O local de meu descanso final – 23:24 da noite - Sábado
O fogo chegava cada vez mais perto. A morte vinha com ele. Era possível se ouvir os gritos de homens, mulheres e crianças. Pessoas que estavam presas comigo, naquela jaula do inferno. Os escombros só caiam mais e mais sobre as minhas pernas já soterradas, prendendo-me mais e mais à rota das chamas.
Em meio aquilo tudo, só consegui agradecer. Sim, eu agradeci por meu tormento chegar ao fim. Eu agradeci, enquanto ardia no fogo, por este ser o fim do meu mau dia...
Condomínio “Bela vida” – Minha casa – 13:45 da tarde - Sábado
O primeiro passo, não foi um passo. Assim que pus o meu pé – esquerdo, diga-se de passagem - para fora da cama, escorreguei numa poça d’água criada por algum tipo de infiltração nas paredes da minha porcaria de casa de solteiro.
-- E eu achando que morar sozinho ia ser divertido. – Balbuciei para mim mesmo, depois de erguer-me do chão frio.
Assim que me virei em direção a porta eu tive um susto tão grande que quase caí novamente no chão. Parado lá, olhando-me como se assiste a algum programa de humor, estava um gato preto adulto. Sem saber como o felino havia entrado em minha casa eu gritei para espanta-lo. E consegui, todavia, espantei-o tanto, o pobre animal, que o gato saltou sobre minha cômoda, derrubando todos os meus quadros e ademais coisas de vidro.
Quando finalmente consegui espantar o bicho pela janela da minha cozinha, percebi que a mesma estava aberta a noite toda.
Ele deve ter entrado por aqui. – Pensei comigo mesmo. – Mas tenho certeza de que fechei isso ontem... Não importa! Ainda tinha o portão da garagem, então não corri tanto perigo assim. Que sort...
Fui tirado de meus pensamentos quando percebi que outra coisa estava aberta a noite toda.
-- Meus deus! Toda a comida deve ter estragado! Como fui esquecer algo assim?! - Fechei a geladeira já calculando o calor imenso da conta de luz que pagaria.
O que vou comer agora? – Olhei para o calendário, percebendo que se tratava de um feriado, então os mercados menores estariam fechados. – Supermercado, aí vou eu!
Tirei uma garrafa de vinho da geladeira, não me importando se estava ou não estragado, e coloquei-a num saco de papel pardo para leva-la comigo no carro.
Entrei na garagem e tranquei a porta que dava passagem pra cozinha, colocando a chave no meu bolso, junto a carteira e uns trocados que eu tinha separado pra pagar por algo para comer no supermercado. Porém, assim que girei a chave do carro para liga-lo, percebi que algo estava errado. Quando fui checar eu percebi que o mesmo estava sem nem um pingo de gasolina, como se ela tivesse evaporado do nada, mesmo que a anoite anterior tivesse sido uma das mais frias do ano.
Sem carro fui obrigado a ir à pé ao supermercado. Não era muito trabalho, já que o condomínio ficava umas quatro quadras longe do lugar. O problema real é que os arredores da minha residência sempre foram famosos pelas, digamos, hostilidades.
A manhã estava fria como a noite anterior, me forçando a caminhar pelas ruas perigosas dom meu bairro com meu melhor casaco - visto que os outros estavam lavando -, onde recoloquei minha carteira e deixei meu celular.
Ruas das Laranjeiras – Duas quadras longe do supermercado – 15:07 - Sábado
Se eu contasse que fui assaltado você acharia óbvio? Previsível? Bom, bem vindos ao mundo da previsibilidade! Não só o ladrão levou minha carteira e celular, como levou meu casaco junto. Ladrões também sentem frio, ao que parece.
Então lá estava eu. Somente com uns trocados no bolso, passando frio e sem a chave de casa. Sim, eu também tinha a deixado no casaco junto ao meu celular e carteira. Na pior das hipóteses o ladrão devia estar na minha casa lendo minhas revistas pornô escondidas. Bom pra ele.
Lembrei-me do vinho que tinha caído no chão quando fui assaltado. Só a lembrança dele me fez vomitar no meio da rua. Se estava estragado? Confirmado.
Vaga “E4” – Estacionamento do Supermercado – 17:42 – Sábado
Estava com fome, frio, com dor de barriga, meio bêbado e fedendo à mendigo. Além disso estava pobre, o que era bem pior. Quando fui entrar no supermercado, adivinhem? Estava fechado para reformas! Eu não sabia porque quase nunca ia para aquele lado da cidade, com meu CARRO.
A única coisa que segurou minhas lágrimas nos meus olhos foi a vista de um caixa eletrônico de bobeira, parado lá, do outro lado do estacionamento.
Acho que nunca corri tanto com um sorriso no rosto quanto corri para aquele pedaço de aço que poderia salvar meu estômago e, por consequência, minha vida.
Assim que entrei na minha conta eu descobri que ainda tinha uns trocados nela. Cerca de vinte reais. Saquei tudo, pois, depois de todo aquele sofrimento eu poderia aproveitar um lanche sem pensar num porquê de na minha conta ter tão pouco dinheiro.
Lanchonete perto do Supermercado – 18:53 – Sábado
Depois de três copos de suco, três X-burguês e algumas balinhas, eu estava pronto para ir para casa e pegar um ladrão se masturbando na minha cama. Todavia, tinha sobrado alguns trocados e eu ouvi uma música que me remeteu a infância. O som inconfundível de um circo! Um fim bom para um dia ruim? Será?
Circo dos irmãos Splatony – 22:30 – Sábado
Depois de horas de espera caminhando pelo parque de diversões ao lado do circo – só caminhando, pois não tinha dinheiro depois de pagar as entradas. – finalmente me sentei na plateia e comecei a assistir aquele espetáculo. Eu ri com os palhaços. Eu fiquei tenso com um homem pendurado na corda bamba, mas então chegaram os engolidores de fogo...
Circo dos irmãos Splatony – 22:54 – Sábado
Foi somente um erro. Somente um segundo. E a lona que cobria o circo começou a pegar fogo. Todos começaram a sair correndo, caindo uns sobre os outros, e outros sobre mim. Toda a confusão só fez o fogo se alastrar mais rápido até que as coisas começaram a cair do teto e...
Local: Circo dos irmãos Splatony
Dia da semana: Sábado
Hora da morte: 23:00
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