O laguinho da pousada
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/10/23 13:20
Editado: 31/10/23 01:02
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 9min
Apreciadores: 3
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Palavras: 1137
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único O laguinho da pousada

Os passos molhados e desajeitados de Sofia, escorregavam à medida que iam avançando até o quarto número 9, ela mal conseguia respirar e sua visão começava a ficar turva, ela estava fazendo o possível para ser discreta, mas assim que conseguiu destrancar a porta do quarto desabou:

- Paulo, vamos embora agora!!! - ela caiu no chão, exausta, em estado de choque.

Paulo estava meio sonâmbulo, olhou para fora e viu que já era de noite.

- Agora??? - ele ralhou.

- S-s-sim!!! - ela gaguejava e chorava.

- O que aconteceu??? - ele se levantou da cama num pulo quando percebeu que sua namorada estava paralisada de pânico.

- Xiiiiu, fica quieto! Só pega as coisas e vamos embora, por favor!!! - num impulso de desespero ela deu um pulo e saiu juntando todas as coisas, colocando tudo desajeitamente na mochila.

Paulo só obedeceu, não fazia ideia do que estava acontecendo, mas nunca viu tanta seriedade nos olhos e na fala de sua amada antes.

Foi vestindo a roupa, colocando as meias, fechando zípers, enquanto tentava tirar mais informações da moça, que só ia ficando mais ansiosa minuto a minuto.

- Mas... Sofia, a gente viajou mais de 1000km só para vir pra cá... É nosso aniversário! - ele resolveu tomar as rédeas da situação.

- Foda-se! Eu não posso ficar aqui, você não pode ficar aqui, eu não sei o que eu vi, mas... A gente está em perigo, vamos embora!

- Como assim, em perigo? O que você viu? - ele notou as roupas de banho ensopadas, os joelhos ralados e as unhas recém feitas, sujas de barro - Alguém mexeu com você, Sofia??? Quem foi?! - ele adotou uma pose de machão.

- Não, não é isso, ninguém mexeu comigo, mas tem... Alguma coisa no laguinho! Eu juro! - ela começou a tremer dos pés a cabeça.

Paulo caminhou até a varanda e ficou observando o lago.

- Não temos tempo pra isso Paulo! Só... Acredita em mim, a gente chama a polícia no caminho! - ela já tinha fechado todas as malas, então correu rapidamente até o banheiro para se lavar e vestir roupas secas.

- Polícia? Sofia, se você não me disser o que aconteceu, como eu vou conseguir ajudar?! - ele gritou.

- Para de gritar seu doente, eles podem estar ouvindo! - ela arremessou um tubo de pasta de dentes na cabeça de seu amado.

Paulo já não sabia o que fazer, havia gastado mais de R$5.000,00 naquela viagem que ele não queria fazer desde o começo, mas fez por ela. Ansioso e sem entender nada, ficou vigiando o lado de fora.

- Vamos Sofia! Se é pra irmos embora, então vamos!

- Só um minuto, ai meu Deus... Cadê a porra do meu celular??? - ela começou a surtar.

- Pelo amor de Deus Sofia! Você deixou lá no lago? - ele bufou.

- Não... Eu não sei...

Paulo continuou observando o lado de fora, tentando entender todo o surto, mas tudo parecia normal... As águas eram como um espelho, refletindo o verde intenso das árvores e arbustos que cercavam o lago. A névoa da noite pairava sobre a superfície, acrescentando um toque misterioso à atmosfera. Sons suaves da natureza preenchiam o ar, como se sussurrassem segredos antigos...

E então, com sua visão de falcão, ele encontrou o celular na mesinha próxima a margem do lago.

- Sofia, seu celular está em cima da mesinha lá no lago... Vou lá pegar.

- Nem fodendo!

- Mas essa merda foi quase dez mil conto, Sofia! Não dá pra falar "foda-se!" pra isso!

- Dane-se celular, depois eu compro outro vamos embora agora, antes que os caseiros apareçam! - Sofia colocou todas as malas nas costas e já estava pronta pra zarpar.

- Paulo, cadê os seus tênis?! - Sofia largou as malas no chão estarrecida.

- Puts, estão lá na mesinha também, olha lá! - ele apontou para o lado de fora, onde o celular de última geração e os tênis caros estavam aguardando como uma isca.

- Foda-se, amor, eu compro tudo de novo, eu não me importo, não vai no lago!!!

- Vai ser rapidinho Sofia, calma! - ele colocou as duas mãos no ombro de sua amada maluquinha e beijou sua testa gentilmente.

- Não, Paulo, você não está entendendo!!!

- Então me explica! O que exatamente aconteceu lá fora? O caseiro safado mexeu com você? - ele a abraçou, tentando conter a crise.

- Não... Eu não sei o que eu vi... Ou o que eu senti, mas foi muito, muito estranho Paulo! Acredita em mim... - ela o abraçou forte.

