Trust no one
maddie
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 22/07/23 14:58
Gênero(s): Comédia LGBT Romântico
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 8min
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Palavras: 1004
Não recomendado para menores de doze anos
Capítulo Único Trust no one

Não confie em ninguém!

— Eu odeio o Dia de São Valentim! — Bernardo senta-se na cadeira da forma mais rebelde que consegue. — Tudo isso pra falar que ama alguém? É só mais uma data comercial cheia de baboseira. — Remexe os cabelos recém pintados de rosa claro.

Os colegas de classe (e de rock n' roll emoístico) não dão muita bola para o piti.

— Não é minha vibe, mas, cara, deixa o pessoal curtir. É legal receber uns bombons, uma cartinha, flores... — Pablo diz, mais atento ao livro gótico que está lendo (A Hipótese do Amor com uma capa falsa de Edgar Allan Poe) do que à birra de Bernardo.

— E você já recebeu? Rabugento assim?

— Pra você ver! Até eu já recebi e você nada! — Bernardo morde a língua com o apontamento. — Seu caso é sério, hein.

— Não tem como odiar uma data dessa, Nono. O amor é lindo! — Theodoro interfere, carregando uma bolsa cheia de cartinhas prontas para serem entregues.

Theo bagunça os cabelos de Bernardo, que tenta sustentar uma carranca por causa do apelido fofinho que tanto odeia.

— Não vou dizer que você só "odeia" esse dia porque nunca recebeu nada, mas bem que poderia ser. — Ele refuta revirando os olhos. — Só acho que você não se permite gostar pra manter uma postura de sei lá o que. — Bernardo tem um mini ataque cardíaco, mas se mantém pleno por fora. — Agora me digam, vocês têm alguma cartinha pra mandar que tenham vergonha de entregar? Eu entrego! — Aponta para a bolsa lotada de correspondências com coraçõezinhos e marcas de beijo.

Pablo olha por um segundo e em seguida faz que não com a cabeça, voltando para o livro. Bernardo ri como se fosse o próprio Coringa.

Eu? Mandar cartinha? — Gargalha como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Theodoro espera imóvel. — Até parece que não me conhece!

— E se não tem cartinha como você espera conquistar o…

Bernardo levanta rapidamente e tampa a boca de Theodoro. Pablo finalmente deixa o livro de lado, sorrindo divertido.

— Não é como se eu também não tivesse percebido, gênio. Quando ele passa você falta só babar.

— Eu? Babar por alguém? Pff… Até parece que vocês não me conhecem!

Os dois amigos dão um suspiro sentido pela patética tentativa de manter uma fama que ele… bom, sequer tinha.

— Agora, se me dão licença, tenho algo importante para fazer! — Sai andando tão pesado que poderia causar um terremoto, segurando a jaqueta como se sua vida dependesse disso.

— Oh meu deus, me pergunto o que isso seria. — Theo sorri de orelha a orelha.

— Tomara que tome um fora. — Pablo diz por fim, passando para a próxima página do livro.

Do lado de fora da sala, Bernardo anda pelos corredores olhando para os lados como se estivesse prestes a cometer um crime. E, na sua cabeça, não era algo muito diferente disso.

A cartinha romântica guardada meio amassada no bolso interno da sua jaqueta pesava 1 tonelada e sua respiração parecia ficar mais difícil a cada passo.

Quando finalmente chega no armário do destinatário, joga a cartinha para dentro como se fosse uma granada. Suspira fundo e, pensando que estava finalmente livre, tenta sair de fininho andando pro lado oposto do qual havia chegado. Mas, como a sorte parece não ser seu maior trunfo, dá de cara com o dono do armário.

— Realmente não dá pra confiar em ninguém nesse mundo!

Dá um pulo, encarando o garoto como se fosse uma alma penada.

Quem era ele? Victor Lee, guitarrista da banda da escola, dono de uma voz de anjo, atacante do time de futebol e, além de tudo isso, o garoto que havia alugado um triplex na cabeça de Bernardo.

— De todas as pessoas do mundo nesse São Valentim… logo você!

— É…

Bernardo pensava em qualquer mentira lavada que poderia inventar, mas Victor revira os olhos e suspira.

— Se você gosta tanto de mim… — Chega mais perto. — podia só ter falado.

Bernardo não mexe um músculo sequer. A presença de Victor era inebriante por si só, mas, a cada centímetro mais próximo que ele ficava, um torpor febril tomava conta dele. Um soprinho que ele desse, Bernardo caía mortinho-da-Silva no chão. No entanto, Vitinho não estava para brincadeira, e não tinha nenhum interesse em matá-lo (mesmo que fosse de amor).

Se aproxima mais um pouquinho e puxa Bernardo pela jaqueta rosa-choque-rebeldia-pura, abaixando o rosto dele até a altura de sua boca e dando um sorrisinho convencido antes de juntar os lábios aos dele. Bernardo corresponde, mas ao mesmo tempo pensa que está sonhando acordado e que a qualquer momento seria acordado por um peteleco doído de Pablo, mas o beijo suave e molhadinho (com direito até à língua!) é muito mais do que real. O sinal da troca de aulas toca no mesmo momento em que se separaram, dando uma margem para não serem pegos, mas aproveitarem o momento. Curtinho, mas intenso o suficiente para marcar a cabecinha do roqueiro rosa-choque para todo o sempre.

Victor sorri sacana de novo antes de sair, ainda tendo a cara de pau de dizer:

— Agora volta lá pros seus amigos pra reclamar de novo de São Valentim.

E, num piscar de olhos, some pelo corredor. Bernardo continua no mesmo lugar, com o rosto quase da mesma cor da jaqueta e a mente muito longe dali (mais precisamente acompanhando Victor até o clube de música, onde ele se dirigia no momento).

Enquanto ele pensa em muitos outros beijinhos futuros, Theodoro o assusta por trás.

— E aí, campeão? Algo me diz que deu certo.

— Que pena. — Pablo ainda tem os olhos no livro. — Pelo menos espero que sirva pra calar sua boca.

— E quem disse que aconteceu alguma coisa? — Tentou até negar, mas ao mesmo tempo percebe que estava com a famosa cara-de-pós-beijo. — Tá, mas pra informação de vocês ele nem leu a cartinha ainda. — Sai caminhando com a mão nos bolsos e o rosto tão erguido quanto conseguia (e a cabeça ainda em Victor).

— Ai, ai, não se pode confiar em ninguém mesmo… — Finaliza Pablo.

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