Estou aqui. E peço as bençãos de Deus. Para escrever uma estória. Então me lembro de uma mestra. Ela dizia que o que escrevemos é como um filho de que tratamos bem. Eu não sei se há exagero nisso. Mas uma estória escrita com cuidado, é uma estória bem cuidada.
Eu tinha uma namorada lá na minha cidade natal. De repente minha família se muda. Para a capital. Eu logo arrumo um emprego. Minha vida passa a ser a de quem trabalha muito.
Um dia, lá para as tantas, eu resolvo e escrevo uma carta. Endereçada à aquela namorada. Coloco a carta no correio.
Passa-se o tempo. Nada de resposta. Eu já vou me esquecendo que eu escrevi para ela.
Mas não a chamo de ingrata. Seria muito mal tratá-la. Fico sabendo que ela está namorando. Penso: "Meu Deus, será que fiz mal?"
Com o tempo já nem me lembro da namorada. Hoje sei que era um amor feito fogo em palha, que logo se consome. Assim que a palha acaba, já não há fogo.
E ela termina o novo namoro. Digo de mim para mim: "Prá lá com essa menina."
Foi então que recebi carta dela. Leio, mas no meu peito bate novo amor. E lá vou eu.
Depois fico sabendo que aquela menina para quem escrevi já engatou novo relacionamento amoroso. Concluo que ela tem facilidade de se arrumar.
Nesse correr da estória lá estou casado.
Minha mulher vasculhando minhas coisas acha uma carta. Me espera chegar do trabalho e me pergunta:
- De quem é essa carta?
- Isso faz muito tempo - eu digo.
Ela pergunta:
- Posso rasgar?
- Pode. Pode até por no fogo.
Minha mulher põe no fogo a carta, e me diz:
- Meu bem, eu te amo.
Hoje vivemos felizes e satisfeitos um com o outro.