A chuva constante começava a representar o maior incômodo nas sinuosas trincheiras à sul de Belfort. Os homens perdiam o moral quando molhados, ficavam, além de ensopados, melancólicos. A terra amolecia num piscar de olhos, ainda que as tábuas de sustentação impediam o desmoronamento. A lama amontoada subia acima das botas dificultando o trânsito no estrito das valas. As trincheiras eram o inferno nos dias amenos, durante os períodos chuvosos, eram piores que o inferno, e Edgar Arnold carregava consigo o infortúnio de viver muitas coisas piores que o reino do diabo.
Depois de Lambert designá-lo como primeiro vigia da noite, ele esperava à ameaça do avanço inimigo a qualquer hora porque, naquelas condições, o telescópio mostrava a terra de ninguém embaçada e confusa, cheias de fantasmas futuros apodrecidos nos buracos, nos arames, despedaçados, mortos sob a chuva, e, se os alemães viessem, passaria despercebido.
Edgar desistiu no princípio da vigília, encolhia-se contra as tábuas. Apenas, esperava. Os relâmpagos rasgavam a noite, mudos, mas ele ouvia no lugar o traquetear no arame farpado e, de olhos lavados, corpo tremendo, olhava Mathilda correr nos campos arados da Inglaterra enquanto tentava acender um cigarro molhado na França.
Fournier chegou para substitui-lo às onze horas em ponto. Encontrou-o acocorado na lama. Nada disse a princípio. Somente tirou o cigarro dos lábios e ofereceu.
— Merci — Edgar disse, e apontou o cigarro molhado. — Mas não.
— D'accord — O francês respondeu e ficou com o cigarro na mão direita e pá na esquerda, apoiada no ombro. Em Somme, ela salvara-o no primeiro dia de batalha e ficaram inseparáveis. No fronte, os homens ficavam supersticiosos quando o assunto era continuar vivo.
Fournier provou o telescópio.
— Merde! — Ele praguejou, depois voltou a usar seu inglês patético. — Não se vê nada.
— Podia colocar a cabeça acima dos sacos — Edgar sugeriu, também em inglês. — Se tomar um tiro, é sorte nossa.
— Vá se fuder, monsieur.
— Já estou — Edgar respondeu, cansado. — Já estamos.
E saiu chapinhando a lama.
— Ei — Fournier chamou —, Mathilda.
O rifle. Edgar colocou a alça no ombro direito, agradeceu acenando. Fournier era um bom homem. Portanto, um péssimo francês. Os bons, Lambert, o comando, Morel, Bonnet, Durand, pendiam no limiar do suportável. Os únicos de boa confraternização na companhia, de certa maneira irônica, eram os irlandeses gêmeos Cillian e Cormac da metralhadora e o velho Shane, cujas histórias pueris aliviavam o marasmo diário.
Edgar não os procuraria naquela noite.
A companhia, porventura, se via no descaso intermediário que aprenderam a chamar de dormir. Ele caçou um buraco longe do toque gelado da chuva. Encontrou um espaço a cem metros do posto de observação. O entorno escorria uma lama escura como blasfêmia. Tinha doença entre aquelas paredes, doenças e ratos e piolhos e todas as crias de Deus mandadas ao fronte para atormentar os homens bons que lutavam naquela maldita guerra. Edgar, porém, fez o sinal da cruz, e agradeceu antes de deitar entre a imundice.
Existiam lugar piores.
Verden degenerara até o reino do diabo.
Edgar se considerava um homem afortunado de perambular meia França e terminar no posto de Belfort. O lugar vivia pouca agitação naqueles dias, e os oficiais de maior autoridade, insatisfeitos, ordenaram a escavação de novas trincheiras à sul do forte num lugar antigo e penoso.
Acontecera dois meses atrás. A terra gritou sob os golpes das pás e o céu chorou o esforço dos homens. Os alemães repetiram o processo a seu lado da fronteira. A chuva caia firme desde então, enquanto ambos lados evitavam oferecer à guerra o primeiro sangue.
Sim, existiam lugares piores.
Ele aconchegou Mathilda em seu peito. Sua segurança. O rifle o levaria de volta a Inglaterra, vivo, para os braços da futura esposa, e ele diria ter sobrevivido a guerra pela graça de Deus e a proteção da Mathilda sem nunca revelar de qual das duas falava.
O homem agarrou o sono em sua casa, dormindo, porém, numa vala a milhares de quilômetros da Inglaterra.
