valquíria
Pequena Estrela
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 07/04/23 15:02
Editado: 11/03/25 08:58
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 6min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
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Palavras: 800
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Depois de um tempão, um conto.

Capítulo Único valquíria

Há tempos eu já previa como esta batalha seria. Tinha sonhado, e a vidente havia dito.

Ainda assim, me ergui da cama sem temer e fiz tranças nos cabelos para que ficasse mais difícil para um inimigo puxá-los. Coloquei braçadeiras, a roupa de lã grossa, o calção e as botas pesadas, a armadura de couro e, por último, segurei firme minha espada e escudo.

— Sabe que, se for, não voltará para casa — disse minha mãe, sem desviar os olhos da roca, onde tecia a lã.

— É o destino, os deuses quiseram assim — respondi. Fui até ela, segurei seu ombro e ela parou seu movimento repetitivo. — Se não voltar, me enterre ao lado de Yjord.

— Só isso? — perguntou, sem me fitar.

— Sim.

Me afastei e fui para fora de nossa casa. Olhei pela última vez para aquela construção de madeira, palha e suor, o sangue de meus pais que deram seu melhor pelo lar que construíram. Meu pai, já em Valhalla, sentiria orgulho da filha que não mais temia a morte.

Minha mãe queria que eu tivesse outro destino. Talvez tivesse, se Yjord estivesse vivo. Mas os ingleses o tiraram de mim na última batalha, há quatro anos. Eu ia me casar com ele, dar-lhe nossos filhos e envelhecer ao seu lado até que chegasse nosso tempo. Mas os deuses não quiseram assim.

Hoje, eu venceria, ou então as valquírias me levariam para junto dele, nos grandes salões. Não perderia nada, de qualquer maneira.

Subi em meu cavalo e saí daquela vila onde sonhei, vivi e talvez nunca mais veria. Ainda assim, me recusei a olhar para trás mais uma vez. Agora, o destino era a floresta, onde meus companheiros e companheiras estavam.

Senti o frio da floresta úmida, o frio da morte, o cheiro doce das árvores junto das flores. Irônico como a morte e as flores têm cheiros parecidos.

Quando estava perto, ouvi gritos, pedidos ao Deus deles e aos meus, espadas uma contra a outra, o bradar dos escudos. Era onde eu deveria estar. Desci do meu cavalo e me despedi do companheiro de montaria. Segui o restante do caminho a pé, calma, como em uma caminhada.

Adentrei as árvores, andei sobre o pequeno riacho, sem medo de me molhar nas águas gélidas, que logo ficariam rubras com sangue. Então, adentrei a batalha, sem medo.

Ataquei furiosamente. Até antes do riacho, eu era Tviari. Agora, sou apenas uma guerreira, que matará até o momento em que morrer.

Senti o sangue quente do inimigo escorrer sobre minha espada, assim como seu cheiro metálico. Corri, desviei, ataquei novamente outro oponente. Sua armadura de placa, tão rígida quanto a mais forte das pedras, era quase imbatível. Ataquei, então, as áreas frágeis, como axilas, atrás de seus joelhos, sua virilha. Tudo o que podia alcançar.

A cada inimigo derrubado, via a figura do meu amor mais perto. Sentia que ele segurava seu machado e gritava ao meu lado, como sempre foi.

Ouvi o comando dos homens inimigos. Não entendia sua língua, mas compreendia sua ira.

Senti flechas atingirem escudos, pessoas amigas caindo em desespero, outras arrancando com as mãos as flechas inimigas, tentando se erguer mais uma vez. E eu, ainda assim, avançava. Sabendo do destino, o abracei.

Depois de inimigos abatidos, um deles atingiu-me com sua flecha no braço. Gritei, quebrei a flecha ali mesmo. Senti quase a sensação de queimar em brasa quando a ponta não saiu e ficou alojada. Mesmo assim, corri para fora do seu alcance.

Apenas via a dor, as vísceras, o bradar, o gemer, o gritar. O cenário da guerra, como ela nunca deixou de ser.

Foi quando avistei um guerreiro que atacava uma companheira. Senti sua fúria em minha direção. Ele me fixara como sua rival. Ali e agora, todos ao meu redor se tornaram nublados. De longe, eu vi. Sem seu capacete, perdido em batalha, eu vi aquele homem e aqueles olhos azuis. Um deles se encontrava em um tom pálido. Cego.

O homem que tirou o melhor de mim.

Ele girava sua espada de duas mãos, e eu avancei, aos berros, sentindo as lágrimas cortarem meu rosto. Desviava-me, cansada. A flecha alojada em um dos braços causava-me dor insuportável, mas não maior do que aquela que meu coração sofrera.

O homem, furioso, atacava-me, feria-me. E então perdi meu escudo.

Agora, sabia: eu estava morta.

Até que, em um ato de loucura, larguei a espada, peguei o punhal e corri em direção à sua lâmina, encravando a lâmina pequena em sua garganta. E a lâmina dele trespassou meu peito.

Sorri, sentindo o gosto forte de sangue em meu rosto. Pelo sangue dele que jorrava, e pelo meu, que inundava minha boca.

Caí, e ele caiu.

Senti felicidade pela primeira vez.

E uma mão doce me puxou. Eram as valquírias.

Elas me levariam para casa.

❖❖❖
Notas de Rodapé

é isso

Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 14/04/23 14:42

Adoro suas narrativas, Pequena Estrela * --- *

Uma história forte, porém doce. Triste, porém delicada.

"sou apenas uma guerreira, que matará, até o momento que morrer" - essa foi a frase que mais gostei do texto, porque é tão forte!

Parabéns pelo texto!!

Abracinhos <3 <3

Postado 15/04/23 15:58

Amo seus comentários, sempre carinhosos querida Mei, e fico feliz que tenha gostado, estou ficando feliz em postar aqui novamente.

Um beijo e abraços bem apertados!!

Postado 15/04/23 15:59

Amo seus comentários, sempre carinhosos querida Mei, e fico feliz que tenha gostado, estou ficando feliz em postar aqui novamente.

Um beijo e abraços bem apertados!!