamos rápido. Pela manhã, a luz invade o meu apartamento e me acorda antes dela, eu acendo um cigarro e não consigo impedir que meu olhar vá diretamente para o espelho. Este espelho que reflete – quem? – Roberto ou o pastor? Sei que o do bordel reflete Roberto, sei que o do banheiro da igreja reflete o pastor, mas este aqui, reflete quem?
É uma pergunta que requer mais um(uns) cigarro(s). É uma pergunta que precisa ser estendida para muitas noites, e até mesmo para os dias, que fica na mente como a memória de uma brutalidade que se testemunha, e que é tão desagradável quanto: como foi que eu não me dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: – em que espelho ficou perdida a minha face?
Eu sou Roberto, um pastor de almas perdidas, ou sou eu a alma perdida, sem pastor e nem Roberto?