O retumbar da chuva levantava a bandeira branca, despida dos clarões intermitentes e do domínio sobrenatural do céu, caía em gotas rasas da terra de ninguém e voava rumo ao capacete de Fournier Payet.
— Enfim — desabafou o francês, verificando os bolsos. Os cigarros acabaram na primeira hora. A mademoiselle sorte o abençoara do ranzinza negar aquele, se não acabariam mais cedo. As coisas iam devagar sem o tabaco. O porquê, ele matutou. O velho Shane devia ter uma explicação das boas. Ou uma história. Fournier dormia fácil com uma boa explicação e se considerava ótimo ouvinte de qualquer história. Shane podia estar ali com uma das suas... bocejou.
Embora a chuva parava, a vigília seguia.
As horas passavam como deviam, devagar.
Os duzentos metros até a trincheira alemã, agora menos camuflada, pacíficos feito a casinha de sua mãe no oeste, lá pelas proximidades da fronteira espanhola, à noite, acalmaram os dedos trêmulos que seguravam a pá. Fournier maldizia aquela fraqueza, cuspia nela, levaria para o túmulo e o que viesse depois, céu, inferno, tanto fazia, o outro lado veria um exemplo de coragem. Sua mãe vira um menino sair de casa e veria um homem chegando.
Ele teria história de guerra, a maioria inventadas, apertaria nos dedos covardes o horror do fronte e abandonaria nas vielas de seu peito. A mãe brilharia de orgulho. Os filhos dos vizinhos pediriam as histórias e os pais apertariam sua mão firme, as mulheres, uma admiração só e, ao soldado herói, restaria uma vida em resoluta paz.
Uns bons socos nas tábuas e os dedos criaram coragem. Contudo, machucou. Fournier abanou-os. Contra todas as investidas do mundo, e o Somme fora um terrível investimento, ele ainda sentia as dores da guerra.
— Porra! — O francês gritou à noite.
E, calado à princípio, o panorama envolto na penumbra respondeu:
— Wir ergeben uns! Wir ergeben!
Fournier gelou. Usava uma roupa pesava, cerca quarenta quilos, ou bem mais, estava cansado e sentia frio há horas, mas o gelo a se enrijecer dentro dele foi como o próprio toque da morte. Outras vozes fizeram coro à primeira:
— Wir ergeben uns! — Depois, voltavam a gritar enquanto ganhavam terreno.
O francês repetiu as palavras, aprendera um pouco de alemão nos últimos anos, insultos na maior parte, e Wir ergeben uns nada dizia a ele. Nem importava. Fournier disparou um dos sinalizadores e aguardou, suspenso no tempo, o clarão desvendar o avanço inimigo.
Dezenas corriam entre os bloqueios de tábuas e arrames farpado. Os ataques às trincheiras obedeciam regras óbvias: gás e artilharia primeiro, então mandavam os homens à morte certa. Fournier amaldiçoou a esperteza dos alemães e, ao lado do telescópio, pegou o rifle.
Na mira, disparou. Um alemão caiu. A mão firme puxou o ferrolho, preparou o novo disparo e matou o segundo. Errou o terceiro. Porém, o barulho rasgou a noite e serpenteou o terreno enlameado, numa cadência ligeira, enquanto os alemães avançavam, atingindo o Comandante da companhia à norte do posto de vigília.
Dormitando, Lambert Heroux ouviu o quarto e quinto disparo. O vigia da vez, Fournier, Morel, cedo demais para o turno do Bonnet e sua irrestrita capacidade de fazer merda, pois, sendo ele, estaria matando ratos, e tarde para o turno do inglês, era Fournier ou Morel e matavam os malditos alemães.
O Comandante despertou-se num salto.
Distante na noite, mais um rifle se unia ao combate, e Lambert correu, esperando encontrar um aliado e a linha protegida, e escorregou numa tábua. Protegeu-se da queda usando Springfield M1903. Não havia homem mais patriota naquelas terras, mas o comandante usava apenas o tipo americano. Os franceses eram péssimos fabricantes de armas, segundo ele, e piores na guerra.
— Use o apito, imbecil! — Ele berrou, na lama. Sentia o chiado do sinalizador no pé do ouvido, viu dois homens a cinquenta metros. Ergueu-se preparado a matá-los, mas desviou o tiro à esquerda e atingiu um alemão.
O homem rolou trincheira à dentro. Edgar o finalizou na baioneta. Atingiu no peito. Fournier arremessou uma granada. Os gêmeos vieram, Shane assumiu a metralhadora. Morel e Bonnet e Durand chegaram depois, contudo bem adiantados.
