O Beijo da Pontianak
Mr Black
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/10/21 15:56
Editado: 28/10/21 10:20
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 6min a 8min
Apreciadores: 7
Comentários: 6
Total de Visualizações: 1474
Usuários que Visualizaram: 14
Palavras: 1051
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween – Sob o olhar das Lendas" É nas sombras onde as lendas se escondem, observando a todos, e agora em desafio propõem um concurso. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezoito anos

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, ganhando na categoria Fantasia.
Para saber mais sobre o Evento e os ganhadores, acesse o tópico de Resultados.

Notas de Cabeçalho

Capa maravilhosa feita pela minha namorada, @SabrinaTernura ♥

Capítulo Único O Beijo da Pontianak

A noite tenebrosa engolia os enormes Carvalhos de Cajvana¹. Nem mesmo a luz da imponente lua com o auxílio dos brilhos das milhões de estrelas que consumiam o céu, eram capazes de adentrar a densa mata. Todavia, caminhando com facilidade pelo terreno irregular como se conhecesse cada centímetro do mesmo, Blake não se intimidou pela atmosfera de morte que emanava do local, tendo em vista que nada poderia ser pior do que os sentimentos que o devastavam internamente. Apesar da escuridão, era possível ver a aura de solidão e melancolia que emanava de seu corpo, afinal ele sabia o que e quem viria a enfrentar sob o único solo que havia vivido suas lembranças mais felizes.

O hunter adentrava ainda mais no emaranhado de carvalhos. Como se o próprio ambiente que um dia o acolheu quisesse expulsá-lo como um aborto, seus sentidos sobre-humanos começaram a ser prejudicados. Ainda assim, ele prosseguiu. A cada passo dado, seu coração guinchava em agonia, enquanto sua alma dizia friamente que aquela era a atitude mais honrosa a ser tomada.

Quando o jovem avistou a silhueta de uma cabana, seu corpo estancou e todo o sangue que corria em suas veias pareceu secar. Mesmo com sentimentos paralisantes tomando-o, ele sacou a grande espada que carregava em suas costas e puxou a corrente de seu colar, que possuía um pequeno frasco como pingente. Tirando a rolha do mesmo, o hunter ingeriu o líquido azulado que causou-lhe uma reação imediata: suas íris negras tornaram-se azuis, dando a Blake a possibilidade de enxergar no escuro. Sem perder tempo, ele correu até os fundos do casebre.

Ao chegar no local, ele prendeu a respiração, pois o túmulo que ele havia construído outrora estava completamente aberto. Antes que Blake pudesse agir, algo caiu em seu ombro direito. Quando se virou, descobriu que se tratava de um longo fio de carne. Entretanto, uma presença maligna colocou-se ao lado esquerdo do hunter. De um lado, havia um cheiro pútrido e, do outro, um agradável odor² que ele conhecia bem. Essa situação o fez sentir como se estivesse sendo abraçado e rejeitado ao mesmo tempo.

Antes de virar seu rosto para ver a criatura, um choro estridente de bebê ecoou pelo bosque silencioso e, se a audição aguçada de Blake estivesse certa, o som havia vindo de cima. Rapidamente o hunter segurou o cordão pegajoso, porém, antes de puxá-lo, seu braço foi arranhado pelas longas e fatais unhas da presença maligna que estava do outro lado. O jovem recuou alguns passos e ficou em posição de ataque. Diante dele, encontrava-se a criatura que outrora estivera ao seu lado tanto alguns segundos atrás, quanto em outro momento de sua vida: vestida com uma túnica branca que possuía uma mancha de sangue na região da barriga e com unhas longas, o cabelo escarlate da Pontianak parecia brilhar na escuridão.

Blake, como se não estivesse tomado pela mais terrível angústia, ainda não havia presenciado o pior e, quando o mesmo começou a levantar os olhos, se deparou com uma das piores cenas de toda a sua maldita existência: o fio de carne, na verdade, era um longo cordão umbilical que estava amarrado ao redor do pescoço de um feto que não havia se formado totalmente. O pequeno cadáver não possuía um dos olhos e seus braços eram de tamanhos desiguais, porém o que fez Blake querer desabar em lágrimas até que seus pulmões explodissem, foi identificar a cor do ralo tufo de cabelos avermelhados da criança. Aquele bebê não nascido pertencia a assustadora criatura que estava diante do hunter e teria pertencido a ele, também, se os mercenários não houvessem a matado antes que a mesma tivesse a chance de deixar o ventre materno.

