Lá estava eu, um cara normal, voltando da academia com minha calça sem bolsos, camisa simples e tênis que deveriam ter sido trocados meses atrás, não sei se foi por preguiça ou por falta de interesse que não o fiz... mas isso não vem ao caso, voltando ao assunto, estava andando por um caminho que eu não conhecia muito bem, meu cansaço me obrigara a dormir no ônibus me fazendo parar três pontos depois do que eu deveria descer, sem mais dinheiro minha única opção era largar a preguiça e andar até em casa. Maldita seja a hora em que decidi ir à academia de noite, os postes de luz da rua estavam em sua maioria quebrados ou fracos demais para dar qualquer luz significativa, haviam só dois ou três funcionando um deles acima de um carro cuja cor não consegui identificar, alguma coisa entre vermelho e roxo, o outro um pouco mais longe me permitiu ver algo passando por ele, uma pessoa aparentemente inofensiva, alta, magra vestia uma bermuda e uma camisa mas por algum motivo fiquei apreensivo ao vê-la , não entendi exatamente o porquê mas depois percebi, ele era negro. Eu nunca tive qualquer problema com negros, tinha um ou dois conhecidos negros os quais nunca tratei diferente de qualquer outra pessoa, porém a televisão nos faz sempre ter a imagem de que o negro é o bandido, ver ele ali, chegando cada vez mais perto de mim, naquela rua escura e deserta me despertou um medo terrível, vejo-o vindo em minha direção na calçada imaginando todos os tipos de cenário, roubo, assassinato, estupro, todo tipo de crime imaginável, vi vultos negros se movendo pela rua — é só minha imaginação — pensei, — estou ficando paranóico —, continuei a andar e pensar nas mais terríveis coisas, mas sem a certeza se aquilo iria acontecer ou não, então me veio a ideia mais estúpida que já tive e que por algum motivo pareceu sensata na hora. Atravessar a rua. Se ele quisesse fazer alguma coisa, atravesaria também ai eu teria certeza e fugiria correndo como um desgraçado de um velocista, caso não apenas seguiria meu caminho, então o fiz, atravessei olhando discretamente para o lado espiando para ver se ele atravessava também, não o fez, fiquei aliviado por precaução me escondi atrás do carro cuja cor eu ainda não tinha descoberto, um ato estúpido eu sei, mas me fez sentir seguro quando o vi virar a esquina, tive certeza de minha segurança e na hora que me virei o destino me puniu por ser um desgraçado racista, ao que parece aquele vulto que vi mais cedo não era minha imaginação, era um cara correndo para se esconder atrás do carro, e mais ironicamente era um branco, ele apontou uma arma para mim e disse — Me dá tudo que você tem ai — eu lhe mostrei minha calça sem bolsos, meus sapatos vergonhosos e minha camisa que não tinha nada de especial ao que parece isso o deixou bastante nervoso pois no momento em que ele percebeu que não tinha nada para roubar-me o bastardo atirou em meu peito. Agora estou aqui, um espirito cuja entrada no céu não foi permitida porque a ultima coisa que pensei antes de morrer foi — Negro Filho da puta —. Maldito seja meu racismo.