Hey, maninha, por que está a chorar? Há um mundo lá fora, que apesar de obscuro, não se deve deixar.
Por mais que eu andasse a visão era sempre a mesma: um preto e branco surreal que se estendia por quilômetros até os confins da Terra. Todas as casas, sem exceção, estavam prestes a ruir; a esperança se esvaíra, dando lugar ao contentamento. A morte seria a salvação dessa vez, e não a perdição.
Eu deveria lutar? Mas como lutar contra algo que não é visível?! Deveria ter esperanças? Mas como a ter, se o mundo estava desabando ante aos meus olhos? O que uma criança poderia fazer?
Hey, Alice, por que não está a correr? Ainda há um motivo, então não deixe de viver.
Era inevitável sentir as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Por mais que eu quisesse ser forte, simplesmente não havia como. Eu precisava segurar a mão de alguém para sentir que tudo ficaria bem. Mas de quem? Cadê meus pais? Cadê meu irmão mais velho? Cadê toda a minha família e amigos?
Eu estava sozinha. E pela primeira vez nessas últimas semanas, percebi que realmente estava sozinha. Eles não iriam voltar. Não mais veria o meu pai chegando à nossa casa dando-me um beijo de boa noite e indo se deitar; não teria meu irmão ao meu lado para me proteger e zelar pelos meus sonhos; não teria a minha mãe para me mimar e trazer a sensação de paz.
Hey, minha boneca, sozinha você nunca estará. Olha para o céu e tenha a certeza de que sua mãe sempre a protegerá.
Uma leve garoa começou a cair e aos poucos a chuva se intensificou, transformando tudo aquilo que um dia foi a minha casa em destroços. As rajadas causadas pelo vento eram acompanhadas por vários raios que começaram a queimar tudo que havia ao meu redor, queimando minhas esperanças, minhas preciosas lembranças, minha felicidade... Queimando minha vida.
Desabei no chão enquanto assistia os prédios ao meu redor cedendo às forças da natureza. Eu não tinha mais forças para continuar de pé. A dor no meu peito era enorme e a tristeza que dominava meu coração se tornava excruciante, enquanto eu observava o futuro que havia planejado minuciosamente se tornando cinzas.
Tudo a minha volta estava desabando, todos os pilares que o sustentavam estavam se quebrando. O meu mundo estava se desfazendo aos poucos, juntamente com as minhas forças.
Hey, irmã, ouça com atenção: sobreviva e não se esqueça de viver. Nós nos veremos novamente quando você falecer.
Quando abri meus olhos estava no mesmo lugar na qual havia dormido. As paredes do quarto onde eu me encontrava eram todas pintadas de um branco irritante, e o barulho que vinham das máquinas ao meu lado constataram o indesejável: eu estava viva.
- Olha só quem acordou. Como está se sentindo agora, Alice?
Eu ainda conseguia ouvir a voz do meu irmão soando pelo quarto. Por que eles me abandonaram? Por que não me levaram junto? Como eu poderia ficar bem, sorrir e viver, sem os ter ao meu lado? Como eu fazia para parar essa tristeza?
- Alice, não chore querida! – falou o meu médico, enquanto sentava ao meu lado e afagava levemente meus cabelos em uma tentativa falha de me confortar e me fazer parar de chorar. – Sei que será difícil daqui para frente, não irei mentir, ainda mais com a pouca idade que você. Perder a família aos nove anos é realmente desolador, mas você terá que ser forte, tudo bem? O que você quer? O que posso fazer para vê-la dar um sorriso novamente?
- Eu só queria que essa tristeza fosse embora... – desabafei, enquanto sentia meu mundo terminar de cair.