Homens entrincheirados tinham péssimos hábitos, um deles a indisciplina pelo tédio, molengas preguiçoso, mas o ato de criar pequenos grupos de camaradagem e seu grupo chegar primeiro à carnificina, dentre os 103 homens da companhia, fascinaram o comandante.
Lambert se uniu a eles. Um alemão preso no arame, acenando aos berros a cerca de trinta metros, sucumbiu à sua mira.
O veneno da metralhadora tomava vidas sem piedade. Das granadas, membros decepados voavam nas crateras recém-abertas. Os alemães, porém, continuavam avançando, continuavam, continuavam e continuavam. Com o tempo, a companhia se alinhou e a tática inimiga resultou num penoso massacre.
Houve sangue. Depois, ouviu-se o silêncio.
— Avançar? — Bonnet gritou, dez homens à esquerda.
— Não — Lambert respondeu de volta. Não via nenhum alemão, contudo esperou observando os mortos à luz do sinalizador e virou-se, surpreso, e fitou o alemão caído. — O rifle. Cadê o rifle do desgraçado?
— Merda — Fournier disse, ao lado.
Lambert deu às costas e gritou trincheira à fora:
— Que merda de plano foi esse, seus imbecis?!
Observando as sombras no campo, Edgar pediu a pistola de sinalização. Disparou um segundo. Quando o céu queimou vermelho, Cillian, ao lado, declarou:
— Queriam morrer.
— Então, por que não fizeram eles mesmos, filho da puta?! — O comandante gritou, culpado e furioso. — Vêm mais?
Edgar balançou a cabeça, de um lado a outro.
— Agora temos que matar covardes como patos selvagens?
— Se assim for — Fournier respondeu.
Novamente, ouviu-se o silêncio.
— Não temos — Shane disse e cuspiu na metralhadora aquecida. Os 103 homens alinhados, alguns deles distante o bastante para mal ouvi-lo, esperaram calados. — Tem problema do outro lado. Isso aí dá uns trinta e cinco pra quarenta, um terço de uma companhia, e pra quê?
— Uma isca? — Cillian sugeriu.
— Somos maioria agora — Cormac retrucou.
— Aí está — Shane disse. — Um ataque mal feito e a trincheira deles é nossa. Um bem feito...
— Faremos sem baixas! — O coronel Tascher completou, passando, desarmado e com um charuto nos lábios, por cima do alemão.
— Pressupondo que somos maioria — Lambert observou —, sim. Pressupondo. Quem aqui vai aqui morrer por uma suposição?
O coronel coçou o queixo, assoviou.
— É uma situação atípica, precisa de voluntários.
— Preciso — O comandante confirmou; rouco, cerrando os punhos. Embora protegida pela companhia, a trincheira pertencia a Tascher e as ordens acima dele.
— Voluntários — O coronel pediu.
Os homens esperaram, calados, mas o encarando. Lambert parabenizou a coragem deles dentro de si, os soldados, os verdadeiros, não como o coronel, não precisavam ouvir nada a respeito de coragem. No lugar, disse:
— Em duplas. Bonnet e Antoine, Fournier e Morel, Durand e Cillian, Edgar e eu. — Conforme anunciava, entregou as pistolas de sinalização e os explosivos. E subiu nos sacos de areia. — Espalhem-se.
O comandante tomou a dianteira e ouviu os passos apressados de Edgar atrás de si, os seis pares davam distância. Adentro na terra de ninguém, o terreno plano mostrava-os a qualquer atirador, e eles iam abaixados, mas a lama oferecia um caminho rápido e prático, só o arrame farpado e a inconveniência da morte certa impedindo o avanço.
À metade da travessia, os corpos apareceram. Um alemão, apenas uma silhueta, gemeu um pedido de ajuda à esquerda do comandante e recebeu a baioneta no coração. Olhos brilhantes, mas apagados, o encararam no escuro.
— Olhe — Lambert disse. — Um homem não escolhe quando morre, mas pode escolher quando outros irão morrer. Esses homens tentaram mudar isso. Olhe o resultado.
O outro não respondeu. E, Lambert perguntou:
— Quem é Mathilda?
O comandante ouviu um chapinhado brusco, crispou os lábios.
— Caiu?
— Não — Edgar respondeu. — Por que essa pergunta agora?
