Eu gosto de escrever na madrugada. Desfrutar do seu silêncio precioso. Sentir a brisa refrescante da noite. Já durante o dia, não digo o mesmo. É uma muvuca perturbadora. Por que, de certa forma, o dia tem a sua breguice. As pessoas estão em seu modo “on”. Que trocando em miúdos, significa que não conseguem ficar paradas, quietinhas nos seus lugares. Falam demais. Gritam demais. Buzinam demais. E as crianças então... misericórdia meu Deus! O dia é aquele momento temerário em que ficam desembestadas. Verdadeiros capetas em miniatura. E durante a noite, viram os anjinhos de sempre. Tudo bastante natural. Pois à noite, entramos em nosso modo “off”.
Apesar do estrangeirismo, não devemos estranhar as expressões “on” e “off”. Já caiu no gosto popular e não tem mais volta. Pensando bem, até seria bom aportuguesar. Mas nem sempre o resultado dá muito certo. O uai-fai poderia ser confundido com uma misteriosa expressão mineira. E a verdade é que estamos em um modo desses ou no outro. Quanto a mim, o meu é “off” durante o dia e “on” durante a noite. O que me suscita algumas indagações existenciais.
Eu seria um vampiro sem saber? Mas é algo muito improvável. Até desmaio, quando vou tirar sangue e olho para a seringa. É um vexame colossal. Quem sabe sou igual aos cachorros, que vivendo com pessoas, pensam que são humanos, sem saber que são cachorros. Nesse caso, ao invés de um cachorro, eu seria um morcego. Sim, um morcego com crise de identidade. Adotado quando ainda era apenas um morceguinho indefeso. Só que infelizmente (ou não!) também é muito improvável. Há bastante tempo, acreditem, tentei voar. Coisas de um menino sem noção. E essa imbecilidade custou me espatifar no chão com um dente quebrado. Assim, pode ser que a resposta seja mais simples. Eu apenas faça parte da humanidade que troca a noite pelo dia.
Dessa forma, compartilho com as corujas esse meu modo “on” de ser. E quem sabe, até seja mais interessante de me expressar para o mundo. Afinal, lobos uivam ao luar.