O sinal tocou pontualmente às 17h30, a aula de Filosofia chegava ao fim, guardaram os cadernos na mochila e se levantaram. O calor de verão cedia aos poucos, caminharam pelo corredor, conversando e não dizendo nada.
- Hein Beatriz, você me empresta o caderno de Biologia? Acho que dormi durante a aula e acabei perdendo algumas coisas. – Milena disse rindo enquanto se justificava.
Beatriz buscou o caderno no fundo da mochila sem reduzir o passo, estava acostumada com essa situação, talvez por isso caprichasse nas anotações. Em outra época não aceitaria essa relação de exploração, mas agora não se importava mais, a relação era de dependência mútua, uma certeza cristalina. Nuvens negras de tempestade preenchiam o céu, antes, limpo. Fizeram piada da mudança drástica do tempo, um dia deixariam o país tropical juntas, e pensaram em formas rápidas de enriquecer.
- Vamos pra casa. Com essa chuva os ônibus vão atrasar, não adianta ir embora agora. – Milena sugeriu de forma direta.
- Ah sim, porra de chuva.
A casa ficava atrás do colégio, abandonada há anos e rodeada por alguns casarões, cada vez mais raros no centro da cidade. O muro era baixo e as ruas desertas, nenhum carro ou morador caminhando, a pequena transgressão se tornou recorrente. Na varanda tranquila costumavam fumar enquanto apreciavam o quintal esquecido com algumas árvores.
Pularam o muro, escorregadio pela chuva, e correram em direção à varanda. Com movimentos automáticos sentaram no chão e procuraram carteira e isqueiro. Observaram em silêncio a chuva torrencial, os pássaros cantando e as luzes da cidade. O momento contemplativo foi interrompido por ruídos vindos de dentro da casa, nunca tinham entrado na casa, a varanda era o que buscavam. Em um impulso irracional decidiram investigar, pela abertura da porta viram um vulto se perder na escuridão da residência. De mãos dadas adentraram a cozinha destruída, o interior da casa deserta era muito maior do que imaginavam. Identificavam os móveis pela sua sombra. Sem perceber, Beatriz se afastou de sua dupla, durante um momento de indecisão sentiu um empurrão e caiu de joelhos no chão sujo. Ouviu um segundo corpo cair no chão e foi puxada pelo braço por Milena para fora da casa. No quintal, a chuva ainda mais forte, se olharam assustadas, Milena segurava uma faca com sangue. A chuva lavava de forma gentil os vestígios do que acontecera.