Mia Faccile
Francisco L Serafini
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 11/04/16 11:37
Editado: 11/04/16 13:40
Gênero(s): Comédia
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
Total de Visualizações: 1021
Usuários que Visualizaram: 8
Palavras: 912
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Pois bem, eu acho que esse texto é o mais próximo dos que escrevi capaz de representar a minha vida. Ele foi inspirado no dia a dia do autor e dos que o cercam.

A classificação indicativa tá para 18 anos, pois existem alguns termos que podem ser muito ofensivos a algumas pessoas. Eu para mim, esse texto seria livre, haha, pois não tem nada que eu considere ofensivo.

Utilizei algumas poucas expressões do dialeto vêneto, pois se faziam necessárias. No final, coloco a tradução delas.

Espero que gostem dessa comédia besta.

Capítulo Único Mia Faccile

Porco dio, vou te dizer, é complicado viver nessa casa. O cara pensa que as coisas vão melhorar com o tempo, mas não, não muda nada. Acho que só fica pior, na verdade. Quem é chato só fica mais chato enquanto envelhece. Ontem à noite decidi dormir no sobrado, para evitar os chatos, mas quando chegou de manhã, dio cane, a bagunça já era generalizada. Era gente batendo panela e gritando, era gato, vaca e cachorro brigando, era trator e máquina de moer milho bufando. Vara, nem dormir nessa casa dá mais, dio porco dio!

Só para vocês terem ideia, eu estava dormindo, bem belo e faceiro, quando de repente escuto um estouro: “Pou!” Mas, dio porco, levei um susto que tá louco. Comecei a olhar para todas as direções para ver de onde vinha o barulho. Num lado, a porcaria do penico cheio e fedido. No outro lado, um casal de pomba fazendo amor. Até olhei para aquele casal de pombinhos e me chamou a atenção de como eram agitados. O macho por cima beliscava a cabeça da fêmea e, bem velozmente, fazia a reprodução acontecer. Tá louco, era um agito intenso, mas não tinha como eles serem os autores do estouro. Era coisa de algo grande.

Decidi deixar de lado a fonte do barulho e levantar. Meio sonolento, encontrei com minha mãe, que segurava uma vassoura com sua mão, pronta para subir as escadas para vir até o sobrado.

— Bom dia, mãe.

Porco dio, neno! Ainda dormindo? Vai te atrasar para a escola!

Dio cane, mãe! É domingo hoje. Nem no domingo dá para dormir?

— Dormir? Eu pensei que tu tinha morrido. Já tava subindo pra te dar uma vassourada, já que dar uma chinelada no teto não adiantou para te acordar.

— Então veio dali o estouro?! Dio cane, mas por que não dá para dormir nem no fim de semana?

— Tá todo mundo de pé e só tu dormindo. Imagina se todos fazem isso. Quem vai tirar leite das vacas ou fazer a comida?

— Mas, véia, eu tô com o pé quebrado! Tenho que ficar em repouso, dio porco!

— Vai lá na cozinha ajudar teu irmão e para de resmungar.

Dio cane, que velha xarope. Não consegue me ver parado. Está sempre me mandando em volta. Semana passada, para fazer as vontades dela e parar de ser xaropeado, eu escalei o pé de amora para pegar algumas das frutas, mesmo que ainda estivessem verdes. Ela queria colocar amora no bolo. Dio cane, ela nem gosta de amora, só queria me mandar fazer algo. Escalei a planta e subi uns dez metros, para poder pegar as mais maduras. Só que quando apoiei meu peso num dos galhos, eu fui parar no chão. O porco dio do galho estava podre. Resultado: um pé quebrado. Ela acha que eu fui descuidado e que por isso que eu me machuquei. Vara... se eu não fosse tranquilo, dio porco dio.

E hoje de manhã, só para não ser espezinhado de graça, fui para cozinha ajudar o meu irmão. Cheguei lá, ele estava tomando café da manhã. Em cima da mesa tinha chimia, queijo, pão, polenta, fortaia, água quente, café e açúcar. Sentei no lado do meu irmão e o cumprimentei:

— Bom dia.

— Bom dia.

Porco dio, acaba de engolir antes de falar. Não sabe que é feio falar de boca cheia?

— Cala a boca, burro.

