A cobrança
Pequena Estrela
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 14/10/23 21:05
Editado: 11/03/25 09:08
Avaliação: 9.75
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 7
Comentários: 5
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Palavras: 852
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween — Terror Surreal" O Concurso Terror Surreal convida os participantes a utilizarem do surrealismo para criarem obras de terror para esse Halloween de 2023. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Espero que gostem, queridos.

Capítulo Único A cobrança

**Casebre dos Souza, Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1864.**

Era outubro. O frio invadia as frestas da janela de madeira gasta, entrava por baixo da porta velha. Senti um calafrio percorrer minha espinha nua sob a camisola, os músculos se contraindo em um arrepio desagradável. Peguei meu cobertor puído na tentativa de me esconder, tentando dormir enquanto o resto da vela que me iluminava também tentava me aquecer.

Naquele casebre abandonado do meu avô, eu morava há quase dez anos. Era a última descendente dele. Todos que vieram comigo agora estavam enterrados atrás da casa, cercados pela névoa de uma morte misteriosa, com cruzes mostrando que foram sepultados de forma cristã.

Tudo começou com mamãe, que, de repente, caiu da escada e quebrou o pescoço. Depois, papai, que morreu dormindo e apareceu com marcas horrendas no corpo, sem que nem mesmo os médicos entendessem como aquilo poderia ter acontecido. E, por último, meu noivo, que se enforcou dois dias antes do nosso casamento.

Tentei racionalizar. Pensei que fosse apenas azar, castigo por não me confessar... Achei que não era boa o bastante, que era uma provação e que, no fim, tudo ficaria bem se eu rezasse o suficiente.

Admito que tentei sair daqui, mas algo me prende, como se houvesse grilhões de ferro em meus pés, em minhas mãos... O que há neste fim de mundo que me mantém? Não é uma casa bonita, não há uma única boa lembrança.

Apenas cheiro de morte e mofo, ou então o aroma do café colhido pelos escravos, que cheiravam a suor e sangue.

No meio da penumbra, de repente, ouvi um barulho. Um estalar na madeira do assoalho.

— Mucama? És tu?

As palavras foram para o vento. Nada respondeu. Fiz o sinal da cruz sem saber no que aquilo iria dar. Nunca acreditei em fantasmas. Mesmo tremendo, ninguém me respondeu. Deus está comigo, não está?

E então, uma batida na porta velha.

Toc, toc, toc...

O relógio bateu meia-noite, algo que nunca havia acontecido. Mas como?

E então, a vela se apagou.

Agarrei-me à cruz pendurada em meu peito.

— Senhor... tenha piedade de mim — murmurei, sentindo meu corpo gelar.

— Se for escravo, identifique-se imediatamente! — ameacei.

A porta se abriu num rangido. Sabia que algo me encarava da soleira. Ergui-me, ficando sentada na cama, tremendo dos pés à cabeça, os cabelos em pé.

— Não é ser humano que fala, menina! — a voz rouca disse, baixa.

— E então é a morte? Você veio me levar, coisa ruim?! — gritei, morta de medo.

Ele apenas riu, alto e estridente, antes de caminhar até minha cama e acariciar meu cabelo com suas mãos frias. Encolhi-me, já sentindo as lágrimas inundando meus olhos.

— Não, netinha. Vim te dar um aviso.

Agora eu ouvi bem. A voz... Era de vovô. Mas não podia ser!

— Qual aviso? — perguntei, afastando-me daquele que dizia ser meu avô querido.

Ele respirou fundo. Seu hálito ainda cheirava a tabaco e cachaça, como nos tempos em que aqui vivia.

— Alguém precisa pagar pelo sangue que derramei... Há muito tempo atrás. Prometi ao diabo que, se morresse em paz, ele poderia levar minha filha, meu genro e o filho deles. No caso, você. Afinal, você também faz parte disso.

Algo sussurrou em minha mente. A voz dele entrou em meus pensamentos e disse:

*Você viu e apreciou a crueldade com que tratei aqueles homens que trabalharam no meu cafezal...*

— Eles eram apenas escravos... — murmurei, sentindo o gosto salgado do meu choro e minha boca trêmula. — Deus não deixaria eu me ferir. O senhor sempre disse que Deus nos protegia!

— Deus nos abandonou, como merecemos... — ele disse. E então senti sua presença sumir.

Ouvi passos. Dez, vinte, cinquenta de uma vez.

O batuque. O bradar de mil trovões. O cheiro de sangue e suor. O barulho do mar de onde eles vieram contra a vontade...

E então, gritos de dor, de guerra, de ódio. Promessas e vinganças em minha direção. Chamavam meu nome.

— Sinhá Flor, Sinhá Flor! Peguem Sinhá Flor!

As vozes reverberavam.

E então, de repente, como mágica, senti as mãos deles me tocarem. Senti toda a dor deles. A carne dilacerada, o fogo sobre as entranhas, as lágrimas com gosto de sangue, a violção, a humilhação, o desespero e a súplica, tudo de uma vez. Era como o inferno. Pior que o inferno! Deus, onde estás que não me respondes?

Deus me odiava. Agora eu tinha certeza.

Gritei, até ficar rouca e sem voz. A camisola já ensopada de suor e urina, vinda do medo e da dor excessiva. Eu me debatia. Ao mesmo tempo que tudo acontecia, nada acontecia. Os minutos pareciam horas!

Tudo doía. A alma, o corpo, os ossos, tudo.

— Socorro! Socorro! — eu gritava, sufocada, enquanto as almas daqueles pobres diabos me cobravam o preço inevitável.

