Pela fresta da janela os raios de sol invadem o quarto. Sinto o calor sob o meu rosto, ainda com os olhos fechados estico o braço esquerdo e apalpo o lado esquerdo da cama. Não tem ninguém.
Abro os olhos e sento na enorme cama de casal, os lençóis sempre brancos e impecáveis, mas que escondem a pior das sujeiras. Na mesa da cabeceira vejo os fracos de remédios e um copo com água, assim como nos dias passados, eu pego as pílulas brancas e vou até o banheiro, sem pensar duas vezes a jogo no vaso sanitário e aciono a descarga.
Ao sair do quarto sinto o cheiro dos ovos fritos vindo da cozinha, caminho devagar enquanto uma música melancólica toca ao fundo. Pedaços de maças são jogados no mixer que começa a produzir aquele barulho típico.
- Hoje eu faço o suco – anuncio quando entro no cômodo.
Um sorriso de canto surge em seus lábios, como se não quisesse discutir apenas levanta as mãos e joga o avental para que eu possa assumir o comando.
Vou à geladeira e pego as folhas, depois de lavar o mixer coloco dentro e adiciono bastante açúcar. O suco verde embrulha meu estômago. Mas não sou eu que irei beber. Sirvo em dois copos grandes e levo até a mesa que já está servida.
Comemos os ovos, as frutas e as panquecas, tudo parece está melhor que das últimas vezes, mas eu anseio que o suco seja tomado, o meu continuará intacto e quando eu vejo o copo sendo levado até seus lábios, aquele sorriso torto surge novamente. Os meus olhos se estreitam e a minha garganta começa a arder, sinto o meu estômago borbulhar e o vômito atinge a mesa, sem saber o motivo vejo entre a baba verde pedaços da folha que eu usei.
Volto o meu olhar para cima e aquele sorriso continua enquanto a sua mão levanta o copo como um brinde e vejo aquela boca sussurra o meu nome: Belladonna.