- Não mexe no meu cabelo, estrupicinha!Mas era divertido.
Ela pegava a escova e organizava seu cabelo prateado. Era tão brilhoso e sedoso... Eu não resistia. Passava a mão nele, e ela brigava. Sempre fora assim.
Uma velha teimosa e talentosa. Aprendeu a ler e escrever sozinha. Queria aprender a tocar piano, mas resolveu passar o teclado para o bisneto, incentivando-o a aprender. Hoje ele é músico.
Cozinheira de mão cheia! As almôndegas que fazia, acompanhando uma deliciosa macarronada, era o que seu marido mais gostava de comer – nós também! E ela não conseguia ficar parada. Aprendeu a pintar. Começou com caixas, passou para potes de vidro, enfim pintou um quadro. Ela gostava muito de um que pintara; uma negra usando um vestido laranja. Eu também gostava.
E quando digo que ela não parava, falo a mais pura verdade! Amava plantar. Sua varanda era repleta de plantas. Ela amava orquídea; ganhou uma de presente do filho caçula. O primeiro bonsai que fez foi para o primogênito.
Ela os amava. Todos os seis filhos, dezessete netos e dezesseis bisnetos. A família era grande, e seu coração ainda maior. Sou um dos dezesseis. A admirei pintando, se maquiando, cozinhando. A ouvi rir, gritar, contar histórias de sua mocidade. Pintei suas unhas, baguncei seu cabelo. Vi suas lágrimas, senti sua fé. E me arrependo.
Arrependo-me de não ter aproveitado mais de sua sabedoria, de estar “ocupada” demais para visitá-la. Arrependo-me de ter ficado com raiva por coisas tão pequenas; sei que ela não fazia por mal, e que era uma mulher de gênio forte. Porém, mesmo que eu me arrependa não tem volta. O tempo passa, e com ele leva vidas. O que resta são lembranças; algumas nítidas, outras nem tanto...
- Vó, te amo.
- Eu não sou sua vó, menina! Me chame de “bisa”!