portão enferrujado
Tháiza Lima
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 22/12/20 02:06
Gênero(s): Cotidiano Romântico
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 9min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
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Palavras: 1106
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Faz tanto tempo (anos) que venho aqui e nunca tive coragem de realmente retornar, mas esse foi um ano tão atípico que pensei que mais mudanças não fariam mal. Então... oi, acho? Ainda preciso me acostumar com as mudanças daqui, espero poder ler os textos acumulados por dois anos nas notificações e, quem sabe, conseguir responder todos os comentários antigos também.

Esse texto foi escrito em 19 de março desse ano, num momento que eu precisava ficar trancadinha dentro do quarto em isolamento total até ser seguro interagir com as pessoas que moram na minha casa. É um formato muito diferente do que eu normalmente escrevo e não acho que vou me arriscar nele de novo, mas foi uma experiência e queria partilhar (eu considero isso como sendo um conto, caso haja alguma divergência posso mudar o gênero sem problemas). Boa leitura <3

Capítulo Único portão enferrujado

estou há cinco minutos olhando para o céu escuro e pensando; pensando na tranca enferrujada do portão que nunca consegui trocar, pensando no mofo que se instalou no teto do quarto desde as chuvas de janeiro, pensando em como eu queria um abraço,

antes disso eu estava olhando para a parede e lembrando do modo como você escondia o sorriso enquanto me desenhava do outro lado do quarto,

hoje você não está mais aqui, e não vai vir aqui até esse caos passar,

eu daria tudo por um abraço seu,

e,

eu daria tudo para correr até sua casa e passar a tarde no seu sofá,

e,

eu ficaria quietinha por quantos meses forem necessários se eu pudesse apenas tocar seu cabelo, passar os dedos nos piercings da sua orelha, beijar sua testa e ficar abraçadinha por cinco minutos contigo e com a gata e assistindo Orgulho e Preconceito uma última vez;

enquanto passo mais dois minutos olhando para fora da janela, o jardim parece mais ameaçador,

quem sabe quantos segredos se escondem nas folhas de cidreira, nas flores de manjericão, nos pés de cebolinha?

quem sabe quanta loucura eu guardo depois de duas semanas de isolamento?

quem sabe como você está nesse momento?

eu mordo meus lábios, contendo o oceano que insiste em escapar de mim,

e,

as estrelas parecem cantar alguma coisa que não entendo completamente, mas me acalma, ao menos pelos próximos vinte segundos que levo para construir uma barragem e selar toda a água salgada dentro dos olhos,

porém,

por trás dos olhos,

naquele limite da memória onde eu sempre em perco a essa hora da noite,

ali eu consigo ver seus desenhos espalhados na escrivaninha e sua coleção de canetas escapando do estojo e seus pinceis sujos de aquarela e a cama cheia de pelos da gata e você, você, você,

e todo o esforço para manter a calma se esvai,

porque eu me lembro do portão enferrujado e como eu poderia simplesmente chutar a porta e correr para aí,

porque eu me lembro da pandemia acontecendo além dos muros da minha casa e como não posso arriscar te colocar em perigo,

porque eu me lembro de como eu sempre, sempre estive sozinha,

e,

agora não é diferente,

porque eu tenho a companhia apenas da noite com poucas estrelas no céu poluído, da lua minguante que daqui a pouco me abandona, das plantas e seus segredos no jardim, do mofo no teto do quarto e um portão enferrujado,

e,

eu queria te ligar,

eu envolvo meu corpo com os braços e deixo um soluço escapar,

porque,

olhe,

nas últimas duas semanas eu não fiz nada além de sentir pena de mim mesma,

e,

eu tentei conversar com você,

mas,

eu não sei o que dizer;

porque embora eu sinta sua falta eu não tenho assunto para dizer além de que eu sinto a sua falta,

e eu sinto a sua falta e eu sinto a sua falta e eu sinto sua falta,

e,

toda vez que eu ligo a televisão tem as mesmas notícias,

e,

toda vez que eu abro o celular eu vejo o mesmo vazio,

e,

toda vez que eu olho pela janela eu vejo,

o céu escuro,

o jardim secreto,

os calangos no muro sujo que ainda não tive forças para limpar;

e,

olha,

eu daria tudo para estar do seu lado agora,

eu daria tudo para parar de chorar agora,

eu me levantaria da cama e reuniria minhas provisões e chutaria o portão enferrujado e andaria até sua casa e pularia seu portão e cumprimentaria seus gatos e te abraçaria e deixaria as ondas dentro de mim rugirem de alívio,

porque você é meu porto seguro, meu farol e minha estrela,

porque eu já devia ter aprendido a me virar sozinha há anos e anos e anos,

mas,

eu nunca quis que me acostumar à solidão,

porque é muito mais fácil deixar portões permanentemente fechados que tirar a ferrugem,

porque é muito mais simples deitar a cabeça no seu ombro,

porque eu não sei como confrontar minha tempestade,

porque eu não gosto de ser portadora de tempestades;

e,

veja,

eu gosto do jeito que você me faz sentir,

quando a corrente me puxa eu nunca sinto que vou ser levada para sempre,

quando o mar me chama você está sempre esperando na areia,

quando os trovões retumbam você me oferece seu fone de ouvido e pega minha mão e ficamos sentados esperando o mau tempo passar,

e,

as coisas são mais simples perto de você,

mas,

agora eu estou sozinha,

porque,

de que adianta me enganar?

