Existe uma pequena trava na minha cabeça. Ela tem formato de uma chave, mas mesmo sabendo qual porta ela abre, não a usei até hoje.
Tenho recolhido todas as memórias jogadas, esperando que de alguma forma eu pudesse organizá-las. Infelizmente, percebi que em grande parte, elas me faziam mal. Mesmo que eu tenha esperado pacientemente que pudesse ressignificar, não consegui chegar nesse ponto.
Então eu olhei a trava mais uma vez. Todas as minhas inseguranças, todos os meus traumas...Não era responsabilidade minha, mas do homem de vermelho. Ele teceu uma teia de culpa e medo, para que eu não girasse a trava.
Agora percebo que esperei tempo demais. Quando ele foi embora, ainda me deixou presa. E eu esperei que ele voltasse, com medo de abrir a porta. Como uma criança que depende de sua mãe, como um animal que admira seu dono. Na trava, ele havia deixado um laço vermelho, para dizer que estaria ali caso eu tentasse ir.
Eu vivi mil noites em claro, encarando aquele laço, esperando qualquer sinal. Porque eu o amava, mais que a mim mesma. E foi isso que me sufocou durante cada segundo em que estive com ele.
Hoje, eu encaro a trava. Tão perto que posso ouvir cada som de desespero. Meus pés descalços não possuem firmeza ou tão pouca certeza de onde estão indo. E mesmo assim, eu reprimo o medo de quebrar. Pego o laço vermelho em minha mão e o transformo em cinzas, só de olhar. Com as mãos firmes e não mais receosa, eu giro a trava e destranco a porta.
Vejo uma luz, seguida de mãos estendidas saindo da porta. Com menos medo, eu agarro a primeira mão e observo as outras me puxarem pelo corpo.
Agora a gaiola está vazia, e o homem de vermelho não é mais um algoz. Só me resta questionar se algum dia ele voltará, desejando buscar seu passarinho precioso. E se ele voltar, não estarei mais sozinha. Terei centenas de pássaros comigo, prontos para o enterrar de vez em um mar de penas.