Agarrando-a pelos cabelos arrastou-a até o oratório, deu-lhe uma bofetada no rosto e estendeu a mão para que ela a beijasse.
_Agora fique aí e reze 50 aves-marias para purificar sua alma! E nunca mais ouse levantar a voz para sua madrasta! _ a voz bêbada do pai ecoou por toda a casa.
Não foram poucas as vezes em que essa cena se repetiu, depois que a mãe morrera, o pai se entregara a bebida e àquelas mulheres devassas! Desde os seus nove anos aquelas mulheres ordinárias vinham e invadiam sua casa, profanavam o leito de sua mãe e envenenavam seu pai contra ela...
Tudo se tornara pior depois que Margô se tornara mulher de seu pai... As humilhações eram contínuas, assim como os maltratos, seu lar, antes um lugar de paz e tranquilidade, agora estava cheio de pirralhos de boca imunda, todos de pais diferentes e que agora ocupavam seu quarto e ela foi condenada ao sótão...
Será que haveria alguma luz para ela?
No começo odiava a escuridão do sótão, sua sujeira, o cheiro do mofo, a escassa luz que entrava pela janela...
Depois começou a explorar o local, ali havia muitas caixas e baús... Num deles havia fotos de seu avô e vários livros, anotações, chave de fenda, porta retratos de diversos tamanhos...
Numa caixa de ferro encontrou um grosso livro, cheio de papéis e anotações, no lado interno da caixa havia um bilhete: Entregue como penhor pelo senhor Augustus Collemberg (aprendiz de médico) até quitar a conta do açougue.
Aquilo era curioso, lá dentro tinham várias coisas, vidrinhos com pós, umas faquinhas de diversos tamanhos, alicates, um pequeno serrote, injeções... Tudo era muito interessante...
Bom, agora era conseguir um lampião para poder ler aquilo tudo... Mas como?! Em casa havia um para cada quarto e o de fora da residência, a ela só cabiam as velas e regradas, se usasse todas ficaria no escuro depois! Será que acharia algo em alguma caixa? Amanhã, durante o dia veria isso...
Acordou cedo e foi fazer as tarefas que a madrasta lhe mandara, era dia de ir ao mercado, odiava aquele amontoado de gente! Foi de banca em banca, seguindo cuidadosamente todos os ítens da lista, a cesta estava pesada e o sol muito quente! Encostou-se a sombra de um muro para descansar, uma das laranjas caiu da cesta! Precisava ir atrás ou receberia uma bofetada da madrasta e depois seria a vez do pai. Pegou a cesta e foi na direção da laranja que entrou num beco... Olhou temerosa de que houvesse algum bandido ou desocupado ali, tudo vazio, conseguiu avistar a laranja.
Caminhou naquela direção olhando desconfiada para todos os lados, ao se aproximar viu um caixote com muitas coisas amontoadas, velharias! Por certo pertences de algum velho morto recentemente.
Guardou a laranja, ia retirar-se, mas a curiosidade falou mais alto, resolveu olhar o que havia no caixote.
Pouca ou nenhuma coisa de valor: um pequeno caderno escrito em páginas aleatórias, velhas passagens de trem, uma velha Bíblia, separou essa para si junto com o caderninho (papel sempre era útil)! Um colete mofado, teria algo nos bolsos? Nada! Mais peças de roupa muito gastas e embaixo de um casaco um pequeno lampião meio amassado e com dois vidros quebrados, isso sim lhe serviria!
Já era tarde! Como se distraíra, vinha bronca com certeza... Voltou para casa o mais rápido possível. Ao abrir a porta a madrasta já a esperava com uma vara!
_Sua inútil, vagabundeando por aí ao invés de vir direto para casa! Vamos, diga, o que andou fazendo!?
Com muito medo, contou que uma laranja caíra da cesta e tinha ido parar num beco e que no beco encontrou a Bíblia e o lampião.
_Já que você atrasou meus afazeres por causa dessa Bíblia, você a irá ler em voz alta, lá no quintal, por uma hora! Mostre as mãos, já! - e a madrasta lhe deu cinco varadas nas mãos - já pro quintal, anda!!!
_Mas madrasta, o sol está quente... - nem terminou de falar e sentiu uma bofetada e o sangue escorrendo pelo canto da boca...
Ficou lá, no sol, lendo em voz alta. Como odiava aquela vadia...