eu sempre estive sozinha,

e,

eu não lembro quando a sua presença me fez esquecer desse fato,

mas,

o céu e o jardim e a noite e as estrelas e a janela e a parede e a lua e o mofo e os desenhos e as canetas e as memórias e as ondas e o portão enferrujado me fizeram lembrar,

e,

agora as estrelas voltaram a cantar,

e,

eu não consigo parar de chorar,

e,

eu daria tudo para sair daqui,

mas,

olhe!, dizem as estrelas, e eu olho,

e,

tem uma luz, tem uma vibração, tem seu nome piscando na tela do celular,

e,

tem uma canção que as estrelas me fizeram lembrar,

e,

tem o mar que não me deixa em paz,

mas,

tudo é sal e tudo é sol e tudo é calma quando sua voz preenche o cômodo iluminado pela lua e pela noite e preenche meu peito com conchas e algas e vidros marinhos,

e,

é uma palavra,

é uma promessa,

é algo pequeno,

mas,

em apenas um momento,

a solidão foi para o outro lado do portão enferrujado,

e,

era como se você estivesse do meu lado,

e,

de algum modo,

veja,

eu encontrei alguma força para sair da janela do quarto,

seguir sua voz,

minhas pernas me levaram pelo corredor até a sala, até a janela da sala, até o ponto onde as cortinas estavam abertas e revelavam o sorriso torto da lua e as sardas da noite e seu nome na boca de cada estrela,

e eu me juntei a elas e pronunciei seu nome enquanto a barragem que construí dez minutos antes se rompia e deixava a água inundar cada canto de mim,

e a lua continuou sorrindo enquanto eu chorava minhas saudades,

e você continuou ali enquanto o sol começava a acordar,

e as estrelas continuaram cantando,

e o mundo continua um caos,

mas,

eu tenho um oceano mais ou menos contido dentro de mim,

você está a uma palavra de distância,

e,

eu finalmente encontrei coragem para consertar o portão,

❖❖❖
Notas de Rodapé

Honestamente, o que mais demorou foi decidir quais palavras colocar em itálico kk. Espero que tenham gostado, e espero poder retornar de vez dessa vez <3

Apreciadores (4)
Comentários (3)
Postado 06/02/21 15:03

Gosto dessa palavra - apreciar - que se usa para congratular o autor por aqui. Sim, apreciei muito esse texto.

É engraçado retornar ao início da pandemia depois de quase um ano em isolamento. Há quase doze meses, eu estava perdida e temerosa e triste e confusa - como você. Seu texto tem um 'quê' de nostalgia, aquela nostalgia que nem sempre evoca coisas boas mas sempre traz a lembrança do aprendizado. Foi um período em que se deixar conter pelas quatro paredes de uma casa parecia tão surreal... Hoje, sinto-me nua quando saio de casa, como se não pertencesse mais ao mundo que me cerca.

Algo que me intriga é como, em determinado momento do texto, não se sabe mais se a pessoa que narra está se referindo ao ser amado ou à própria vida que teme ter perdido (o modo de viver que sofreu alterações irreversíveis). Seus desejos se fundem em uma coisa só, indistinguível, e isso é lindo.

Postado 13/06/21 18:32 Editado 13/06/21 18:33

Querida senhorita Tháiza, que felicidade ver um texto novo seu sendo postado aqui na Academia!!

E como eu poderia fazer um comentário digno dessa preciosidade tão doce, tão triste e tão trágica aqui colocada?

Sua escrita floresce em meus olhos, a cada palavra desabrocham lindas flores tão melancólicas que me fazem chorar, pois eu me identifiquei e me senti como parte dos sentimentos tão dolorosos da narradora...

Obrigada por ter voltado, obrigada por ter escrito essa obra tão magnífica <3

Um grande abraço <3

Postado 01/09/21 15:45

Ah... Os amores de fim de mundo...

Eu como boa portadora de tempestades que sou, estou vivendo um amor de fim de mundo, demorou seis meses para podermos enfim, nos reencontrar e mais de 1.100 km... Sua obra descreve tão tão tão bem todos os sentimentos de culpa, incerteza, medo, medo, medo e medo, terror, doces lembranças, quereres lunáticos... Tudo que um amor platônico faz, mixado a uma pandemia global e milhões de morte... A gente tenta não falar sobre esse amor, por causa de todo sofrimento, a gente tenta ser suficiente sozinho, a gente tenta substituir memórias para ser mais fácil... Porra é tão mais fácil acordar um dia e simplesmente odiar aquela pessoa e nunca mais querer nada... Mas insistimos, o amor acontece na insistência. Eu chorei lendo, como se eu estivesse lendo os meses tormentosos que passei longe dele, como se fosse minha ferrugem.

Mas, por ser poeta, sou narcisista. Chega de devanear, desculpe kkkkkkkkkk

Sua obra é linda, intensa demais, perfeita! Uma das melhores que li este ano, a forma como você compõe as prosas, e pode ter certeza as partes em itálico fizeram o trabalho direitinho kkkkk

Parabéns! É brilhante! Obrigada por compartilhar conosco!