estou há cinco minutos olhando para o céu escuro e pensando; pensando na tranca enferrujada do portão que nunca consegui trocar, pensando no mofo que se instalou no teto do quarto desde as chuvas de janeiro, pensando em como eu queria um abraço,
antes disso eu estava olhando para a parede e lembrando do modo como você escondia o sorriso enquanto me desenhava do outro lado do quarto,
hoje você não está mais aqui, e não vai vir aqui até esse caos passar,
eu daria tudo por um abraço seu,
e,
eu daria tudo para correr até sua casa e passar a tarde no seu sofá,
e,
eu ficaria quietinha por quantos meses forem necessários se eu pudesse apenas tocar seu cabelo, passar os dedos nos piercings da sua orelha, beijar sua testa e ficar abraçadinha por cinco minutos contigo e com a gata e assistindo Orgulho e Preconceito uma última vez;
enquanto passo mais dois minutos olhando para fora da janela, o jardim parece mais ameaçador,
quem sabe quantos segredos se escondem nas folhas de cidreira, nas flores de manjericão, nos pés de cebolinha?
quem sabe quanta loucura eu guardo depois de duas semanas de isolamento?
quem sabe como você está nesse momento?
eu mordo meus lábios, contendo o oceano que insiste em escapar de mim,
e,
as estrelas parecem cantar alguma coisa que não entendo completamente, mas me acalma, ao menos pelos próximos vinte segundos que levo para construir uma barragem e selar toda a água salgada dentro dos olhos,
porém,
por trás dos olhos,
naquele limite da memória onde eu sempre em perco a essa hora da noite,
ali eu consigo ver seus desenhos espalhados na escrivaninha e sua coleção de canetas escapando do estojo e seus pinceis sujos de aquarela e a cama cheia de pelos da gata e você, você, você,
e todo o esforço para manter a calma se esvai,
porque eu me lembro do portão enferrujado e como eu poderia simplesmente chutar a porta e correr para aí,
porque eu me lembro da pandemia acontecendo além dos muros da minha casa e como não posso arriscar te colocar em perigo,
porque eu me lembro de como eu sempre, sempre estive sozinha,
e,
agora não é diferente,
porque eu tenho a companhia apenas da noite com poucas estrelas no céu poluído, da lua minguante que daqui a pouco me abandona, das plantas e seus segredos no jardim, do mofo no teto do quarto e um portão enferrujado,
e,
eu queria te ligar,
eu envolvo meu corpo com os braços e deixo um soluço escapar,
porque,
olhe,
nas últimas duas semanas eu não fiz nada além de sentir pena de mim mesma,
e,
eu tentei conversar com você,
mas,
eu não sei o que dizer;
porque embora eu sinta sua falta eu não tenho assunto para dizer além de que eu sinto a sua falta,
e eu sinto a sua falta e eu sinto a sua falta e eu sinto sua falta,
e,
toda vez que eu ligo a televisão tem as mesmas notícias,
e,
toda vez que eu abro o celular eu vejo o mesmo vazio,
e,
toda vez que eu olho pela janela eu vejo,
o céu escuro,
o jardim secreto,
os calangos no muro sujo que ainda não tive forças para limpar;
e,
olha,
eu daria tudo para estar do seu lado agora,
eu daria tudo para parar de chorar agora,
eu me levantaria da cama e reuniria minhas provisões e chutaria o portão enferrujado e andaria até sua casa e pularia seu portão e cumprimentaria seus gatos e te abraçaria e deixaria as ondas dentro de mim rugirem de alívio,
porque você é meu porto seguro, meu farol e minha estrela,
porque eu já devia ter aprendido a me virar sozinha há anos e anos e anos,
mas,
eu nunca quis que me acostumar à solidão,
porque é muito mais fácil deixar portões permanentemente fechados que tirar a ferrugem,
porque é muito mais simples deitar a cabeça no seu ombro,
porque eu não sei como confrontar minha tempestade,
porque eu não gosto de ser portadora de tempestades;
e,
veja,
eu gosto do jeito que você me faz sentir,
quando a corrente me puxa eu nunca sinto que vou ser levada para sempre,
quando o mar me chama você está sempre esperando na areia,
quando os trovões retumbam você me oferece seu fone de ouvido e pega minha mão e ficamos sentados esperando o mau tempo passar,
e,
as coisas são mais simples perto de você,
mas,
agora eu estou sozinha,
porque,
de que adianta me enganar?
eu sempre estive sozinha,
e,
eu não lembro quando a sua presença me fez esquecer desse fato,
mas,
o céu e o jardim e a noite e as estrelas e a janela e a parede e a lua e o mofo e os desenhos e as canetas e as memórias e as ondas e o portão enferrujado me fizeram lembrar,
e,
agora as estrelas voltaram a cantar,
e,
eu não consigo parar de chorar,
e,
eu daria tudo para sair daqui,
mas,
olhe!, dizem as estrelas, e eu olho,
e,
tem uma luz, tem uma vibração, tem seu nome piscando na tela do celular,
e,
tem uma canção que as estrelas me fizeram lembrar,
e,
tem o mar que não me deixa em paz,
mas,
tudo é sal e tudo é sol e tudo é calma quando sua voz preenche o cômodo iluminado pela lua e pela noite e preenche meu peito com conchas e algas e vidros marinhos,
e,
é uma palavra,
é uma promessa,
é algo pequeno,
mas,
em apenas um momento,
a solidão foi para o outro lado do portão enferrujado,
e,
era como se você estivesse do meu lado,
e,
de algum modo,
veja,
eu encontrei alguma força para sair da janela do quarto,
seguir sua voz,
minhas pernas me levaram pelo corredor até a sala, até a janela da sala, até o ponto onde as cortinas estavam abertas e revelavam o sorriso torto da lua e as sardas da noite e seu nome na boca de cada estrela,
e eu me juntei a elas e pronunciei seu nome enquanto a barragem que construí dez minutos antes se rompia e deixava a água inundar cada canto de mim,
e a lua continuou sorrindo enquanto eu chorava minhas saudades,
e você continuou ali enquanto o sol começava a acordar,
e as estrelas continuaram cantando,
e o mundo continua um caos,
mas,
eu tenho um oceano mais ou menos contido dentro de mim,
você está a uma palavra de distância,
e,
eu finalmente encontrei coragem para consertar o portão,