Uma(s) Noite(s) Daquelas
Sena
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 07/11/20 11:01
Editado: 17/12/20 14:09
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 7min a 10min
Apreciadores: 10
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Palavras: 1231
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso Inspirações 2020" O intuito deste concurso é que os participantes escolham apenas e obrigatoriamente 3 (três) das 15 (quinze) frases disponibilizadas para este concurso, através destas frases escolhidas, devem redigir uma obra na qual as frases sejam inseridas no corpo do texto com originalidade. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Meu texto pro Concurso Inspirações 2020.

Espero que gostem, boa leitura!

Capítulo Único Uma(s) Noite(s) Daquelas

Quando o Sol ia, no fim de todas as tardes, esconder-se no leste, uma parte de mim o seguia. Aquele pedaço meu que respondia a tudo com um sorriso que é cuidadosamente lapidado todos os dias em frente ao espelho do banheiro em que agora me banho. A máscara descartável com duração de oito horas: do café da manhã até o fim do turno. Aquele “eu” que está nas minhas roupas, mas não no que elas cobrem.

Saio do banho e a Lua brilha prateada no céu. Cheia, como nas melhores noites, num céu desprovido de nuvens. É uma noite daquelas que pedem para ser estendidas para além do horário de dormir, para a alta madrugada, quando todas as luzes da cidade se apagam e as estrelas brilham em todo o seu esplendor.

Me visto, e não consigo impedir que um sorrisinho malicioso surja no canto de minha boca. Quão diferente estou agora! Com uma roupa destas como a que estou usando… quem imaginaria que, há apenas algumas horas atrás, eu estava banhando uma multidão de ouvintes com o sermão mais moralista já escrito? A resposta é simples: ninguém, e nem mesmo eu, poderia sequer imaginar que tal metamorfose acontecesse, e ainda mais com a frequência que acontece.

Era para ser apenas numa noite daquelas, em que, para que a alma consiga respirar, deve-se tirar o véu que a cobre. A situação complicou-se quando “uma daquelas noites” se tornou toda noite. E cá estou, o homem que diariamente combate os vícios da carne, perfumando-me com a mais afrodisíaca das fragrâncias; o homem que dedica cada hora de Sol para lutar contra a degeneração do corpo, colocando na carteira o dinheiro do álcool e da nicotina. Eis-me aqui, pois, à luz da Lua; uma outra pessoa, o oposto de quem eu sou quando o Sol ilumina tudo.

Mas não me julguem pelos excessos desta(s) noite(s) que chega(m); sem a pequena morte de cada noite, como sobreviver à vida de cada dia? E não demora até que lá eu esteja, no lugar de sempre: minha mão direita segura um copo cheio até a boca de vodca, a esquerda um cigarro, e em meu colo senta-se uma prostituta, que ri de cada piada minha. Sou eu quem a estou fazendo rir para conseguir um desconto, ou é ela que está rindo de propósito para conseguir um cliente?

– Sabes que sou fiel aos teus serviços. – Digo. – Tu não deves rir daquilo que não achar graça.

E ela, rindo de novo, diz-me que falo como um padre; e é a minha vez de rir. Ah, se ela soubesse quem sou durante o dia…

Há quem diga que o tempo não existe, que somos nós que o inventamos e tentamos controlá-lo com nossos relógios e calendários… Quando ouvi isto pela primeira vez, achei um absurdo. Como pode o tempo não existir se a cada rotação da Terra surge um novo dia? Se a cada translação, o ano velho sai para dar lugar ao novo? Mas hoje, isto não me é mais absurdo: o tempo não existe, e o que eu invento tem apenas duas horas: a hora do Sol, em que a máscara me protege da sua luz que tudo revela, e a hora da Lua, em que retiro a máscara e me torno outro…

Digo uma ou duas frases bonitas à prostituta, que nesta noite se chama Alexandra; minha mão rasteja para dentro de sua saia curta, e eu digo que a Luz que ela carrega dentro dela é como um farol, que guia o meu barco para dentro de seu porto. Mas ela se irrita, porque já ouviu isso antes, de outra boca que não a minha.

– É a minha Luz. – Diz Alexandra. – Essa Luz não é sua.

E suas palavras me afastaram dela como se uma ventania tivesse atingido as velas do meu pobre barquinho e jogado-o para longe.

