— Espero que todos tenham terminado, quem não entregar as 100 palavras não poderá sair.
— Você vai contar cada uma ? — Lucas perguntou no fundo da sala, sacudindo a folha em branco.
— Só as suas — Andréa, nossa professora de física, o encarava. Sua voz grossa combinava com a altura e comprimento. — faltam 5 minutos, recomendo começar a escrever.
— Me tira uma dúvida. Você sabe que também está na detenção né?
— São 15h25, quem terminou pode ir. — ela apontou para Lucas, que sorrateiramente guardava o material — você fica.
Olhei para ele, sua cara de raiva ficava vermelha segurando a lingua para não acabar aumentando o castigo. Amanda veio ao meu encontro, seu cabelo rosa e curto combinavam com a coleira que estava usando, um protesto particular contra o uniforme da escola.
— Devia ter ido para casa, já está tarde. – trouxe-a para meus braços
— Eu sei, mas não tinha quem me levar.
— Perdeu a van?
— Não... mas finge que eu te dei um bom motivo. — beijou-me suavemente.
— O melhor motivo, o que ficou fazendo? – fomos caminhando ao bicicletario.
— Dei uma volta, fiz um amigo novo... — subi na bicicleta e ela se ajeitou no banco.
— Alguém que eu conheço?
— Murillo. — comecei a pedalar, tentando lembrar quem tinha esse nome.
— Nanico, cabelo preto?
— Não seja malvado. — ela cutucou minha costela. – Mas é esse mesmo.
— Ele é esquisitão.
— Está com ciúmes? — seu tom brincalhão entregava o sorriso em seus lábios.
— Nunca na vida.
Amanda morava em um conjunto residêncial na parte alta, sempre parava uma quadra antes para ela descer, ela nunca havia pedido mas tem coisas que só se sabe. Abri o celular e notei uma mensagem não lida de minha mãe avisando que estava sem passe e precisava que eu fosse buscar ela. Isso foi as duas da tarde e já era quase cinco, fui o mais rápido que pude em direção ao centro na chance de ela ter saido tarde mas já aguardanso sentada no ponto de onibus da avenida central, com o celular na mão.
— Ia te ligar agora.
— Desculpa, saí da aula quase agora.
— Passou em casa? Sabe se teu vô já chegou?
— Não.
Andamos em silênci. Relacionamento familiar sempre foi um problema, num todo, mesmo que cada um em seu canto, eu e minha mãe viveríamos felizes não fosse pelo meu avô. Ele nos acolheu quando meu pai sumiu mas não demorou em abrir a boca para falar que não somos nada além de oportunistas. Sei que é errado pensar isso, mas eu não me importaria se ele ficasse demente. Da esquina era possível ouvir o barulho de música alta e o álcool podia ser sentido da calçada, Gabriel, filho de uma das mulheres que saiam com meu avô, estava sentado no degrau da porta.
— Gabriel! Tudo bem? — minha mãe abriu o portão e foi até ele — ta aí a muito tempo? quer comer alguma coisa? — O garoto estava quieto, pálido e as olheiras delatavam negligência.
— Não, to esperando a minha mãe, ela mandou eu ficar aqui.
— Olha, eu to indo para praça — apoiei a bicicleta no muro e fui em direção a ele. — se quiser, pode vir comigo.
Minha mãe me olhou agradescida e foi para dentro. O dia virava noite e as luzes gradativamente acendiam, mesmo com os fios era uma cena bonita de se ver, o chão estava quente pelo sol e o vento fresco da noite começava a aparecer.
— Tá com quantos anos? - iamos com tranquilidade, podia ver que ele estava inquieto.
— Sete-e-meio.
— Só isso? Achei que já tinha uns vinte. — ele sorriu, sua postura relaxou e aproveitei para paramos e pegar um picolé do ambulante — Quando é teu aniversário?
— Não sei, acho que foi semana passada — sentamos em um banco — ou deve ser semana que vem.
— Feliz aniversário então — inclinei meu picolé e brindamos — de antes e para depois
— Valeu — ele balançava os pés enquanto olhava para cima pensativo — alguém já conseguiu ir até lá em cima?
— Do jacarandá? Acho que não, ele deve ter uns 500 metros... MAS! dizem que o topo é tão perto do céu que se fizer um pedido Deus atende na hora.
— Alguém já conseguiu?
— Vai saber. — dei de ombros. — mas sempre tem um primeiro.
Ficamos ali até a mãe dele aparecer, mesmo bagunçada e visivelmente embriagada ele foi correndo, feliz. Despedindo-se com uma mão, usava a outra para guiar ela pela rua. O céu tinha escurecido e as pessoas começavam a ir embora. Olhei para o jacarandá, se fosse verdade eu poderia ser o primeiro.