- Soso... O que você ACHA que viu... Ou sentiu? Fala pra mim... Aí vamos embora! - ele se sentou na cama e ela se sentou em seu colo.

Respirou bem fundo, conteve as lágrimas e sussurrou:

- Eu estava nadando, coloquei meu celular na mesinha e fui dar um mergulho... E quando eu mergulhei Paulo... - ela começou a tremer de novo.

- O que você viu?

- Eu vi umas... Ah... Meu Deus... Eu JURO que vi umas cabeças... Cabeças de gente embaixo da água! Eu JURO! - ela se levantou bruscamente - Pronto, podemos ir?

- Como assim???

- É... Foi muito rápido, eu vi e subi de novo pra superfície e vim correndo, tanto que deixei o celular lá!

- Mas como assim cabeças? Tem certeza? Tipo... Como se alguém tivesse se afogado? - ele gelou todinho.

- Pior, bem pior! Vamos, vamos!

Prontamente os dois se levantaram, Paulo calçou um chinelo qualquer.

- Vamos pela varanda, assim os caseiros não nos pegam, você acha que eles que fizeram isso? - Paulo indagou aos sussurros.

- Paulo, se tem uma coisa que essa vida me ensinou é a desconfiar de tudo e todos!

Então o casal foi saindo pela varanda, mas Paulo não ia deixar tanto dinheiro para trás naquela mesinha velha perto do lago.

Sofia correu até o carro, jogou as malas no porta-malas. Paulo abriu a porta do motorista, ligou o motor e olhou para sua noiva.

- Sofia, eu só vou ali rapidinho buscar o celular e os tênis, rapidinho, um minuto!

- Paulo, não! Vamos embora!

- Sofia!!! É um iPhone e são meus Jordans, nem fodendo eu vou deixar pra trás, é literalmente um minuto! - ele bateu a porta do carro e foi correndo até a mesinha.

- NÃO!!! PAULO!!! - Sofia hiperventilava, sem saber o que fazer, urrou suas últimas palavras.

Uma pena que Sofia não conferiu se o banco de trás estava desocupado...

Paulo foi iluminando a penumbra da noite com a lanterna de seu celular, foi caminhando ao longo da margem. A vegetação densa lançava sombras sinistras sobre a água escura.

E bem quando ele alcansou seus investimentos mais significativos, uma força invisível e silenciosa agiu imediatamente sobre ele, puxando-o para dentro da água escura.

Sem emitir um som sequer, o homem desapareceu nas profundezas do laguinho, como se fosse sugado por um enigma da natureza. Bolhas d'água brotaram na superfície. Manchas de sangue pintaram o painel do carro do ano.

E logo, os dois amantes, se tornaram lindas novas aquisições para a coleção de corpos jovens do fundo do laguinho.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Cuidado por onde se aventuram... Alguns lagos são mais fundos do que aparentam...

Até a próxima!

Apreciadores (3)
Comentários (3)
Postado 30/10/23 14:25

Tá aí, todos os ingredientes de um p**a suspense! O seu jeito de descrever os momentos de tensão, pânico, urgência não tem igual. Quando a gente vê, já estamos entrando no desespero junto com a Sofia e o Paulo.

Ah, e o lago parece que só queria realmente fazer crescer o seu círculo de amigos. Ele é muito apegado aos visitantes e, na boa, o melhor funcionário da pousada rsrsrs.

Muito fodaaaaa!

Imperceptivelmente,

Sjow

Postado 19/11/23 10:39

Como sempre, impecável, real, palpável, e ainda sim tão lúdico, é ideal, há uma vibe de filme de terror dos anos 80, a mulher sensitiva, tenta escapar, o homem descrente tenta compreender, e bem, a demora para ir embora do local leva ambos a morte. Eu consegui captar o medo de Sophia, a sensação da morte a alcançando como uma mão invisivel constante, e Paulo, era um cara legal, carinhoso, mas muito apegado ao material, quem sabe a criatura do lago não tenha se enfurecido com isso? Nunca saberemos.

Amei a escrita, a ambientação, tudo.

Parabéns, como sempre, e um abraço da Estrelinha!

Postado 19/11/23 10:39

Como sempre, impecável, real, palpável, e ainda sim tão lúdico, é ideal, há uma vibe de filme de terror dos anos 80, a mulher sensitiva, tenta escapar, o homem descrente tenta compreender, e bem, a demora para ir embora do local leva ambos a morte. Eu consegui captar o medo de Sophia, a sensação da morte a alcançando como uma mão invisivel constante, e Paulo, era um cara legal, carinhoso, mas muito apegado ao material, quem sabe a criatura do lago não tenha se enfurecido com isso? Nunca saberemos.

Amei a escrita, a ambientação, tudo.

Parabéns, como sempre, e um abraço da Estrelinha!

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