— Curiosidade. De todos nos. Apenas, curiosidade. Você pode morrer nos próximos metros, Edgar. Se levar a resposta consigo vai baixar o moral da companhia.
A linha inimiga esperava a cem metros.
— É uma aluna minha — Edgar respondeu. — Sou professor particular, caso não saiba. Mathilda é a filha de um querido amigo.
— Jovem e bonita.
— Bastante.
— Tem compromisso com ela?
— Ainda não. Ela era muito jovem, ainda que tentadora. Mas quando eu voltar, estará uma mulher feita. — A sentença veio com um toque de satisfação masculino, Lambert observou. — Tem alguém a sua espera em casa?
— Filhos, esposa... — O comandante se calou. À diante, braços e penas e as tripas de alemães esparramavam-se num perímetro de quinze metro, carne solta presa nos bloqueios de ferro e madeira como iscas para lagos rasos.
— Pisaram nas próprias minas.
Duvidando se era uma pergunta ou observação, Lambert guardou silêncio e fitou a trincheira alemã, o alarde ausente, a linha por completo desprotegida. Edgar preparou a pistola de sinalização, e ele disse:
— Ainda não. — E, após uma pausa incômoda, acrescentou com um gesto vago:
— Primeiro os... — Tirou a alça do ombro e jogou a bolsa no chão. Os explosivos iam nos bloqueios mais próximos e dentro da vala, se o inimigo, em tamanha bondade, permitisse. O comandante cobriu o terreno na ponta da baioneta, Edgar cercou a escavação alemã, observando-a.
Eram iguais em ambos os lados, exceto que os homens a cavar aquela trincheira estavam deitados numa mistura de vômito e lama, decapitados.
Muitas bombas caíram de mãos alemãs nos últimos anos, e eles tinham os gases venenosos, o lança-chamas. No outro lado do fronte, Edgar via monstros destinados a impedir seu conto de fada com Mathilda, as piores crias de Deus, mas, na obscenidade largada após a chuva, só viu as cabeças fantasmas, enojado, e virou o rosto.
— Os desgraçados fugiam... disso.
— De quê? — Lambert perguntou. — O que se passou aqui?
— Não sei se quero descobrir — Edgar respondeu, inútil, pois o comandante o empurrou dentro da vala e, num gesto dele, separavam-se.
O céu, antes cerrado de nuvens enegrecidas, mostrou o prateado da lua e desenhou pálidos arco, semelhante aos das ferraduras, rodeando os mortos. Os alemães tinham cavado mais de uma linha padrão, sendo a comunicação entre as duas passagens pouco mais larga que a própria trincheira. As marcas eram recentes na segunda linha, de uns cinco minutos atrás. Ou, menos. Edgar seguia direto e à direita quando ouviu um trote pesado na terceira linha.
Tinha um cavalo no fronte, disse a si mesmo. Entretanto, sem admitir. Aquilo parecia o começou de uma piada; os flancos do animal apertavam os homens contra as tábuas, então um cavaleiro, um nobre jovial, dentro da trincheira, dizia como ficava imponente acima da criatura, e também da proteção e assim, logo na primeira investida dos alemães, o nobre tomou um tiro e caiu do cavalo. Péssima piada. Mathilda riria, e de verdade, era daquelas de sorriso fácil e contaria a ela, por hora, guardando-a para acompanhar o trote.
O rifle apontando acima e abaixo, direita e esquerda. Passo, trote. Ambos iam de encontro à segunda passagem de comunicação. Os passos, porém, perdiam a firmeza do trote tocando a curva protegida da quina. Edgar preparou o disparo. Mataria o cavalo primeiro. Era um alvo maior e, se errasse o cavaleiro, perderia a vantagem da surpresa.
Mathilda o perdoaria. Não, contaria a piada a ela. A verdade a magoaria, decidiu, mirando na altura da hipotética cabeça do animal.
O trote de passeio alcançou a passagem. O corpo do animal escondia-se, o homem montado não se via acima da trincheira. De início, nada se viu até uma mão velha demais para a guerra, enrugada, crivada de veios escuros, unhas quebradas e sujas de lama e prata derretida, tocar e apertar as tábuas da esquina. Edgar continuava mirando o local hipotético. A cabeça de cavalo surgiu. Porém, não era um cavalo, não ao todo, as mãos velhas saíam do peitoral abaixo do pescoço, as orelhas e os olhos inexistiam, e a boca terminava num orifício cavernoso de tentáculos bulbosos, entrechocando-se num ruído úmido e fora de ritmo. Dnai Dnai Dnai, diziam, contudo, alargando-se e ecoando do próprio local como se mil vozes enterradas abaixo entoassem um cântico antigo.
