Os passos molhados e desajeitados de Sofia, escorregavam à medida que iam avançando até o quarto número 9, ela mal conseguia respirar e sua visão começava a ficar turva, ela estava fazendo o possível para ser discreta, mas assim que conseguiu destrancar a porta do quarto desabou:
- Paulo, vamos embora agora!!! - ela caiu no chão, exausta, em estado de choque.
Paulo estava meio sonâmbulo, olhou para fora e viu que já era de noite.
- Agora??? - ele ralhou.
- S-s-sim!!! - ela gaguejava e chorava.
- O que aconteceu??? - ele se levantou da cama num pulo quando percebeu que sua namorada estava paralisada de pânico.
- Xiiiiu, fica quieto! Só pega as coisas e vamos embora, por favor!!! - num impulso de desespero ela deu um pulo e saiu juntando todas as coisas, colocando tudo desajeitamente na mochila.
Paulo só obedeceu, não fazia ideia do que estava acontecendo, mas nunca viu tanta seriedade nos olhos e na fala de sua amada antes.
Foi vestindo a roupa, colocando as meias, fechando zípers, enquanto tentava tirar mais informações da moça, que só ia ficando mais ansiosa minuto a minuto.
- Mas... Sofia, a gente viajou mais de 1000km só para vir pra cá... É nosso aniversário! - ele resolveu tomar as rédeas da situação.
- Foda-se! Eu não posso ficar aqui, você não pode ficar aqui, eu não sei o que eu vi, mas... A gente está em perigo, vamos embora!
- Como assim, em perigo? O que você viu? - ele notou as roupas de banho ensopadas, os joelhos ralados e as unhas recém feitas, sujas de barro - Alguém mexeu com você, Sofia??? Quem foi?! - ele adotou uma pose de machão.
- Não, não é isso, ninguém mexeu comigo, mas tem... Alguma coisa no laguinho! Eu juro! - ela começou a tremer dos pés a cabeça.
Paulo caminhou até a varanda e ficou observando o lago.
- Não temos tempo pra isso Paulo! Só... Acredita em mim, a gente chama a polícia no caminho! - ela já tinha fechado todas as malas, então correu rapidamente até o banheiro para se lavar e vestir roupas secas.
- Polícia? Sofia, se você não me disser o que aconteceu, como eu vou conseguir ajudar?! - ele gritou.
- Para de gritar seu doente, eles podem estar ouvindo! - ela arremessou um tubo de pasta de dentes na cabeça de seu amado.
Paulo já não sabia o que fazer, havia gastado mais de R$5.000,00 naquela viagem que ele não queria fazer desde o começo, mas fez por ela. Ansioso e sem entender nada, ficou vigiando o lado de fora.
- Vamos Sofia! Se é pra irmos embora, então vamos!
- Só um minuto, ai meu Deus... Cadê a porra do meu celular??? - ela começou a surtar.
- Pelo amor de Deus Sofia! Você deixou lá no lago? - ele bufou.
- Não... Eu não sei...
Paulo continuou observando o lado de fora, tentando entender todo o surto, mas tudo parecia normal... As águas eram como um espelho, refletindo o verde intenso das árvores e arbustos que cercavam o lago. A névoa da noite pairava sobre a superfície, acrescentando um toque misterioso à atmosfera. Sons suaves da natureza preenchiam o ar, como se sussurrassem segredos antigos...
E então, com sua visão de falcão, ele encontrou o celular na mesinha próxima a margem do lago.
- Sofia, seu celular está em cima da mesinha lá no lago... Vou lá pegar.
- Nem fodendo!
- Mas essa merda foi quase dez mil conto, Sofia! Não dá pra falar "foda-se!" pra isso!
- Dane-se celular, depois eu compro outro vamos embora agora, antes que os caseiros apareçam! - Sofia colocou todas as malas nas costas e já estava pronta pra zarpar.
- Paulo, cadê os seus tênis?! - Sofia largou as malas no chão estarrecida.
- Puts, estão lá na mesinha também, olha lá! - ele apontou para o lado de fora, onde o celular de última geração e os tênis caros estavam aguardando como uma isca.
- Foda-se, amor, eu compro tudo de novo, eu não me importo, não vai no lago!!!
- Vai ser rapidinho Sofia, calma! - ele colocou as duas mãos no ombro de sua amada maluquinha e beijou sua testa gentilmente.
- Não, Paulo, você não está entendendo!!!
- Então me explica! O que exatamente aconteceu lá fora? O caseiro safado mexeu com você? - ele a abraçou, tentando conter a crise.
- Não... Eu não sei o que eu vi... Ou o que eu senti, mas foi muito, muito estranho Paulo! Acredita em mim... - ela o abraçou forte.
- Soso... O que você ACHA que viu... Ou sentiu? Fala pra mim... Aí vamos embora! - ele se sentou na cama e ela se sentou em seu colo.
Respirou bem fundo, conteve as lágrimas e sussurrou:
- Eu estava nadando, coloquei meu celular na mesinha e fui dar um mergulho... E quando eu mergulhei Paulo... - ela começou a tremer de novo.
- O que você viu?
- Eu vi umas... Ah... Meu Deus... Eu JURO que vi umas cabeças... Cabeças de gente embaixo da água! Eu JURO! - ela se levantou bruscamente - Pronto, podemos ir?
- Como assim???
- É... Foi muito rápido, eu vi e subi de novo pra superfície e vim correndo, tanto que deixei o celular lá!
- Mas como assim cabeças? Tem certeza? Tipo... Como se alguém tivesse se afogado? - ele gelou todinho.
- Pior, bem pior! Vamos, vamos!
Prontamente os dois se levantaram, Paulo calçou um chinelo qualquer.
- Vamos pela varanda, assim os caseiros não nos pegam, você acha que eles que fizeram isso? - Paulo indagou aos sussurros.
- Paulo, se tem uma coisa que essa vida me ensinou é a desconfiar de tudo e todos!
Então o casal foi saindo pela varanda, mas Paulo não ia deixar tanto dinheiro para trás naquela mesinha velha perto do lago.
Sofia correu até o carro, jogou as malas no porta-malas. Paulo abriu a porta do motorista, ligou o motor e olhou para sua noiva.
- Sofia, eu só vou ali rapidinho buscar o celular e os tênis, rapidinho, um minuto!
- Paulo, não! Vamos embora!
- Sofia!!! É um iPhone e são meus Jordans, nem fodendo eu vou deixar pra trás, é literalmente um minuto! - ele bateu a porta do carro e foi correndo até a mesinha.
- NÃO!!! PAULO!!! - Sofia hiperventilava, sem saber o que fazer, urrou suas últimas palavras.
Uma pena que Sofia não conferiu se o banco de trás estava desocupado...
Paulo foi iluminando a penumbra da noite com a lanterna de seu celular, foi caminhando ao longo da margem. A vegetação densa lançava sombras sinistras sobre a água escura.
E bem quando ele alcansou seus investimentos mais significativos, uma força invisível e silenciosa agiu imediatamente sobre ele, puxando-o para dentro da água escura.
Sem emitir um som sequer, o homem desapareceu nas profundezas do laguinho, como se fosse sugado por um enigma da natureza. Bolhas d'água brotaram na superfície. Manchas de sangue pintaram o painel do carro do ano.
E logo, os dois amantes, se tornaram lindas novas aquisições para a coleção de corpos jovens do fundo do laguinho.