A noite tenebrosa engolia os enormes Carvalhos de Cajvana¹. Nem mesmo a luz da imponente lua com o auxílio dos brilhos das milhões de estrelas que consumiam o céu, eram capazes de adentrar a densa mata. Todavia, caminhando com facilidade pelo terreno irregular como se conhecesse cada centímetro do mesmo, Blake não se intimidou pela atmosfera de morte que emanava do local, tendo em vista que nada poderia ser pior do que os sentimentos que o devastavam internamente. Apesar da escuridão, era possível ver a aura de solidão e melancolia que emanava de seu corpo, afinal ele sabia o que e quem viria a enfrentar sob o único solo que havia vivido suas lembranças mais felizes.
O hunter adentrava ainda mais no emaranhado de carvalhos. Como se o próprio ambiente que um dia o acolheu quisesse expulsá-lo como um aborto, seus sentidos sobre-humanos começaram a ser prejudicados. Ainda assim, ele prosseguiu. A cada passo dado, seu coração guinchava em agonia, enquanto sua alma dizia friamente que aquela era a atitude mais honrosa a ser tomada.
Quando o jovem avistou a silhueta de uma cabana, seu corpo estancou e todo o sangue que corria em suas veias pareceu secar. Mesmo com sentimentos paralisantes tomando-o, ele sacou a grande espada que carregava em suas costas e puxou a corrente de seu colar, que possuía um pequeno frasco como pingente. Tirando a rolha do mesmo, o hunter ingeriu o líquido azulado que causou-lhe uma reação imediata: suas íris negras tornaram-se azuis, dando a Blake a possibilidade de enxergar no escuro. Sem perder tempo, ele correu até os fundos do casebre.
Ao chegar no local, ele prendeu a respiração, pois o túmulo que ele havia construído outrora estava completamente aberto. Antes que Blake pudesse agir, algo caiu em seu ombro direito. Quando se virou, descobriu que se tratava de um longo fio de carne. Entretanto, uma presença maligna colocou-se ao lado esquerdo do hunter. De um lado, havia um cheiro pútrido e, do outro, um agradável odor² que ele conhecia bem. Essa situação o fez sentir como se estivesse sendo abraçado e rejeitado ao mesmo tempo.
Antes de virar seu rosto para ver a criatura, um choro estridente de bebê ecoou pelo bosque silencioso e, se a audição aguçada de Blake estivesse certa, o som havia vindo de cima. Rapidamente o hunter segurou o cordão pegajoso, porém, antes de puxá-lo, seu braço foi arranhado pelas longas e fatais unhas da presença maligna que estava do outro lado. O jovem recuou alguns passos e ficou em posição de ataque. Diante dele, encontrava-se a criatura que outrora estivera ao seu lado tanto alguns segundos atrás, quanto em outro momento de sua vida: vestida com uma túnica branca que possuía uma mancha de sangue na região da barriga e com unhas longas, o cabelo escarlate da Pontianak parecia brilhar na escuridão.
Blake, como se não estivesse tomado pela mais terrível angústia, ainda não havia presenciado o pior e, quando o mesmo começou a levantar os olhos, se deparou com uma das piores cenas de toda a sua maldita existência: o fio de carne, na verdade, era um longo cordão umbilical que estava amarrado ao redor do pescoço de um feto que não havia se formado totalmente. O pequeno cadáver não possuía um dos olhos e seus braços eram de tamanhos desiguais, porém o que fez Blake querer desabar em lágrimas até que seus pulmões explodissem, foi identificar a cor do ralo tufo de cabelos avermelhados da criança. Aquele bebê não nascido pertencia a assustadora criatura que estava diante do hunter e teria pertencido a ele, também, se os mercenários não houvessem a matado antes que a mesma tivesse a chance de deixar o ventre materno.
Ele se voltou para a figura fantasmagórica que o encarava e sussurrou:
— Eu sinto muito, Cassandra…
A Pontianak avançou sobre o hunter, porém, quando a mesma aproximou-se o suficiente, ele enfiou sua espada no peito da criatura, atingindo assim, seu coração apodrecido. O jovem soltou um grito como se a lâmina houvesse perfurado seu peito e começou a se curvar sobre a empunhadura de sua espada, como se o peso da dor de seu âmago excedesse ao de seu corpo. Contudo, Blake sentiu algo tocando seus cabelos, o que o fez levantar os olhos. Não mais possuindo a terrível aparência de antes, Cassandra sorria para seu marido, apesar do sangue que começava a escapar de seus lábios.
— Obrigada por não ter se esquecido de nós, querido. — Disse com dificuldade a mulher. — Eu sabia que você viria para nos salvar…
Blake quis vomitar, pois tamanho era o nojo que sentia de si mesmo. Aquilo era o mínimo que ele poderia fazer, tendo em vista que, quando os mercenários invadiram a cabana na ausência dele e assassinaram a sangue frio Cassandra — que estava grávida de cinco meses na época —, ele sabia o que ela viria a se tornar após a morte. Ele havia fugido por meses, mesmo sabendo que sua esposa tinha se tornado uma Pontianak. A mulher segurou gentilmente o rosto do jovem e disse:
— Posso ter me arrependido de muitas coisas, mas nunca me arrependi de ter me tornado sua esposa.
Cassandra começou a se aproximar de Blake e, mesmo que a espada perfurasse ainda mais seu peito, nada a impediu de depositar um cálido beijo nos lábios dele para se despedir. O hunter retribuiu o gesto, enquanto lágrimas cor de piche escorriam por seus olhos.
No instante em que o coração da mulher parou, seu corpo, assim como o do feto enforcado, começaram a se desfazer, transformando-se em pequenas esferas brilhantes que acumulavam-se no céu das folhas dos Carvalhos de Cajvana, fazendo com que todas as demais árvores do Bosque das Flores se iluminassem.
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Blake saiu cambaleando do bosque com a Mancha Negra tomando parte de seu corpo. Ele tremia e transpirava, enquanto um devastador vazio se apoderava de sua alma. Os carvalhos ainda brilhavam atrás dele, quando Jake correu em sua direção, amparando-o antes que seu corpo fragilizado fosse ao chão. Diablair se aproximou e o hunter mais velho o encarou, como se buscasse auxílio acerca da situação. Imediatamente o líder Infernal respondeu com amargura:
— Questionamentos não se fazem necessários, jovem Jake… A dor que emana do corpo de Blake, claramente, é a de alguém que perdeu tudo o que tinha.