José Carlos, sessenta anos, paciente terminal, enfermaria oncológica, câncer de pulmão. Há seis dias, colocado na enfermaria sete. Conhecida informalmente como o Quarto da Morte, onde ficam alojados os que não têm família. E estão no fim da última etapa doe seu ciclo biológico. Porque todo ser humano, se não der azar, é igualzinho às demais criaturas. Nasce, cresce, se reproduz, se entedia e MORRE.
O paciente está sozinho. Quase teve uma companhia. Pouco antes de chegar, a jovem Cleoneci foi para a eternidade. Pagar por todos os seus pecados. José olha fixamente para o teto. Dois enfermeiros aparecem na entrada.
- E aí, já partiu?
- Quê! O velho é forte. Tá dando o maior trabalho. Vai fazer uma semana que “morre e não morre”.
- Veio alguém?
- Ninguém.
- Que bosta, irmão! Eu não quero morrer assim, abandonado.
- Pois é, fazer o quê?
- Olha só! – apontou um deles.
O paciente virou a cabeça e olhava para os dois. Fez um gesto, com a mão descarnada, pedindo que se aproximassem. Os enfermeiros se entreolharam, surpresos. Foram em sua direção. José tinha um olhar profundo. E falou algo baixinho. Um enfermeiro franziu a testa.
- Que ele disse?
O outro deu de ombros: – Também não escutei.
E aproximou o ouvido da boca de José. Mas, dessa vez, ele falou com a voz determinada e os dois ouviram.
- Um último pedido.
Os enfermeiros ficaram em silêncio, curiosos. Um deles balançou a cabeça afirmativamente e falou:
- Pode pedir.
- Eu quero um.. um.. um... um cigarro.
- Deus do céu, isso a gente não pode dar!
O outro emendou:
- Não pode. Aqui é um hospital.
José voltou a olhar para o teto, fechou os olhos. Os enfermeiros ficaram ali, desconcertados, sem saber o que fazer. Então, viram uma lágrima escorrer daquele rosto pálido.
- Que se foda tudo! – escutaram o Jose dizer baixinho.
Houve um longo silêncio. Os enfermeiros, impressionados, não percebiam o tempo se arrastar. Aquele era o último desejo de um homem, que passava por um sofrimento brutal. Um tomou a palavra:
- Quer saber, vamos levar até o banheiro.
- Pra quê?
Apalpou ostensivamente o bolso da calça. E o outro compreendeu. Puseram José, que parecia indiferente a tudo, numa cadeira de rodas e se trancaram no banheiro. Do bolso, foi tirada uma carteira de cigarros. José despertou, com o cheiro de tabaco. Um foi colocado em sua boca impaciente. Acenderam um fósforo. Queriam que fosse o mais rápido possível e iriam pedir. Mas desistiram, afinal, era o último desejo daquele velho moribundo
Um apenas falou:
- Vai em frente.
José fumou pausadamente. Saboreando a fumaça venenosa que, durante décadas arrasou a sua saúde. Depois da última tragada, olhou ternamente para os enfermeiros e agradeceu:
- Obrigado!
Eles corresponderam, com um aceno de cabeça. Depois, botaram José no seu leito. Ele repousou a nuca sobre o travesseiro, como só há muito tempo tinha feito. E sorriu. Os enfermeiros sentiram um estranho alívio. A alma leve. Saíram respeitosamente do Quarto da Morte. Tinham certeza do que realmente iria acontecer. Finalmente José deu seu último suspiro. E morreu em paz.