O uivo do vento quente e desértico era o único som que era ouvido naquele lugar. A imensidão do nada era tudo o que podia ser visto além daquelas ruínas enterradas e se desfazendo lentamente conforme o tempo passa. Caminhei pelo tempo que seria equivalente a incontáveis eras, sentindo o frio da não-existência nas solas do que eu suponho já tiveram o nome de pés.
Eu já fui o maior dos reis, já tive o maior dos impérios e certamente já fui possuidor do bem pelo qual pessoas morreriam e matariam para ter. Mas afinal, do que esse bem serviria se a morte recaísse sobre aqueles que tentassem tê-lo? Seria tudo um grande desperdício.
Eu tive honras e prazeres que nenhuma outra forma já imaginou ter. Presenciei eventos tão raros e decisivos e que mesmo assim sumiram em questão de segundos, deixando para trás uma pequena marca que poucas existências poderiam lembrar.
Eu fui criado, eu nasci. E assim como toda coisa existente, é meu dever encontrar um fim e dar lugar a algo novo. Ah!, fiquei tão cego pelo poder de ser uma força natural que esqueci que meu tempo também era limitado.
Irônico.
E você, na qualidade de um mero observador de uma época distante e esquecida, deve estar se perguntando quem sou eu.
Bem, meu caro, eu sou o próprio tempo! Eu sou o tal bem que muitos tentaram possuir, entender e até modificar. Assim como todas as coisas existentes e que possuem alguma forma de vida – seja lá como ela for – minha hora de dizer adeus chegou. Já cumpri o papel que me fora designado no momento de minha criação. E deste modo, vendo os últimos resquícios do meu poder – agora transformado em ruínas – virando pó, eu voltarei ao meu criador e serei só mais uma força apagada esquecida na programação da própria existência.