Dye Npiyecc Azra Izyr Dye Npiyecc Azra Izyr
Dye Npiyecc Azra Izyr
Dye Npiyecc Azra Izyr Dye Npiyecc Azra Izyr
E, como ali existia algo de maligno, ele vomitou. O movimento foi espasmódico e continuou mesmo após o pão e o enlatado daquela manhã se misturar a lama. As penas amoleceram. A boca tentava puxar ar e vomitava o nada. Afogando-se, Edgar disparou cegamente, acionou o ferrolho. Os dedos não responderam. Agoniou-se na imundice escorregadia.
Lambert viu-o cair na ponta leste da segunda linha, derrubado depois de um disparo. Um maldito alemão, concluiu e escalou os dois metros da vala, ligeiro como menino, parando em cima, o M1903 preparado. E não era um alemão. Se a coisa tivesse um nome, ele não o pronunciaria, não o ouviria, mas ouvia a inconsciente cacofonia dos tentáculos.
Vomitando, rolou trincheira abaixo, incapacitado contra os decrépitos braços, balançando nos campos de prata, e os cascos, salpicando a lama cristalina, da criatura-cavalo.
O luar, Lambert concluiu. As mazelas do fronte estavam terrivelmente bonitas sob luar. Com o rosto de encontro ao chão, na segunda linha, Edgar não o enxergava.
As blasfêmias sumiram, mas ainda forçavam o vômito como se a mão anciã adentrasse a garganta e descesse, apertasse e puxasse o vazio de suas tripas. Segundos cáusticos de desespero, pois deitado ali existia somente tempo e angústia, consumiram alguma parte dele. Uma parte importante. Só então, alguém se aproximou e levantou-o.
— Monsieur — Fournier disse em inglês —, está ferido?
— Nã... Não... — Edgar se engasgou. — Cha... me o... co...comandante. Re... cuar. A...
— Alemães?
— Nã... Nãoo... O di... diabo. Acredi... ta... ne... le?
Fournier apertou os lábios, confuso.
— Oui.
E Edgar apontou à passagem de comunicação. Ouviram um grito afogado. Fournier largou-o, pegou o sinalizador e mirou o céu. Porém, um par de mãos agarraram-no.
— Nã... o! — Edgar suplicou, mas Fournier acertou-o com sua pá, da segunda vez, conseguindo atingir a noite.
O fronte vestiu vermelho. Edgar recuou, horrorizado, e correu. Na direção contrária, Fournier cuspiu os piores insultos e se enfiou na esquina de comunicação entre as linhas, à esquerda. Tirou o capacete e pôs na ponta da baioneta, expondo-o aos inimigos.
— Livre — Fournier gritou em inglês como se tentasse atrair o covarde. Relaxando, pôs o capacete de volta e atravessou o estreito de comunicação.
Em meio à vala, o diabo, ou o que Edgar chamara de diabo, segurava um homem pela cintura e abocanhava a cabeça dele. Os tentáculos se agitando no orifício cavernoso. Fournier soltou um esgar que, de surpresa, virou vômito.
O insulto do francês, disparos na terceira linha, o silêncio da morte, Edgar ouvia tudo menos a obscena criatura.
Há pouco, convencera-se.
As trincheiras eram não só o purgatório coletivo dos pecados passados, mas dos futuros também. Enquanto os piores pesadelos dos soldados levassem a terra de ninguém, cada um deles, nascidos como meros sacrifícios, encontraria salvação se refletisse à longa espera, apressando-se em busca da glória, porém, e a companhia destrinchava o terreno como uma criança brincando na chuva, encontraria o verdadeiro inferno.
Os homens o alcançaram e passaram interrogando-o. Certo da inutilidade dos próprios argumentos, Edgar desviou-se da companhia, pagara sua cota pelo avanço na penitência e sentia a vaga esperança de que estaria seguro se retomava ao posto. Deus o perdoaria. Sentiu a ânsia de vômito retornando, contudo.
Trezentos e cinquenta metros atrás dele, o sinalizador acima do fronte se apagou abaixo avisos, disparos, explosões e gritos afogados diante a criatura. Edgar encolheu-se, e evitando os bloqueios, os mortos, num traiçoeiro deslize da lama, saltou de volta à trincheira aliada.
