Fios Brancos
Victoria Ramos
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 03/07/16 13:40
Editado: 03/07/16 14:01
Gênero(s): Cotidiano Drama
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 1min a 2min
Apreciadores: 11
Comentários: 6
Total de Visualizações: 988
Usuários que Visualizaram: 14
Palavras: 300
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Fios Brancos

- Não mexe no meu cabelo, estrupicinha!Mas era divertido.

Ela pegava a escova e organizava seu cabelo prateado. Era tão brilhoso e sedoso... Eu não resistia. Passava a mão nele, e ela brigava. Sempre fora assim.

Uma velha teimosa e talentosa. Aprendeu a ler e escrever sozinha. Queria aprender a tocar piano, mas resolveu passar o teclado para o bisneto, incentivando-o a aprender. Hoje ele é músico.

Cozinheira de mão cheia! As almôndegas que fazia, acompanhando uma deliciosa macarronada, era o que seu marido mais gostava de comer – nós também! E ela não conseguia ficar parada. Aprendeu a pintar. Começou com caixas, passou para potes de vidro, enfim pintou um quadro. Ela gostava muito de um que pintara; uma negra usando um vestido laranja. Eu também gostava.

E quando digo que ela não parava, falo a mais pura verdade! Amava plantar. Sua varanda era repleta de plantas. Ela amava orquídea; ganhou uma de presente do filho caçula. O primeiro bonsai que fez foi para o primogênito.

Ela os amava. Todos os seis filhos, dezessete netos e dezesseis bisnetos. A família era grande, e seu coração ainda maior. Sou um dos dezesseis. A admirei pintando, se maquiando, cozinhando. A ouvi rir, gritar, contar histórias de sua mocidade. Pintei suas unhas, baguncei seu cabelo. Vi suas lágrimas, senti sua fé. E me arrependo.

Arrependo-me de não ter aproveitado mais de sua sabedoria, de estar “ocupada” demais para visitá-la. Arrependo-me de ter ficado com raiva por coisas tão pequenas; sei que ela não fazia por mal, e que era uma mulher de gênio forte. Porém, mesmo que eu me arrependa não tem volta. O tempo passa, e com ele leva vidas. O que resta são lembranças; algumas nítidas, outras nem tanto...

- Vó, te amo.

- Eu não sou sua vó, menina! Me chame de “bisa”!

❖❖❖
Notas de Rodapé

No dia 01/02/2016, aos 92 anos, minha véia teimosa me deixou. Como segunda bisneta tenho muitas lembranças dessa mulher que passou os últimos dois anos de sua vida sem saber que o que a levaria de nossas vidas era o câncer.

Aproveitem os mais experientes de suas famílias enquanto podem. Uma hora o tempo deles chega, e o que nos resta são apenas lembranças e a dolorosa saudade.

Apreciadores (11)
Comentários (6)
Comentário Favorito
Postado 03/07/16 15:59

Agora sei de onde se origina parte da grandeza do seu coração, Srta Vic...

De longe este é um dos textos mais repletos de sentimento que tive a oportunidade de ler (não ouso de forma alguma usar a palavra "prazer" ou derivações por conta do quê gerou tal obra) neste site.

A narrativa e as descrições são tão fluidas e primorosas quanto tristes ao final do conto, que nos submerge em algumas realidades que costumamos ignorar: a passagem do tempo e como nós lidamos com o quinhão que nos é "dado", a falha em priorizar/valorizar o que REALMENTE se deve, a mortalidade do Homem... E, principalmente, o Fim em seus amplos aspectos...

"Porém, mesmo que eu me arrependa não tem volta. O tempo passa, e com ele leva vidas. O que resta são lembranças; algumas nítidas, outras nem tanto..."

O que dizer deste solene, soturno, realista e devastador trecho? Ainda mais quando quem lê sabe muito bem do que se trata, o quanto pesa, o quando dói? Seu texto é um doloroso, todavia necessário lembrete a todos os leitores sobre a fragilidade e a preciosidade do Agora, além de uma belíssima e merecida homenagem aos mais velhos, mais sábios e mais vividos que nós.

Eu não me sinto à vontade em parabenizá-la por esta obra em si, mas o farei pele sua coragem e sensibilidade em partilhar conosco não somente seu talento, mas também suas memórias, sua história e sua dor conosco, Srta Vic. Muitíssimo obrigado por fazer/trazer da sua tristeza uma mensagem tão sublime, poderosa e impactante ao demais membros desta Academia.

Eu sinto muito. De todo o meu coração, meus pêsames.

Com todo o carinho, pesar e consideração,

Manu.

Postado 03/07/16 13:44

Minha avó paterna era uma pessoa muito legal. Até hoje faço chocolates para aqueles que eu gosto, porque na páscoa ela vinha para minha casa fazer chocolate. Morava na serra, num sítio pequenino e encantador (hoje eu ainda visito, são os meus tios mais velhos que moram lá). Só que com a morte de uma bisneta, ela teve um AVC. Depois de quatro anos ela faleceu, para mim foi algo natural, porque a cada visita ela estava mais debilitada, mas para minha prima que mora lááá em Goiás, foi repentino. Até hoje os pais dela e ela não vem aqui como antigamente.

Postado 03/07/16 14:07

Esse texto me fez pensar nas minhas véias. Tive bons momentos ao lado da bisa e da vó, mas infelizmente elas já me deixaram. Minha bisa também era muito teimosa e brincalhona também... Lembro que uma vez, quando ela já tava bem debilitada, finguiu que tinha morrido e depois gritou rindo "Peguei vocês"... É, ela tinha umas brincadeiras bem estranhas e quase matou os filhos do coração. Também me arrependo de não ter passado mais tempo com elas, de não ter aproveitado mais aquelas histórias que elas amavam contar.

Quando eu li esse texto ontem, sabia que ele deveria ser postado! Reclame o quanto quizer, Travequinha linda do meu coração, mas eu vou continuar afirmando que este é um dos seus melhores textos! Aceita que dói mesmo! u_u

Parabens! *3*

Postado 13/07/16 19:38

Só quem ama e é amado conhece essa dor, Victória.

Você homenageou sua avó (bisa), com um belo texto, repelto de amor e verdade.

Parabéns.

Postado 12/09/16 15:38

"O tempo passa, e com ele leva vidas. O que resta são lembranças; algumas nítidas, outras nem tanto... "

Nada menos que poesia! Muito bom!

Postado 15/10/22 14:16

Não consegui deixar de pensar nos meus avós, e nos meus bisos...

Lindo texto! Sensível e bonito!

Lindo <3