Porco dio, vou te dizer, é complicado viver nessa casa. O cara pensa que as coisas vão melhorar com o tempo, mas não, não muda nada. Acho que só fica pior, na verdade. Quem é chato só fica mais chato enquanto envelhece. Ontem à noite decidi dormir no sobrado, para evitar os chatos, mas quando chegou de manhã, dio cane, a bagunça já era generalizada. Era gente batendo panela e gritando, era gato, vaca e cachorro brigando, era trator e máquina de moer milho bufando. Vara, nem dormir nessa casa dá mais, dio porco dio!
Só para vocês terem ideia, eu estava dormindo, bem belo e faceiro, quando de repente escuto um estouro: “Pou!” Mas, dio porco, levei um susto que tá louco. Comecei a olhar para todas as direções para ver de onde vinha o barulho. Num lado, a porcaria do penico cheio e fedido. No outro lado, um casal de pomba fazendo amor. Até olhei para aquele casal de pombinhos e me chamou a atenção de como eram agitados. O macho por cima beliscava a cabeça da fêmea e, bem velozmente, fazia a reprodução acontecer. Tá louco, era um agito intenso, mas não tinha como eles serem os autores do estouro. Era coisa de algo grande.
Decidi deixar de lado a fonte do barulho e levantar. Meio sonolento, encontrei com minha mãe, que segurava uma vassoura com sua mão, pronta para subir as escadas para vir até o sobrado.
— Bom dia, mãe.
— Porco dio, neno! Ainda dormindo? Vai te atrasar para a escola!
— Dio cane, mãe! É domingo hoje. Nem no domingo dá para dormir?
— Dormir? Eu pensei que tu tinha morrido. Já tava subindo pra te dar uma vassourada, já que dar uma chinelada no teto não adiantou para te acordar.
— Então veio dali o estouro?! Dio cane, mas por que não dá para dormir nem no fim de semana?
— Tá todo mundo de pé e só tu dormindo. Imagina se todos fazem isso. Quem vai tirar leite das vacas ou fazer a comida?
— Mas, véia, eu tô com o pé quebrado! Tenho que ficar em repouso, dio porco!
— Vai lá na cozinha ajudar teu irmão e para de resmungar.
Dio cane, que velha xarope. Não consegue me ver parado. Está sempre me mandando em volta. Semana passada, para fazer as vontades dela e parar de ser xaropeado, eu escalei o pé de amora para pegar algumas das frutas, mesmo que ainda estivessem verdes. Ela queria colocar amora no bolo. Dio cane, ela nem gosta de amora, só queria me mandar fazer algo. Escalei a planta e subi uns dez metros, para poder pegar as mais maduras. Só que quando apoiei meu peso num dos galhos, eu fui parar no chão. O porco dio do galho estava podre. Resultado: um pé quebrado. Ela acha que eu fui descuidado e que por isso que eu me machuquei. Vara... se eu não fosse tranquilo, dio porco dio.
E hoje de manhã, só para não ser espezinhado de graça, fui para cozinha ajudar o meu irmão. Cheguei lá, ele estava tomando café da manhã. Em cima da mesa tinha chimia, queijo, pão, polenta, fortaia, água quente, café e açúcar. Sentei no lado do meu irmão e o cumprimentei:
— Bom dia.
— Bom dia.
— Porco dio, acaba de engolir antes de falar. Não sabe que é feio falar de boca cheia?
— Cala a boca, burro.
— Porco dio, me respeita! Eu sou mais velho.
— Burro dum burro.
— Dio cane, neno. Me respeita. Tá me xingando e de boca cheia. Não se faz assim.
— Por que tu não vai pegar umas amora, burro surdo?
— Porco dio dum dio porco! Para de me provocar! Vou te enfiar o salame no cu.
— Tenta, então.
— Dio cane. Cadê o salame?
— Comi tudo.
— Tu comeu todo o salame?! Dio cane, não deixou nada para mim? Aposto que tu comeu puro.
— Sim.
— Dio porco dio, tu não sabe que tem que comer salame com pão?! Senão não sobra nada aos outros.
— Sei sim. E que tal calar a boca, seu xarope?
Tchó, quando ele me disse para calar a boca de novo e me chamou de xarope, eu não me aguentei. Não tenho sangue de barata. Desde que amanheceu, já tinha aguentado a mãe me incomodando e o meu irmão me provocando. Levantei da mesa e peguei a colher de mexer polenta e dei nas costas deles. Dio pistola, pensa numa mescolada nas paletas! Voou polenta por toda a cozinha e a formato da colher ficou gravada nas costas dele. Ele, inclusive, deu uma bestemada que certamente o levou direto ao inferno. Começamos a trocar soco e pontapé, se jogar comida e se ofender fortemente. Quando, de repente:
— Dio porco dio dum dio cane, seus bandidos barulhentos que só aprontam. Vocês não têm consideração com ninguém, nem comigo, nem com o pai de vocês. Nós não levantamos cedo, não trabalhamos dia e noite como um boi, para ter dois filhos que não se amam e não respeitam ninguém...
Dio cane, a velha nos flagrou e nos deu um sermão de meia hora. Sermão que tive que ouvir porque ela me acordou cedo e porque meu irmão comeu o salame inteiro, dio porco. Esse tipo de situação vem acontecendo há muito tempo e só mostra como essa casa tudo se torna exagerado e numa grande bagunça. Tenho que ouvir xingamentos atrás de xingamentos e sempre sem culpa, porco dio! Vara, é como eu dizia: mia faccile viver nessa casa, dio porco dio.