Ele se voltou para a figura fantasmagórica que o encarava e sussurrou:

— Eu sinto muito, Cassandra…

A Pontianak avançou sobre o hunter, porém, quando a mesma aproximou-se o suficiente, ele enfiou sua espada no peito da criatura, atingindo assim, seu coração apodrecido. O jovem soltou um grito como se a lâmina houvesse perfurado seu peito e começou a se curvar sobre a empunhadura de sua espada, como se o peso da dor de seu âmago excedesse ao de seu corpo. Contudo, Blake sentiu algo tocando seus cabelos, o que o fez levantar os olhos. Não mais possuindo a terrível aparência de antes, Cassandra sorria para seu marido, apesar do sangue que começava a escapar de seus lábios.

— Obrigada por não ter se esquecido de nós, querido. — Disse com dificuldade a mulher. — Eu sabia que você viria para nos salvar…

Blake quis vomitar, pois tamanho era o nojo que sentia de si mesmo. Aquilo era o mínimo que ele poderia fazer, tendo em vista que, quando os mercenários invadiram a cabana na ausência dele e assassinaram a sangue frio Cassandra — que estava grávida de cinco meses na época —, ele sabia o que ela viria a se tornar após a morte. Ele havia fugido por meses, mesmo sabendo que sua esposa tinha se tornado uma Pontianak. A mulher segurou gentilmente o rosto do jovem e disse:

— Posso ter me arrependido de muitas coisas, mas nunca me arrependi de ter me tornado sua esposa.

Cassandra começou a se aproximar de Blake e, mesmo que a espada perfurasse ainda mais seu peito, nada a impediu de depositar um cálido beijo nos lábios dele para se despedir. O hunter retribuiu o gesto, enquanto lágrimas cor de piche escorriam por seus olhos.

No instante em que o coração da mulher parou, seu corpo, assim como o do feto enforcado, começaram a se desfazer, transformando-se em pequenas esferas brilhantes que acumulavam-se no céu das folhas dos Carvalhos de Cajvana, fazendo com que todas as demais árvores do Bosque das Flores se iluminassem.

____________________________________________

Blake saiu cambaleando do bosque com a Mancha Negra tomando parte de seu corpo. Ele tremia e transpirava, enquanto um devastador vazio se apoderava de sua alma. Os carvalhos ainda brilhavam atrás dele, quando Jake correu em sua direção, amparando-o antes que seu corpo fragilizado fosse ao chão. Diablair se aproximou e o hunter mais velho o encarou, como se buscasse auxílio acerca da situação. Imediatamente o líder Infernal respondeu com amargura:

— Questionamentos não se fazem necessários, jovem Jake… A dor que emana do corpo de Blake, claramente, é a de alguém que perdeu tudo o que tinha.

❖❖❖
Notas de Rodapé

¹ Árvores típicas de certas regiões da Romênia, sendo este país onde Blake nasceu.

² Decidi usar a descrição da Pontianak presente na carta, mas também alguns elementos adicionais que pesquisei na internet, como pode ser visto aqui

- Lembrando que essa obra não é canônica dentro do UG.

Obrigado aos que leram!

Apreciadores (7)
Comentários (6)
Comentário Favorito
Postado 30/10/21 01:32 Editado 30/10/21 01:33

Você nunca posta nada, mas quando posta... A alma não fica no corpo, o cu sai do lugar, a cabeça começa a viajar pro mundo das perturbações...

Acho que essa obra é uma colher de sal para as pessoas que estão acompanhando a história do Blake, porque, convenhamos, eu e você sabemos que vai ser beeeeeeeeeem pior do que isso em Caçada Sombria kkkk. Mas me surpreendeu demais o que você fez aqui!

