Te vejo correndo até a fruteira na ponta dos pés. Você olha para os dois lados, conferindo se ninguém está vendo a cena do crime, porém se esquece de olhar para trás: o lugar onde sempre estarei para admirar seus passos. As duas mãos adentram o lar de todas as frutas e, de lá, retira três delas.
Te vejo correndo da fruteira até a borda da janela da cozinha. Você posiciona com cuidado o limão siciliano no chão e, em seguida, empilha as duas tangerinas, que ficam na mesma altura do cítrico ao lado. As duas mãos se apoiam na borda da janela, enquanto os pés se sustentam sobre as frutas.
Te vejo encarando o mundo do lado de fora, como se estivesse o vendo pela primeira vez. Você estica o bracinho e aponta para cima, declarando com doçura:
— Oiá o céu, Tata. Ele tá pertinho demais agora... quase dentro do meu coração.
Te vejo imenso dentro da eternidade do céu. Você fala de infinidade como se ela fosse sua melhor amiga; como se tudo o que fosse preciso para alcançá-la estivesse na altura do seu dedinho e dos seus tamancos de tangerina e limão siciliano.