Porco dio, me respeita! Eu sou mais velho.

— Burro dum burro.

Dio cane, neno. Me respeita. Tá me xingando e de boca cheia. Não se faz assim.

— Por que tu não vai pegar umas amora, burro surdo?

Porco dio dum dio porco! Para de me provocar! Vou te enfiar o salame no cu.

— Tenta, então.

Dio cane. Cadê o salame?

— Comi tudo.

— Tu comeu todo o salame?! Dio cane, não deixou nada para mim? Aposto que tu comeu puro.

— Sim.

Dio porco dio, tu não sabe que tem que comer salame com pão?! Senão não sobra nada aos outros.

— Sei sim. E que tal calar a boca, seu xarope?

Tchó, quando ele me disse para calar a boca de novo e me chamou de xarope, eu não me aguentei. Não tenho sangue de barata. Desde que amanheceu, já tinha aguentado a mãe me incomodando e o meu irmão me provocando. Levantei da mesa e peguei a colher de mexer polenta e dei nas costas deles. Dio pistola, pensa numa mescolada nas paletas! Voou polenta por toda a cozinha e a formato da colher ficou gravada nas costas dele. Ele, inclusive, deu uma bestemada que certamente o levou direto ao inferno. Começamos a trocar soco e pontapé, se jogar comida e se ofender fortemente. Quando, de repente:

Dio porco dio dum dio cane, seus bandidos barulhentos que só aprontam. Vocês não têm consideração com ninguém, nem comigo, nem com o pai de vocês. Nós não levantamos cedo, não trabalhamos dia e noite como um boi, para ter dois filhos que não se amam e não respeitam ninguém...

Dio cane, a velha nos flagrou e nos deu um sermão de meia hora. Sermão que tive que ouvir porque ela me acordou cedo e porque meu irmão comeu o salame inteiro, dio porco. Esse tipo de situação vem acontecendo há muito tempo e só mostra como essa casa tudo se torna exagerado e numa grande bagunça. Tenho que ouvir xingamentos atrás de xingamentos e sempre sem culpa, porco dio! Vara, é como eu dizia: mia faccile viver nessa casa, dio porco dio.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Porco dio, dio cane, dio porco dio, dio porco, dio porco dio dum dio cane = ofensas a Deus. Nunca são usadas para ofender a Deus, mas sim para relaxar, mostrar raiva, mostrar dor, definir algo que não gosta.

Vara = olha

Neno = pia, moleque

Véia = velha, mãe

Chimia = tipo de geléia

Tchó = é algo como "tchê", como "bah".

Fortaia = tipo de omelete

Mescolada = dar um golpe, agredir utilizando a mescola.

Mescola = colher de pau utilizada para preparar polenta

Bestemanada = ato de bestemar

Bestemar = blasfemear

Mia faccile = não é fácil

Apreciadores (4)
Comentários (3)
Comentário Favorito
Postado 11/04/16 13:23

Suas comédias são as melhores, LEcrivain, sinceramente. E esse mundo de termos! Fiquei feliz de já usar normalmente chimia ahahuauahua!

Parabéns <3

Postado 11/04/16 13:42

Chimia. Que palavra engraçada. Na época da escola, ela tinha um significativo muito diferente do original, hehehe.

E tchê, não fala assim que eu acredito, hehehe. Bah, muito obrigado pelo elogio e pelas palavras =D

Postado 11/04/16 14:31

Um espetáculo de texto, foi como se eu pudesse estar novamente dentro de uma família italiana. casei-me com um e sei muito bem o engraçado dessas situações. muito bom...me diverti bastante com a barulhada que vc descreveu. parabéns.

Postado 11/04/16 14:47

Hahaha. Famílias italianas, sempre tão dramáticas e barulhentas. São impressionantes! Mas analisando friamente, é uma comédia muito hilária e por isso tive que escrever sobre isso.

Fico feliz que tenha gostado e se divertido, Maria! Obrigado pelas palavras!

Postado 12/04/16 17:35

Hilária mesmo kkkk

Ri bastante quando os irmãos começaram a brigar haha

Pobre rapaz!

Ótimo, Chico!

Postado 12/04/16 18:23

Hahaha. Pois é.. Briga saudável entre irmãos, hehehe.

Obrigado, Joy!