Me lembro do meu carro, vermelho, como o sangue que escorreu mais tarde...
Me lembro não ter tempo para pensar:
Esquerda ou direita?
Será que a culpa foi minha e não dei a seta?
Ou foi culpa das malditas decorações de Halloween
Que me assustaram quando fiz a curva?
Só tive tempo de olhar pelo retrovisor, e ter aquela sensação...
Estranhamente peculiar, de que tudo estava calmo demais
Como antes de uma tempestade noturna.
E alguma força matadora surgiu do void.
E outro carro, velho, escuro e barulhento como a morte,
De repente rodou na pista e capotou sete vezes,
Sete perfeitos jeitos de ir embora desse caos.
Antes, tivesse sido eu.
A este ponto,
Só pude saber que era inevitável,
Só pude pensar que eu não sentia mais meu corpo,
Só pude constatar, que com certeza, estavam todos moídos.
Então, sem conseguir calcular meu próprio dano,
Sem poder chegar a tempo para buscar meu filho na escola,
Sem poder impedir minhas compras de voarem pela janela,
Sem conseguir atender o celular que tocou, bem na hora,
E com toda a impotência que pode haver num ser humano,
Também me moí.
E acordei no quarto branco, com bip-bips
E fios e canos
Meu pescoço imobilizado
E meu marido dormindo no sofá ao lado
Me esperando...
Ele roncava profundamente, com os lábios entre abertos
Com os cabelos desgranhados
E os cadarços desamarrados...
Não pude tocá-lo,
Não consegui gritar,
Fiquei zonza e a máquina ao lado ficou barulhenta
Assim como dentro da minha cabeça
Ecoando... Na imensidão dos 10 metros quadrados,
Reverberando em minha caixa torácica,
Foi quando o medo de ainda estar viva, molhou os lençóis.
E num piscar de olhos, vi aquilo
Aquele tipo de coisa que você só vê uma vez
O ar gelado, começou a assoviar, do nada...
A claridade foi se transformando em sombras,
Os estalos na mente, foram ficando cada vez mais altos...
E lá estavam eles.
Os quatro.
Mamãe, papai e filhinhos.
Se arrastando debaixo da maca,
Escalando meus lençóis,
Com aquelas faces retorcidas de dor
E os olhos escuros como poços abandonados.
- Eu fiz isso...
O menorzinho, me entregou um espelho
Onde pude ver minha cabeça completamente enfaixada.
Eu solucei amargamente.
"Me desculpe" - sussurrei enquanto meus olhos se tornaram cachoeiras.
Então, eles começaram a rir, estéricamente
Um olhando para o outro, gargalhando tão alto
Que o quarto todo tremeu...
Foi quando uma névoa negra entrou pela janela,
Tomou conta dos meus olhos
Se apossou de minhas veias
Enquanto em roda, eles brincavam.
E essas foram as coisas...
Coisas que só vi uma vez
Pela última vez.