Uma aventura na Bertioga
Nilton Victorino Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 14/11/20 20:13
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 6min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
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Palavras: 834
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Uma aventura na Bertioga

A Olga era a moça que tomava conta do pátio do Sagrado Coração, rosto suave, cabelos longos e louros, boca pequena e olhos de um castanho quase verde, dona de uma beleza de tirar o fôlego..., porém, se eu quiser ser fiel ao pensamento da criança que eu era em 1973, tenho que retirar toda a descrição que acabei de fazer.

Calma, que me explico já.... Na cabeça de um menino de sete anos, a consideração de beleza é muito relativa, a beleza, obrigatoriamente, tem que ser acompanhada da bondade.

Bondade era uma coisa que a moça não tinha, portanto, no critério dos meninos, a moça não era bonita, era um canhão.

Outra coisa, para essa aventura trocaremos o cenário do prédio da Casa da Infância do Menino Jesus, no emergente bairro do Ipiranga e vamos à bucólica Bertioga, uma praia que, por esse tempo, era o paraíso na terra.

No mês de janeiro a turma reduzida, por conta das férias, descia a Serra do Mar e se alojava numa escola municipal, nas salas, todas as carteiras eram amontoadas num canto e se armavam os beliches de lona, parecidas com as do exército.

Nos quadros, ao lado da lousa, ainda ficavam expostos os trabalhos de sala dos alunos e com as notas, o pátio de recreio virava uma enorme sala e a cantina virava cozinha.

A escola era enorme e murada, no mato crescido da área de lazer, vaga-lumes voavam e a lua chegava bem perto, acima da montanha que ficava ali pertinho.

Meu amigo mais comum era o Fernandinho, sempre, a corda e a caçamba, nessa aventura, o Oscar se juntou à nós.

O Oscar era um guri albino, muito branco na pigmentação e para enxergar bem, tinha que se aproximar muito das coisas, em contraponto, era de nós, o mais esperto, o que tinha maior presença de espírito, para usar um termo atual...o mais descolado.

A turma era tão reduzida que não se usava o critério das divisões de pátios, todo mundo junto, nem todas as moças iam para o passeio e, para nosso azar, depois de um ano aguentando a Olga, ela foi conosco.

Uma coisa que merece nota, em janeiro de 1974, a rede Globo estreou o programa Fantástico, aquela abertura que tinha a Clara Nunes e os Secos e Molhados, assistimos em Bertioga.

Me lembro de ter dito:

_. Ah, que lindo. Logo depois, o trio correu à caça dos vaga-lumes na noite escura.

A praia ficava a menos de 1 quilometro da escola, Bertioga era uma cidade interiorana, à medida que chegávamos mais perto, o barulho do mar aumentava.

As freiras vestiam maiôs e pediam para que, não disséssemos a ninguém que eram freiras, ora, os maiôs eram tão grandes que, era como se elas estivessem vestindo seus hábitos.

Brincando de castelo de areia, eu o Fernandinho e o Oscar percebemos que um jovem aproximou da Olga, o jovem, encantado com a beleza da moça, investiu.

O cara tinha boa presença e a moça se derreteu toda.

_. Por que você está sozinha??

_. Estou cuidando dos meus sobrinhos.

_. Ah, você é um anjo que caiu do céu.

A sobrinhos, ela se referia a nós, dois guris pretos e um albino, aproximou-se do trio e passou a nos acariciar, aquela bandida e, o trouxa caindo como um patinho.

Ainda que ele quisesse, ela não permitiu que fosse beijada, ela olhava disfarçada para o resto dos meninos e as freiras.

Quando as freiras resolveram voltar para a escola, ela se despediu do laranja, digo jovem, pegou na minha mão e fomos todos, numa relativa distância do grupo, quando ela se certificou que já estava longe, soltou a minha mão, o Oscar ria e esfregava as mãos.

Mais tarde, ela deu desculpa que ia num mercado, para que não desse na vista, pediu para levar o trio, para nós tudo bem, era hora do repouso e, junto do jovem Romeu, fomos conhecer o forte de São João, que beleza, nós vimos, a moça não, estava ocupada e com os olhos fechados.

O rapaz tinha uma moto e queria se exibir, deu cavalinho de pau, pulou umas rampas, acelerou e freou.

Agachado, catando conchinhas não percebi a aproximação da moto e fui atropelado.

Atropelado é força de expressão, eu cai e o pneu dianteiro passou em cima do meu braço, nem doeu e nem marca deixou, correram os meninos para me socorrer, o Oscar chegou primeiro e antes que eu me levantasse, ele disse:

_. Não, não levanta não.

Eu ia dizer a ele que não havia acontecido nada, ele me segurou no chão e gritou:

_. Olha aí, quebrou o osso, a madre Marcia não vai gostar nada disso.

O Fernandinho que não era bobo, me ajudou a levantar e já ensaiava um choro, o rapaz estava branco feito uma vela e a moça tremia feito vara verde.

Aí foi que o passeio ficou bom, até de Bugre nas areia eles nos levaram, pela primeira vez na vida, experimentamos o gosto de um bom Sunday.

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Apreciadores (4)
Comentários (3)
Postado 17/11/20 19:39

Vocês eram crianças muito espertas e aventureiras, isso é verdade! NOKSDJSIOJDSIJ

Obrigada por postar mais esta memória maravilhosa aqui, espero que você tenha ficado bem depois do atropelamento!

Postado 17/09/21 16:01

Gostei dessa colocação sobre a beleza para as crianças precisar ser acompanhada de bondade! E é isso mesmo!

Achei bonito demais poder ler sobre isso!

E que aventura hahahaha

Adoro seus textos, Sr. Nilton!

Um grande abraço <3

Postado 18/09/21 18:25

Mais uma excelente aventura que nos cativa do início ao fim. Entretanto, me compadeço muito de você, senhor Nilton, pois também já quebrei o braço e achei que estava tudo bem (quando, na verdade, era uma fratura exposta). Mais uma bela lembrança sua que tive a honra de ter lido.

Obrigada por compartilhar conosco essa obra tão querida!

​Parabéns, Nilton ♥