Era o último dia do mês de outubro, dia trinta e um, dia dos mortos, das bruxas e de todos os medos. Dia em que os senhores do medo rastejam par fora da terra e que as criaturas do submundo se divertem demasiadamente. Mas para Lena, não passa de um dia de crianças mal educadas com roupas em farrapos e maquiagens escandalosas. Ela brinca, caçoa e denigre a imagem dos senhores do medo, dos mitos e medos, seu namorado diz “não brinque com quem das garras não podes escapar”. Lena debocha, e replicava estupidamente “O que eles vão fazer? Puxar meu pé durante a madrugada?" E em seguida gargalha com astúcia.
Passava da meia noite quando Lena sentiu algo afiado em seu pé esquerdo. Ela sacudiu o pé, mas aquilo não passava. Se sentou na cama e olhou a sua frente, não acreditou no que viu. Esfregou os olhos com força. Era um sonho? Pesadelo? Fruto da sua imaginação, certamente. Tentou acordar seu namorado, mas ele estava dormindo profundamente. O próprio satã, o Deus do medo e do submundo estava a sua frente. Chifres, rapo pontudo, unhas longas e afiadas como uma navalha, uma lança com a ponta tão afiada que cortava só de olhar, dentes pretos e olhos escaldantes, pele vermelha como sangue e tão quente que o sol se sentia humilhado. Ele sorriu com desdém, e isso causou um arrepio tenebroso em Lena, algo que lhe tocou além da epiderme. Ainda com o sorriso no rosto o Deus das almas penadas pergunta “Não vai me chamar de tolo agora? Não vai rir de mim?”. Lena fica sem palavras e sem ar.
O sorriso deu lugar a um semblante serio e impiedoso. Ele agarra as pernas da moça e puxa violentamente em direção ao chão. Lena grita mas ninguém a escuta. “Não adianta gritar, você não pode escapar das garras do mal”. Ela chora, se debate, soluça e tenta se agarrar a qualquer coisa a sua frente. Não adianta, seu namorado tinha razão. Ela implora por piedade e liberdade, mas ele ignora tudo que sai de sua boca.
Ele abre a porta do armário e no lugar de casacos caríssimos aparecem dois demônios (menos feios que o original) e um lugar infernal. O tão temido inferno. Ele não teve piedade, arrastou a garota pelos cabelos e suas unhas arranhavam seu rosto. Ela se debatia freneticamente, mas era inútil. Ele era forte. Muito forte.
Lena olhou para trás e atrás de si viu o portal se fechar, e nessa hora teve certeza que nunca mais veria o calor do sol de novo, somente o calor do inferno. Naquele maldito lugar foi escravizada e açoitada, e seria assim para sempre.
Era oito horas da manhã, seu namorado acordou, mas Lena não estava lá. No seu lugar havia manchas de sangue e seguindo as manchas com os olhos ele encontrou escrito na parede “NÃO SE PREOCUPE, NÃO A PROCURE, ELA NUNCA VOLTARÁ. NÃO SE PODE FUGIR DAS GARRAS DO MAL”. Ele correu pela casa a procura de sua namorada, colocou em sua cabeça que tudo não passava de uma brincadeira de mal gosto da namorada. Mas não era verdade. O telefone celular tocou. O número era sinistro “666666”, era o diabo, não havia dúvidas. “Não adianta procura-la, ela não pode ser encontrada” e o celular se desligou. Ele procurou nas listas de ligações recebidas, mas nada, como se nem tivesse sido recebida aquela ligação. Ele discou o número macabro, mas o número dizia estar ocupado. Até o diabo está ocupado.
Se passaram anos desde que tudo aconteceu. Lena visitava seu namorado todo ano dia trinta e um. Ela havia arrumado uma nova namorada, uma viva de preferência. Mas seu amor por Lena permaneceu. Eles se encontravam todos os anos no cemitério e ali, entre as tumbas se embrenhavam de prazer e desejos. E assim foi, até o final da vida de seu namorado. Porém acabou tudo com sua morte, ele foi pro céu, mas não durou muito sua estadia lá. Um amor proibido se iniciou e sua expulsão do paraíso foi imediata.
E ASSIM ELES VIVERAM INFELIZES PARA SEMPRE.