Ai, caramba! Cadê meu celular? Será que está aqui entre o pedaço de queijo e o pote de maionese? Ou atrás do pote de feijão? Pô, mas nem aí?! Só pode estar dentro do pote, então. Que merda! É a quinta vez que abro essa merda de geladeira e não encontro a porra do celular! Será que enfiei onde essa merda?
No quarto não pode estar. Faz três semanas que não entro naquele ninho de cachorro. Está muito melhor dormir no desconfortável sofá da sala, do que lavar as roupas sujas que se acumulam sobre a cama. Mas a merda é que, na sala, o celular também não está. Já a virei por completo. Eu podia jurar que ele estava entre o vídeo game e a televisão. Mas não. Ali, estava meu aparelho ortodôntico, o qual, inclusive, não sabia que tinha perdido. Enfim, quem sabe esteja no banheiro? Mas lá também não está. Já procurei dentro do pote de gel, onde costumo encontrar tudo que seja pequeno e esteja perdido.
Ao me ver em buscas sem fim, minha mãe sempre me indaga: “onde tu viste o celular pela última vez?” Vou eu saber onde eu o vi pela última vez. Mas de qualquer maneira, a indagação me faz parar e refletir sobre minhas ações passadas. Vamos tentar, então! Não, ontem não estava com ele quando lavei a louça – portanto, na cuba da pia não está. Também não o usei como controle remoto da televisão e pela sala eu não o vi. No banheiro? Não, tomei banho sem ouvir música. Será que o deixei no bolso da calça?! Duvido muito. Estou sempre com ele na mão.
Mas que ódio que sinto de mim. Sério! Toda a vez que preciso encontrar algo é esse parto. Nunca acho minha carteira, nunca acho meus óculos! O controle da televisão?! Bom, esse faz mais de ano que não uso, por não saber onde ele está. Como eu gostaria de ser mais atencioso e menos distraído. Mas para isso, teria que mudar principalmente minha genética.
Enfim, tenho que me conformar e voltar à busca. Tenho certeza que vou encontra-lo entre a panela de arroz e as latas de cerveja. Aliás, cervejas quentes, essas. Vou colocá-las no congelador e aproveito para verificar novamente no interior do pote de feijão. Pode ser que o encontre entre os grãos de feijões vermelho e preto. Isso, claro, se eu conseguir abrir a porta da merda do congelador. Essa bosta não abre mais de tanto que já o fiz. Mas nada que um puxão mais forte não resolva.
É, pois é. Não foi desta vez em que o celular se deslocou de onde ele teima em se esconder para onde meus olhos teimam em focar. Mas quer saber?! Que se foda essa merda de celular de bosta. Vou assistir ao jogo de futebol na televisão, que ganho mais. Tem clássico! Espero, sinceramente, que aquele time de merda em quem fui obrigado a torcer pelo meu pai jogue bem. O futebol me incomoda tanto quanto perder minhas coisas. Infelizmente é um vício que não consigo largar. Eu posso ser facilmente definido como aquele que não perde um jogo de futebol, mas perde todo o resto.
Esse sofá já foi mais confortável outrora. Agora, tem algo que cutuca minha bunda. Estás me estranhando, sofá abusado?! Vai cutucar a tua mãe-sofá, desaforado. E pare de se esfregar! Que coisa séria. Além de ter que me aguentar, defeituoso do jeito que sou, tenho que aguentar um sofá também?! Assim fica difícil. Tão difícil quanto existir uma explicação lógica para eu estar discutindo com um sofá. Até porque, é óbvio que não é o sofá quem me incomoda. Eu e a loucura estamos cada vez mais íntimos. Enfim, apareça, celular molestador! Sei que é tu quem me atormenta escondido sob a capa do sofá.
Realmente, sou um desastre. Esse celular estava até agora no meu lado e eu não consegui o ver. Sorte não ser uma cobra, pois teria sido picado. E ele se escondia em um lugar lógico e plausível, não dentro de um pote de feijão ou de gel de cabelo – embora já tenha o encontrado nesse último. Bom, agora que o encontrei, as buscas se encerram por aqui. E olha que boa nova. A galera avisando-me que está reunida no bar da esquina para ver o jogo. Certamente vou para lá e garantir horas de risadas. Mas antes, cadê minhas chaves? Será que estão entre os ovos na geladeira ou dentro do bule de café?