Minha dor se encaixa
Perfeitamente
Na cadeira do escritório
Minhas costas se conectam
Ao formato "ergonômico"
Que causa desconforto
Durante todo o itinerário
Meus dedos de tanto trabalhar
Espasmam e travam
Em momentos sem qualquer receio
Meu olho esquerdo falha
Para enxergar qualquer verdade
Que costumo ignorar por medo
E às vezes, minha mente pena
Ao tentar criar
Qualquer texto que não
Sirva ao propósito de vendas
Minha boca late xingos
E berros e rugidos
Quando saio correndo da mesa
Para o banheiro
É pior em outros empregos
É o que repito e repito
Desde o primeiro
Vendo minha alma
Para comprar comida
Vendo meus dons
Pra pagar continha
Muto meus sons
E fico na minha
Ouvindo, ouvindo
Os sussurros quentes
Dessa estrutura
Que sempre estraçalhou mulheres
E robotizou homens
Ouvindo, ouvindo
Risadinhas sem graça
Que planejam o próximo
Caos controlado
No ambiente de trabalho
É pior em outros empregos
É o que repito e repito
Desde o primeiro.