"Que situação horrível", pensou Alice. Sua timidez chegava ao ponto de ela tremer só de pensar que teria de falar com alguma pessoa ou ficar em um cômodo cheio de pessoas. Estava sem ar apenas por pensar. Era o seu primeiro dia na faculdade e não sabia como iria sobreviver aos próximos cinco anos naquele lugar. Procurava não fazer barulho ao subir as escadas de madeira do dormitório. As pessoas lhe encaravam curiosas, mas ela não retribuía, passava por toda a massa de corpos de cabeça baixa. Levantou os olhos apenas para procurar o quarto. "632. 632. 632". O número pulsava em sua cabeça. O quarto era no final do corredor, com a porta virada para a escada no lado contrário. Com a chave que ganhara ao se matricular, Alice abriu a porta se preparando para ter que falar com quem estivesse ali dentro. Para sua surpresa e seu alívio, o cômodo estava vazio. Em parte.
- Ótimo. - Alice comentou ao ver a parede contrária à sua lotada de folhas com contas astronômicas. Literalmente. - Astronomia.
Apoiou a bolsa em sua nova escrivaninha e começou a abrir as caixas de papelão com as coisas que havia trago de casa. Organizou seus livros na estante acima da escrivaninha e arrumou e guardou as roupas nas gavetas embutidas na cama. Olhou-se no pequeno espelho que herdara da falecida mãe. Penteou com os dedos os fios loiro-caramelizados, encarando os olhos castanhos. Tinha traços carnudos e delicados, resultando numa beleza exótica. As sardas completavam o pacote.
Saiu no corredor, agora vazio, e tomou seu rumo em direção ao refeitório para pegar um grande copo de café com leite descafeinado. Tomava goles curtos enquanto observava os universitários aglomerados no jardim como o gado tocado. Eles estavam procurando um clube de atividades extras no qual se encaixar. Alice passou a perambular pela multidão, apesar da timidez. A decoração das barracas chamavam a sua atenção, além de ela estar seguindo a sua meta de superar a solidão que a timidez trazia e arrumar alguns amigos. Mesmo assim, procurava um clube com pouquíssima gente ou algum que fosse de literatura. A busca interminável a deixava apreensiva. Passando os olhos freneticamente pelos painéis, de repente, sua visão estacionou sobre uma barraca vazia. Quase vazia. Nenhum painel anunciava o propósito do clube. Porém, havia um pedaço de papel sobre a mesa. Podia não ser nada, assim como podia ser algo. A curiosidade da menina se coçava querendo descobrir o que havia e se havia algo naquele papel. Felizmente não fora uma viagem perdida. Havia uma frase ali.
"Procure por Beta Fisk onde tudo está registrado."
Alice riu consigo mesma.
- Belo jeito de descrever a biblioteca.
Dirigiu-se à biblioteca feliz por achar algo que lhe interessava. Na porta de carvalho do recinto estava colada a imagem de uma mulher de óculos pedindo silêncio. Ao entrar, a menina encontrou o local vazio. A bancada da bibliotecária ficava à esquerda e pesadas mesas de carvalho posicionavam-se à direita. Atrás destas, um mar de estantes se estendia e, além dele, havia uma escada cujo topo não era visível, pois ficava além do teto. Em cima da bancada repousava outro papel.
"Pegue carona na espiral do caracol."
Passando pelas estantes, Alice parou no pé da escada e encarou o topo. Era escuro lá em cima. "Talvez seja um trote para calouros", pensou ela. Entretanto, mesmo desconfiada, Alice seguiu. Sua curiosidade era gigante. Já lá em cima, tudo o que se dava para enxergar era a silhueta da fechadura. Olhando através desta, Alice encontrou um cavalete com outra mensagem.
"Quebre regras. Entre e descubra. As consequências, é claro."
A menina tateou a parede de cima a baixo e descobriu a maçaneta da portinhola que possuía metade de seu tamanho. Atravessando-a, Alice se descobriu em um corredor comprido e claro devido à iluminação proveniente das janelas góticas. Sem medo, passou pelo cavalete e seguiu em frente até achar uma porta trancada. Atrás da porta era possível ouvir uma discussão entre um homem com a voz esganiçada e uma mulher rouca e sarcástica. O assunto era a Revolução Francesa. Hesitante, ela bateu na porta. A gritaria cessou quase que imediatamente. Os batimentos de Alice começaram a acelerar e ela queria sair dali o mais rápido possível para se trancar no quarto. Mas sua meta e, o mais importante, a sua curiosidade, a mantiveram ali. O silêncio reinou até Alice forçar a voz a sair.
- Estou procurando por Beta Fisk.
Com um tranco a porta se abriu, revelando duas cabeças. Uma era um homem com óculos redondos que aumentavam seus olhos demasiadamente. Os cabelos castanhos estavam fixos com gel para trás. A outra era uma mulher de cabelos pretos curtos. Trazia no rosto uma maquiagem pesada e vários piercings. O jeito como o chiclete fazia barulho quando ela mastigava era nojento.
- Quem é você? O que você quer? - perguntou a mulher.
- Meu nome é Alice Carter. Eu vi o anúncio do grupo de vocês lá embaixo e resolvi procurar por Beta...
- Entre. - o homem a puxou com força e fez com que Alice tropeçasse. Entretanto, ela não caiu. Lançou um olhar fuzilador ao homem. - Temos visitas.
Alice seguiu seu olhar. Atrás de uma mesa de madeira clara encontrava-se uma cadeira de couro preta. Ao girar, ela revelou um jovem com o cabelo azul raspado nas laterais da cabeça. Seus olhos castanhos penetravam na pele de Alice como várias agulhas medicinais, fazendo-a formigar. Seu sorriso era sarcástico. Com as mãos entrelaçadas sob o queixo, sua voz saiu suave e aveludada:
- Eu sou Beta Fisk.