Mas eu respondo simplesmente com:

– Ah, é, é, estás certa. – Porque vejo Patrícia chegando ao bordel.

A dama com o cabelo cheio de penas de ganso é conhecida por fazer até mesmo os mortos gemerem, em qualquer tipo de clima. Eu vou até ela e digo:

– Ei Pat, ei baby: você é o Sol, você é a única, e eu sou o seu planeta fiel, sempre em torno de ti.

E ela, felizmente, aceita estas palavras, que são minhas apenas por esta noite, e talvez por algumas outras mais, e eu termino a minha vodca e jogo o meu cigarro fora e saímos de mãos dadas. Ela tem o cheiro da noite, o cheiro de cama nova, e agora dou uma mordidinha a sua orelha e sinto o familiar sabor da carne, o lar de toda a humanidade que vive sob a luz da Lua. E ela ri, ela gosta deste tipo de coisa, e não quero nem mais ir para a minha casa; por mim nos despiríamos ali mesmo. Mas meu frenesi é interrompido porque ouço uma voz me chamar:

– Pastor, pastor! É você aí?

E Pat, que não sabe quem eu sou debaixo do Sol, deixa escapar uma risadinha, e virando-se para a voz, que agora vejo que é a minha vizinha fofoqueira, frequentadora assídua da Igreja, Patrícia diz:

– Quem? Esse aqui! – E gargalha de propósito. Eu dou uma beliscadinha, de leve, em seu braço, e ela entende o recado, pois se cala.

– Depois te explico. – Sussurro.

E a fofoqueira se aproxima de nós e me diz:

– Pastor, posso falar com você em particular por um momento? – E sussurra ao meu ouvido: – Esta mulher, pastor, ela é da rua: uma meretriz!

E eu respondo-a bem alto para que Pat possa me ouvir:

– Sim, eu sei! Precisamente por ela ser uma mulher da rua estou com ela nesta noite – e antes que eu possa me explicar, a vizinha interrompe-me:

– Mas você é pastor!

– Por isso mesmo! Sou um pastor de almas perdidas, como a de nossa querida Patrícia: esta noite conversaremos, e eu a guiarei para luz. Agora, se der-me licença… – E vou com Patricia à minha casa.

Sim, sim, a guiarei para a luz! A luz que entra pela janela na manhã e ilumina os corpos dos amantes da noite anterior. Gosto tanto de Patrícia que digo-lhe a verdade. Ela ri; sempre me chamou de Roberto, e eu digo que durante o dia todos me chamam só de pastor. E ela me pergunta, brincalhona, quem eu sou: o pastor ou Roberto. Eu digo que sou os dois, mas a verdade é que eu não sei.

Terminamos rápido. Pela manhã, a luz invade o meu apartamento e me acorda antes dela, eu acendo um cigarro e não consigo impedir que meu olhar vá diretamente para o espelho. Este espelho que reflete – quem? – Roberto ou o pastor? Sei que o do bordel reflete Roberto, sei que o do banheiro da igreja reflete o pastor, mas este aqui, reflete quem?

É uma pergunta que requer mais um(uns) cigarro(s). É uma pergunta que precisa ser estendida para muitas noites, e até mesmo para os dias, que fica na mente como a memória de uma brutalidade que se testemunha, e que é tão desagradável quanto: como foi que eu não me dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: – em que espelho ficou perdida a minha face?

Eu sou Roberto, um pastor de almas perdidas, ou sou eu a alma perdida, sem pastor e nem Roberto?

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Apreciadores (10)
Comentários (9)
Comentário Favorito
Postado 29/11/20 00:22

Meu Deus!!! Acabo de ficar ainda mais lisonjeada que você tenha gostado do meu texto, porque você é extremamente talentoso! Que texto foi esse? Impecável do começo ao fim!

Essa última frase: "Eu sou Roberto, um pastor de almas perdidas, ou sou eu a alma perdida, sem pastor e nem Roberto?", juro pra você que estou há, no minimo, 10 minutos encarando a tela e refletindo sobre. No final das contas, quem sou eu para criticar Roberto? Todos nós, em algum momento, refletimos sobre quem somos e o que fizemos, embora a maioria das pessoas não admitam isso.

Boa sorte para o concurso! Não dúvido nem um pouco que você ficará no pódio, esta perfeito!!!