Peguei a arma no criado-mudo. Restava apenas uma bala. Sem pensar, atirei em meu peito. Onde estava a cruz de Deus.

A dor foi rápida. O sofrimento finalmente acabou.

Flor Souza estava morta.

A promessa foi cumprida.

A morte é melhor que a escravidão.

A morte é melhor que o sofrimento eterno de não ser livre.

❖❖❖
Notas de Rodapé

É isto, que lhe causem pesadelos.

Apreciadores (7)
Comentários (5)
Postado 21/10/23 14:32

Meu Deus, é muito triste, mas eu adorei sobre a morte dos membros da família, principalmente o noivo que se matou dois dias antes do casamento, pq eu achei isso tão trágico!

Mas caramba, esse avô é um homem meio doido da cabeça, "prometi ao diabo que se morresse em paz, ele podia levar minha filha, meu genro, e o filho deles", quem faz esse tipo de promessa???

Poxa, mas fiquei realmente triste e arrasada sobre as vítimas do avô serem os escravos... E que aperto no coração eu senti ao ver que a Sinhá Flor não se importava com o sofrimento deles...

Essa história é muito importante, e deixa um recado muito pesado no final... "A morte é melhor que o sofrimento eterno de não ser livre."

Parabéns por essa história tão incrível, querida Estrelinha <3

Um enorme abraço <3

Postado 21/10/23 15:51

Como sempre seu comentário é cheio de significado e sentimento, você sempre captura o que eu quis dizer nas minhas obras e isso me deixa tão feliz! Por que significa que tive êxito. Eu estou mais que ansiosa para ver seus escritos, como sempre digo. Obrigada pelo comentário, querida Mei! Um grande abraço. ❤️

Postado 29/10/23 12:49

Cara, essa história é muito boa, sério. Era isso mesmo que tinha que acontecer com todo mundo que teve escravo. Muito bom!!

Postado 29/10/23 13:34

Obrigada pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado <3

Postado 30/10/23 02:11

Muito sinistro e super triste. Eu fiquei de cara com essa promessa maluca do avô. Sério, ele tinha pelo menos uns quatro parafusos faltando.

As mortes foram muito boas. Foi possível sentir toda a agonia da prota. Muito bom.

Parabéns e boa sorte!

Postado 01/11/23 20:39

Valeu, tô feliz demais que tenha gostado, curti ter escrito, imagino que muitos pagaram de alguma forma os atos cruéis que cometeram em suas vidas, seja em vida, ou morte.

Enfim, valeu!

Postado 30/10/23 12:03

Que angustiante! Ele preferiu dar a vida dos seus descendentes que assumir o próprio erro! E saber que infelizmente a escravidão nunca deixou de existir é o pior dos lembrentes que esse texto traz. Gostei bastante e boa sorte no concurso! Ahh a útima frase é impactante.

Postado 15/11/23 20:40 Editado 15/11/23 20:42

Olá querida Pequena Grande Estrela!

Primeiramente, fico feliz por estar participando do nosso Concurso! Agora, deixo a seguir, meu comentário sobre a sua obra:

A sua história tem um enredo envolvente e instigante, você apresentou os segredos familiares mortais e criminosos dos personagens e tudo isso culminou para que o terror se instaurasse em cada prego da Casa Branca dessa familiazinha escravagista sem vergonha (poxah, 0 pena deles kkkkk).

A sua narrativa manteve coerência interna ao longo do texto, conectando os eventos de forma fluída, mas rápida, tal qual um pesadelo insano. No entanto, em alguns trechos, a transição entre os acontecimentos poderia ser um pouquinho mais suave para evitar momentos de confusão. (mas talvez, essa pode ter sido sua intenção mesmo, de qualquer forma hehe <3)

Estrelona, você construiu uma história envolvente e com reviravoltas inesperadas, gostei da forma como o passado obscuro da protagonista e seus antepassados, foram trazidos à tona pelo próprio avô; que assim como os outros acadêmicos disseram acima, preferiu amaldiçoar a própria família, do que assumir seus erros e aceitar seu Karma.

Mas no final, a família toda estava marcada com o sangue e o sofrimento das pessoas que eles escravizaram, acho que de todos os ângulos, eles mesmos se almadiçoaram, pois apesar da Sinhá estar sofrendo com tudo isso, só demonstrou compreender a situação de forma bem superficial, tipo "só entendi por que agora doeu em mim".

Sua narrativa abordou elementos de terror surrealista ao mesclar elementos históricos, atmosfera sombria e a presença de entidades sobrenaturais. No entanto, penso que em alguns momentos, a conexão entre a história e o surrealismo poderia ser mais explorada para aprofundar a sensação de estranheza no leitor.

No geral, eu amei a leitura, você é uma ótima escritora e sempre me faz viajar para os seus universos, como se eu estivesse dentro do filme. Parabéns pela sua Obra, muito obrigada por ter compartilhado ela no nosso concurso! Em breve os resultados serão postados na página do concurso, te vejo lá! :)

Beijos barulhentos, Seis.

Postado 19/11/23 10:31

Como sempre, seus comentários causam em mim um misto de alegria e satisfação, suas analises sempre me fazem melhorar, seja na escrita ou seja ao pensar para escrever, reflito com sua reflexão, e isso é ótimo! Eu amei ter escrito isso, e ver escravagistas safados se ferrarem é meu maior hobbie kkk, então foi prazeiroso.

Amei ter participado, e anseio pelos resultados, desejo boa sorte a cada um que participou, foi sem duvida um ótimo concurso, feito com carinho seriedade.

Obrigada pelo comentário, pela análise, enfim, por estar aqui, querida Seis.

Beijos doces e abraços apertados para você <3