Passada uma hora a madrasta a mandou entrar e só permitiu que almoçasse pão seco e água! Mas estava tão desfalecida de sede e cansaço que a água lhe pareceu deliciosa!
_Agora vá para o sótão e reze para que eu não conte ao seu pai o que você me fez! E leve esse lixo com você! - a madrasta apontou o lampião, a velha Bíblia e o caderninho - fique com eles, eu permito, eles são muito mais do que você merece, sua inútil!
Ela pegou aquelas coisas e subiu correndo para o sótão, lágrimas quentes escorrendo pelo rosto...
Entrou, trancou o alçapão e chorou por um bom tempo, deitada na velha cama... Adormeceu e sonhou com sangue, muito sangue que escorria de sua boca, se espalhava pelo chão e ia até os pés da madrasta e ela ria...
Acordou muito assustada e começou a rezar incontrolávelmente. Como poderia sonhar com aquilo? O que aquilo queria dizer?! Sentiu muito medo...
Passados alguns minutos, foi se acalmando, resolveu pegar suas "novas posses" e ver o que poderia fazer...
Pôs o lampião sobre uma pequena mesa improvisada com caixotes, na caixa de ferro pegou os alicates e as faquinhas e conseguiu tirar os vidros quebrados, lembrou dos porta-retratos pequenos e foi comparando os tamanhos, por fim achou dois que eram perfeitos nas laterais, mas na altura faltava bem pouco, iriam servir!
Pelo menos o castigo da madrasta lhe deu tempo de arrumar o lampião. Era só testar se daria certo, acendeu e ficou perfeito! Agora podia ler a noite ou em dias mais escuros...
Já ia pegar o velho livro quando ouviu gritos de sua madrasta e das crianças: _ Sangue!!!
Desceu correndo as escadas e encontrou as crianças chorando e um rastro de sangue que ia até o quarto da madrasta.
_ O quê aconteceu???
Ninguém lhe respondia nada, só havia choro...
_Cadê a Maria?
Tirando o dedo da boca, Sofie disse que ela tinha ido na costureira.
Ela acalmou as crianças e as colocou em seu antigo quarto, fechou a porta e seguiu o rastro de sangue até o quarto da madrasta. Bateu na porta:
_Madrasta?
_Entre sua inútil!- uma voz arfante, respondeu do outro lado.
_A senhora está bem? O quê é aquele rastro de sangue?
_Cadê a Maria?- perguntou arfando.
_Foi buscar seus vestidos na costureira. A senhora está bem?
_Só me faltava essa agora, vou ter que depender de uma criatura inútil como você... E meus filhos?- disse se contorcendo de dor e suando.
_Já os acalmei e estão brincando no quarto.
_Pois bem sua inútil, vá a cozinha, coloque água para esquentar. Enquanto isso, pegue o esfregão e o balde e limpe o sangue do corredor. Depois pegue água quente e venha aqui. Anda sua inútil! Não se distraía e não se demore ou eu farei com que seu pai lhe dê a maior surra de sua vida!!!
Ela saiu correndo a fazer tudo que a madrasta ordenou, um castigo por dia era mais que o suficiente...
Entretanto, o quê significaria aquele sangue? Por quê a madrasta parecia não se importar tanto com aquilo?!
Fez tudo que a madrasta mandou e veio o mais rápido que pode com a água quente. Trouxe outro balde vazio, vai que precisasse...
_Até que desta vez você foi rápida! Vamos, me ajude a tirar esse vestido. - a madrasta estava um tanto pálida e muito suada.
A roupa de baixo da madrasta estava coberta de sangue! Era horrível! Parecia seu sonho, mas muito pior...
A madrasta ficou só de camisa e agachada segurou nos seus braços e fez muita força, logo, mais sangue saiu e uma estranha bola vermelha. O que era aquilo?!
Ela ficou parada, paralisada, sem conseguir se mexer, acordou com um bofetão da madrasta.
_Vamos sua inútil, pegue isso, envolva num lençol e enterre na parte mais escura do quintal. Anda!- e a madrasta lhe deu outra bofetada!
Ela tonta e sem entender nada, com muito medo, pegou "aquilo" com o lençol e jogou no balde vazio. Mecanicamente ajudou a madrasta a se limpar com a água quente, limpou o chão e foi para o quintal com "aquilo".
Sua cabeça ardia, seu rosto queimava, suas pernas tremiam, seu coração estava descompassado, seu estômago embrulhado, se sentia muito zonza...