Postado 07/11/20 16:47

Olá, Sr. Sena!!

Que texto mais incrível temos aqui!!

Gostei muito de conhecer a história de Roberto, e respondendo a última pergunta, ele é Roberto, uma alma perdida presa em um pastor de almas perdidas, o que eu acho muito triste, porém muito poético também.

"O tempo não existe, e o que eu invento tem apenas duas horas: a hora do Sol, em que a máscara me protege da sua luz que tudo revela, e a hora da Lua, em que retiro a máscara e me torno outro" - essa frase foi a que eu mais gostei, pois a achei tão profunda, como se fosse uma explicação da humanidade como um todo.

Gostei muitíssimo mesmo dessa sua representação de Sol e Lua, isso foi lindo e trágico de um modo maravilhoso!!

Meus parabéns por seu texto!!

Um grande abraço <3

Postado 30/11/20 13:31

Cacete! Desculpe o liguajar, mas esse foi um texto onde ficamos... Estupefatos? Usei mais um palavrão, desculpe. :v Esse texto tem uma narrativa forte, profunda. Vulgar e poético ao mesmo tempo. Trouxe várias reflexões, parabéns!

Pois é, acho que não vou fazer mais nenhum palpite sobre o pódio kkk

Postado 03/12/20 11:18

A última frase é realmente impactante e fecha o texto com chave de ouro!

Seu texto está ótimo mesmo, parabéns publicação e por participar do concurso :)

Postado 04/12/20 11:10

Uau! Esse texto foi incrível!

Adorei a forma como você escreve, traz uma imensa reflexão sobre coisas várias. O ideia do texto em si é fantástica, adoro quando paradoxos são colocados a nossa frente, criamos questões novas, a maneira como o sol e a lua representaram as fases do protagonista... tudo muito bem feito!

Meus parabéns, Sena!

Postado 14/12/20 14:32

Querido Sena,

Que prazer imensurável ler uma obra com tamanha riqueza! Eu particularmente, achei esta obra fantástica em todo gênero, número e grau, que qualidade de escrita, enredo... Estou como disse o Silva, "Estupefata"!

Empregou perfeitamente bem, cada uma das frases que escolheu, como se elas sempre tivessem pertencido à você, ao Roberto, ao bordel, às almas perdidas e a todo o universo pesado e intrigante que você, com maestria construiu!

Sua narrativa é instigante, contagiante, nos faz enxergar todos os mil lados que uma história e uma vida podem ter, e admito que me fez refletir muito (sobre algo que irei te contar por mensagem, se me permitir hahaha).

Um texto extremamente coeso, muito criativo, real, nu, ardeu-me os olhos ver a verdade estampada, ardeu-me o coração ver ele preso a estes dois mundos. Espero que ele consiga se salvar destas prisões que o rodeiam e enfim poder encontrar-se com seu verdadeiro eu e fazer as pazes com cada fantasma que o rodeia.

Agradeço do fundo de minha alma perdida, pela sua ilustre participação em meu concurso!

Postado 19/01/21 21:23

Sem palavras, entendi muito bem o motivo de ser um texto campeão, tomara que eu escreva tão bem um dia. parabéns Gostei como você brinca entre a figura de linguagem e o literal e faz isso com uma maestria incomum.

Postado 15/02/21 14:27

Oh, Lúcifer... Este é aquele tipo de obra cuja leitura captura a mente, coração e alma de um modo profundo e poderoso. Sinto um profundo arrependimento por ter demorado tanto para ler este texto, pois ele é um retrato acurado e visceral de muitos/todos nós, cada qual com suas máscaras, aflições, questionamentos e incertezas acerca de si...

Sua vitória neste concurso foi mais que merecida e lhe parabenizo grandemente por esta obra fantástica, Sr Sena!

Atenciosamente,

um ser que nunca mais se reconheceu nas raras vezes em que se olhou no espelho, Diablair.

#AD04

Postado 17/02/22 11:12

Encontrei esse seu texto só à essa altura do campeonato. Me sinto ofendido por mim mesmo por nunca ter achado Uma(s) Noite(s) Daquelas e mais ainda por ter lido tão tardiamente. Simplesmente uma das obras mais finas, elegantes, marcantes que li até hoje na AC.

Muito obrigado por me proporcionar essa leitura e parabéns pelo texto sensacional.

Até!