A Terra Gira e as Camas Queimam
Francisco L Serafini
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 08/02/16 18:00
Editado: 08/02/16 18:23
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 3
Comentários: 2
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Palavras: 842
Não recomendado para menores de dez anos
Notas de Cabeçalho

Texto baseado no refrão da música Beds Are Burning, da banda Midnight Oil.

Capítulo Único A Terra Gira e as Camas Queimam

Era noite, quase as vinte horas num dia típico do começo de outubro. Já tinha bebido alguns copos de cerveja com os colegas do mestrado, o que me deixara mais reflexivo do que costumo ser. Sai do bar e decidi ir para casa a pé, tranquilamente, pensando nos diversos assuntos que foram discutidos naquela mesa repleta de opiniões fortes e argumentos bem estruturados. Impressionou-me como tínhamos visões diferentes sobre religião, política e economia, sendo alguns de nós mais radicais, outros mais em cima do muro. Discutir sobre esses assuntos levemente embriagado é muito bom, pois todos expõem suas verdades. Alguns momentos foram marcados por discussões calorosas, outros por gargalhadas intermináveis, mas o momento que mais marcou foi quando todos nós entramos em um consenso: são as próprias pessoas que fazem que o mundo ser tão problemático.

No caminho para casa, naquela noite estrelada e de temperatura agradável, avistei dois grupos distintos de pessoas, os quais se tornavam cada vez mais numerosos. Perguntei-me que raio era aquilo e logo me dei conta que, na noite que se adentrava, políticos da bancada liberal iriam debater com políticos da bancada conservadora, num palanque improvisado no meio da principal praça da cidade em um evento organizado pela rádio local. Era nítido que o perfil de cada grupo era completamente diferente, no entanto a organização e gana para apoiar os políticos que defendiam suas ideologias se assemelhavam.

Eu simplesmente os ignorei e segui meu caminho para casa. Já tinha debatido o suficiente esse assunto na mesa de bar e não estava com espirito para me juntar a toda aquela gente para ver um debate tão inútil. No entanto, meus tímpanos foram acertados por uma forte rajada de ofensas e insultos trocados entre os grupos. Senti-me uma vítima de um ato de barbárie em que as armas de destruição em massa eram gritos histéricos, ameaças de morte e discursos de ódio, as quais aniquilavam qualquer alma. A polícia não tardou em chegar para garantir que não houvesse confronto físico, no entanto não podiam conter o confronto psicológico.

Saber que todos sairiam do debate com seus corpos ilesos era reconfortante, mas ver as almas sendo trucidadas ainda me incomodava. Pensei o quão ignorante eram aqueles ataques gratuitos oriundos de pessoas que só conheciam o contexto e a realidade de seu minúsculo mundo e se consideravam os maiores sábios da galáxia. Eu precisava dar um basta naquela anarquia e, por isso e por estar embriagado, subi no palanque de forma sorrateira. Posicionei-me bem na borda, o que garantiu que eu visse e fosse visto por toda aquela gente. Respirei fundo e com todas as forças gritei:

— Como vocês conseguem dançar enquanto a Terra gira?!! Como vocês conseguem dormir enquanto suas camas queimam?!!

Em um instante, todos estavam voltados para mim, em silêncio, perplexos com a cena que vivenciavam. Visto que eu tinha conseguido chamar a atenção de todos, continuei.

— O mundo enfrenta os mesmos problemas a milhares de anos e tentamos resolvê-los da mesma maneira a milhares de anos: através da guerra, do esparramo de sangue, do ódio! Será que já não é tempo de perceber que o problema não é o sistema, não é o governo, não é Deus, mas sim que somos nós? A porra do mundo é o que é pela soma de todas as ações que cada um pratica no seu dia a dia. Cada um de nós é responsável pela fome, pela miséria, pela tristeza, pelas doenças, pela solidão, pelo sofrimento, pelas diferenças que tanto nos incomodam! Parem de querer mudar o mundo praticando as mesmas ações de sempre. Isso é loucura! Não se pode mudar fazendo as coisas sempre do mesmo jeito. Não se pode mudar o mundo dizendo que a culpa é dos outros ou de algo inanimado como a economia ou o sistema político. Os únicos culpados somos nós e somente nossas atitudes podem mudar o mundo. Portanto, vamos parar de agir como hipócritas cegos em uma crença falha e vamos focar nossas forças em atitudes repletas de amor e compaixão! Vamos de fato mudar o mundo!

Apanhei tanto naquela noite a ponto de não ver lógica em sobreviver àquela selvageria. A polícia me agrediu por ter invadido o palanque, os conservadores e os liberais por eu ter ofendido a suas ideologias. Na verdade, eu apanhei porque quis de fato mudar o mundo, coisa que incomoda e é repudiada por aqueles que só buscam motivos para odiar as pessoas. Esses debates que existem entre as pessoas que representam uma ideologia só servem para fomentar a vontade insaciável das pessoas em aparecerem e em se sentirem poderosas dentro de suas verdades. Percebi tarde demais que o que eles realmente querem é que o mundo esteja do jeito que está. Por isso estou há 3 dias no hospital com alguns ossos quebrados. Fazer o quê? Querer mudar o mundo de fato tem seu preço. Apesar que me sinto até um pouco vencedor disso tudo, pois consegui unir três grupos que pensam diferente em uma única causa: me cagar a pau. É de se orgulhar!

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Apreciadores (3)
Comentários (2)
Postado 09/02/16 18:25

Hahahaha, adorei o final. E concordo plenamente contigo, cara, a maior falha desse planeta e o maior inimigo da humanidade é ela mesma. Parabéns pelo ótimo texto!

Postado 10/02/16 13:34

Obrigado, Daniel! É muito reconfortante ver que mais pessoas tem essa consciência.

Postado 27/06/16 21:03

Hahah! Fantástico! Concordo plenamente. A humanidade precisa tomar prumo de suas ações, mesmo que as tirem de seu conforto.

Postado 04/07/16 18:16

Exatamente! Só não podemos pensar que a humanidade são os outros, hehehe.

Obrigado pelo comentário!