Ninguém diz nada; ninguém se importa. Seguem o trajeto comum, estipulado pela máquina e pela carne. Vidros sujos exibem cenários ficando para trás. Árvores asfaltadas, carros velhos, muros pichados, jardins mortos improvisados na tentativa de camuflar a extinção. Outdoors rasgados, paredes rachadas, gente dobrada, de ego quebrado, em suas vidas trincadas, banhadas nas toxinas do próprio infortúnio, da própria desgraça, da própria fumaça, que é massa e amassa, contorce, retorce, distorce o ar irrespirável.
O vidro sujo sem cortina cega do sol; a vida suja sem cor e tinta mostra quem sou. Individualista, egoísta e hipócrita. Reflete minha face em sua face e me revela, me expõe; me explora, me aflora, me deflora em floras de outro mundo, mas que é tão mundo meu. A máquina e a carne se movem. Universo paralelo prático, apático, hermético. Silêncio esférico, elíptico, oval. Olhos fechados, bocas caladas, tédio natural. Quantos monstros adormecem aqui? E acordam e levantam e descem? E saem e andam e vagam? Programados, automáticos, robóticos, mecânicos, sistêmicos, metódicos, em passos geométricos, calculados por equações desesperadas, quadradas em se enquadrarem? Afoitos, precisos, cronométricos, sintéticos à exatidão do relógio, bradam suas conquistas com os pedaços que faltam de suas almas.
Então olho para o chão; então olho para o pão pisoteado que o mendigo come e que o vidro sujo da janela me revela. Poupo o silêncio e me calo em mim. Não existem palavras que se possa falar nesse mundo. Todas elas se dizem pelo olhar.