A narrativa acompanha a atmosfera sombria do finado Bosque das Flores e o leitor se sente como uma das células de Blake, agonizando com o protagonista a cada linha... Pior do que perder quem amamos, é sermos os responsáveis pela partida dos mesmos e a jornada do Blake, mesmo na realidade semi-alternativa, não foge muito disso. O fato da Cassandra e do bebê se tornarem um com o Bosque, como se um fantasma tivesse sido exorcizado, foi uma das cenas mais bonitas dessa obra, mas não supera, em minha humilde opinião, o último beijo, que é embargado de tragédia e sentimentalismo. Eles nunca se amaram e isso é um fato (não é preciso ler as obras cânonicas para saber disso), mas havia um respeito tão grande e uma amizade tão bonita...

Essa obra ficou incrível, pois a abordagem da temática do concurso ficou tão bem encaixada no protagonista, que parece que um foi feito para o outro...

Obrigada por compartilhar conosco! Boa sorte nesse concurso, meu bemmmmm ♥

Milhões de parabéns ♥♥

Postado 04/11/22 18:13

Como não amar essa mulher que faz os comentários mais lindos?

Obrigado, meu amor <3

Postado 28/10/21 01:47 Editado 28/10/21 02:06

Por toda a penúria existente no Inferno, Sr Black... Como um modesto conhecedor da história trágica de Blake, esta sem dúvida foi uma das obras mais cruéis e tétricas que pude ler acerca deste grandioso personagem...

Muito me honra que Diablair tenha tido uma participação nesta triste narrativa, que foi muito bem narrada e descrita pelo senhor. Eu realmente apreciaria ver mais obras de sua autoria figurando aqui neste antro maldito, pois sua escrita é deleitável aos olhos e inspiradora para a alma...

Desejo-lhe toda a boa sorts do mundo neste concurso, Sr Black! E me desculpe por não conseguir fazer um comentário digno da grandeza e da tragédia que transbordam em sua belíssima (e sofrida) obra... Todavia, saiba que o senhor está sinceramente de parabéns!

Sombriamente,

um monstro que foi abortado para a Vida, True Diablair.

Postado 04/11/22 18:14

Pô, Diab, valeu! :)

Postado 29/10/21 01:11

E a gente fica como depois de ler algo assim? Eu não sei nem o que me atropelou, não vi nem a placa.

Menino Blake, Philip e Jake, vou te contar: Quando a Brinis me falou que você - FINALMENTE - tinha decidido escrever para o nosso universo, eu já sabia que algo bom vinha, mas isso... ISSOOO?! Muita maldade com o meu coração.

Tu gosta mesmo de fazer o pobre do Blake sofrer, né? O coitado não tem um segundo de paz. Tadinho. Até eu queria abraçar ele depois desse texto avassalador. Misericórdia.

Parabéns e obrigada pelos possíveis spoillers (adorooo)!!

Postado 04/11/22 18:15

Eu só tô seguindo a linha da Brina kkkkk.

Valeu, Flávia! :)

Postado 23/11/21 22:55

Eu tiro meu chapéu para você, jovem Felps~

Que obra mais bem desenvolvidade, trabalhada, revisada, tramada, (meu Asami como mais eu posso dizer que fico incrível?)... Perfeitamente perfeita~

Adorei como desenvolveu o personagem, uma forma que, mesmo eu não tendo lido a trama principal onde ele aparece pude, entender seus traumas e simpatizar com o personagem, sua agoniante dor, seu passado. Tanto que eu adoraria ter o prazer de ler mais obras suas onde Blake aparece ou mesmo você trabalha temas de fantasia e aventura.

Muito obrigado por compartilha sua obra e me honrar com sua obra participando do concurso, meus parabéns!!

Assinado, uma pequena vampira, <3

Postado 04/11/22 18:15

Foi muito bacana participar desse concurso! Valeu, Shizu!

Postado 18/04/22 12:06

Saudações de um grande fã de Andrzej Sapkowski, Patrick Rothfuss e, é claro, Tolkien!

Eis aqui uma introdução para uma bela e longa obra, quem sabe com alguns elementos brasileiros hehehe (sou "patriota")

Vamos fazer uma co-autoria qualquer dia!

Sjow

Postado 04/11/22 18:16 Editado 04/11/22 18:17

Valeu, meu jovem! Vamos fazer uma co-autoria, sim! :)

Postado 14/10/22 16:13

Texto incrível

Postado 04/11/22 18:16

Valeu, Lovely!

Outras obras de Mr Black

Outras obras do gênero Drama

Outras obras do gênero Fantasia

Outras obras do gênero Romântico

Outras obras do gênero Sobrenatural