Os quinze franceses na retaguarda, alinhados nos sacos de areia, à esquerda e à direita, murmuraram insultos. Cormac encarou boquiaberto. Na metralhadora, Shane cuspiu como se tirando um gosto ruim da boca.
— Quase o mato — O irlandês disse. — E não por engano.
— Que faz aqui? Tem ordens? — Cormac perguntou. — E que isso quer dizer, velho?
Shane não respondeu, e o gêmeo mais novo insistiu:
— Que ele quis dizer?
Edgar tocou a garganta, negou, a boca abria e fechava e nada se ouvia como a de um peixe fora d'água. Cormac apertou os dentes, porém guardou silêncio e esperou o fronte inimigo cair no mesmo dilema.
O céu se fechava de nuances sombrias e mal presságio. A batalha contra a criatura durou pouco. Shane pediu um sinalizador. Um francês baixo, meio esguio, apelidado de Miroir obedeceu.
Edgar subiu em cima dos sacos de areia, precisava o fazer. Dezenas atacaram, confrontaram a danação e deviam ter matado o diabo que lá andava. Havia esperança. Mas a companhia estava morta. A criatura, gorgolejando na terra de ninguém, agarrava o pé do que seria o último homem vivo.
— Nuckelavee — O velho irlandês balbuciou, antes de qualquer outra ação, acionando a metralhadora.
O mal encabritou-se. Largou a presa, contornando o território, contudo decidida a avançar, recuou às sombras. De alguma forma, ela estava à vista, ainda que oculta, como um aviso pulsante em amargo desespero.
Shane sequer respirava, o dedo no poderoso gatilho. O clarão ainda queimava. Mas, na quietude, o lamento das mil vozes ecoou e golpeou os homens, sendo o velho irlandês o primeiro a render-se a incongruência nela entrelaçada.
O fuzilamento reiniciou com força máxima e somado a iniciativa desesperada dos franceses. De certa forma, a guerra era uma luta incompreendida. E, eles lutaram até a munição escassear. Cormac e Miroir apressaram a recarga enquanto os rifles repeliam a criatura tão eficazes quanto homens desnorteados e cobertos de vômito poderiam.
Inútil, Edgar olhava a mulher deitada no fronte inimigo. Lambert dissera aquilo. No outro lado, havia uma mulher difícil, mas perfeita, que se poderia conquistar sob um alto preço. Mathilda fora a mulher para ele, perfeita, difícil, distante, naquele purgatório. Lambert estava errado.
A criatura rompeu a defesa antes da metralhadora volta à ativa, a cinco metros, pulou e caiu atrás da primeira linha. Agarrou primeiro o velho irlandês, os tentáculos agitaram-se. Os homens atiraram, erraram, contorceram-se, vomitaram, pegos e decapitados, arrebatados.
Por Mathilda, ele fugiu. Encontrou o buraco a cem metros do posto de observação, apertou-se como podia, esperou. O sono chegava rápido durante a vigília e cabia a Fournier acordá-lo. Esperou, e não era Fournier. De olhos bem abertos, curvado aos espasmos, a criatura encontrou-o. Os largos flancos de cavalo impediam a fuga, se uma vez pudera fugir.
Lambert tinha suas razões, errara sobre a mulher, mas estava certo quanto a hora da morte de um homem, embora o rifle tentasse-o, outros escolheriam. Em Verden, escolheram. Morrera lá e fingira viver os últimos meses num simulacro de penitência.
As mãos anciãs suspenderam, os tentáculos engoliram.
Era hora da transição.
Ouviu tiros. As mil vozes. Um trovão.
Guerra.
E caiu de costas.
A chuva irrompia uma vez mais, crivada pelos relâmpagos. Os trovões explodindo a noite. A silhueta da criatura se desenrolava, desvanecia na lama. Edgar se viu chorando, ele e o céu, porque nunca estivera tão errado.
Os reforços chegaram na manhã seguinte, ainda chovia, e encararam as trincheiras entulhadas de homens decapitados e um único sobrevivente, em estado catatônico, incapaz de falar. Ordenaram que escrevesse.
Os acontecimentos da noite anterior foram resumidos em uma linha que poucos leram o relato antes da página sentir a caricia do fogo.
O exército atravessou a trincheira alemã no dia seguinte e jamais deixou tropas ou edificou novamente à sul de Belfort. Encerrada a estação das chuvas, todos tinham ido embora e o ocorrido acabara enterrado nas memórias dos homens.
Edgar nunca contou a piada a Mathilda.