O samurai se sentiu estranhamente impelido a passar por aquele caminho. Saia de seus hábitos metódicos, mas depois da morte de sua única filha, agora estava mais atento às suas intuições...
Caminhou um pouco e ouviu gemidos e o som de corvos famintos. Sentiu urgência e correu naquela direção.
Viu muitos corvos sobre uma pobre moça com as roupas rasgadas e muito ferida, que mal tinha forças para gemer.
Com sua espada, num lance rápido partiu ao meio vários deles e os outros fugiram grasnando.
A moça, muito ferida mal abriu os olhos e desmaiou.
O coração do samurai ardeu e se quebrou com o estado da moça, estava claro, ela havia sido violada!
Não que ele nunca tivesse visto outras moças naquela situação, mas aquela pobre criatura era muito parecida com sua amada filha e isso ele não poderia perdoar...
Gentilmente carregou a moça em seus fortes braços, ela era frágil, leve como uma pluma...
Quem poderia ser tão execrável para fazer tamanha maldade com um ser tão frágil?
Colocou a moça no quarto que antes era de sua filha, cuidou de seus ferimentos e velou ao seu lado. Por muitos dias a pobre criança lutava pela vida, entre febres e pesadelos terríveis...
O samurai se dedicou totalmente a cuidar daquela moça, era como se os deuses lhe houvessem dado uma segunda chance...
Habilmente fazia sopas e chás que ia colocando delicadamente na boca da moça que sorvia o líquido com dificuldade. Numa bela manhã, quando subia as escadas levando-lhe o mingau da manhã ouviu um barulho, parecia alguém caindo no chão... Apressou-se.
Lá estava a moça, tinha tentado se levantar e caíra no chão. Parecia muito confusa com o local e a visão dele.
Ele se apresentou e lhe contou como a encontrara, enquanto ele falava, lágrimas banhavam o rosto dela e por fim ela baixou o olhar.
_Agradeço ao honrado senhor por salvar-me a vida, mas creio que não terei condições de satisfazer adequadamente seus desejos - falou num fio de voz e soluçando.
O samurai sentiu-se triste e ofendido com o pensamento da moça, será que ela realmente achava que ele a tinha salvo para escravizá-la?
Entretanto, pensando na situação em que a encontrara e no que lhe sucedera, ela realmente não tinha motivos para esperar bondade e honra de um homem...
Muito calmamente o samurai explicou a moça que ele nunca iria tocá-la e que em honra à sua finada filha, se ela permitisse, ele seria o seu protetor.
A moça o abraçou e agora chorava, mas de felicidade, poderia se sentir segura, pelo menos por hora...
Os dias foram passando e ela se recuperou plenamente em seu estado físico, todavia sua alma sangrava! Como sua tia poderia ter sido tão cruel?! Entregá-la àquele bando como troca pela paz de suas terras?! Esse ato da tia iria conduzí-la a tudo, menos à paz...
Já fazia mais de um mês que ela estava sob a proteção do samurai, em troca ela o ajudava com a casa, preparava algumas refeições e rezava pela sua filha e esposa falecidas, por sua segurança e por seus ancestrais. Os deuses a haviam presenteado com aquele protetor!
Um dia o samurai, que não falava muito, lhe disse:
_Koisume, sinto que meus dias vão se esvaindo nas areias do tempo e temo pelo teu futuro e tua segurança. Tudo que te ocorreu foi triste, mas os deuses acharam necessário e disto devemos tirar algo proveitoso. Koisume, ainda que tenham violado seu corpo físico, sua alma, sua essência, permanece pura! Com tudo o que aconteceu você deve fortalecer-se, desenvolver-se e transcender seus limites...
Koisume ouvia atentamente o samurai.
_Sinto que devo treinar-te nas artes dos samurais para que possas defender-te e se em tua alma desejares vingança, irei contigo.
Koisume sentiu ser a chance que sua alma desejava e empenhou-se ao máximo para aprender todos os mistérios e segredos dos samurais.
A moça também dedicou-se a treinar vários corvos, sua alma desejava usá-los em sua vingança!
E ela bem sabia quais seres execráveis estavam em sua lista...
E já tinha a data certa para a execução de seu plano 04/04 à quarta hora da manhã...
Koisume se tornou muito ágil com todas as armas, mas sua especialidade eram a lança e o machado. O samurai ficou impressionado com sua agilidade e desenvoltura, o ódio a movia e a fortalecia...
Chegou 04/04, a tia de Koisume sentia o ar pesado, não conseguia conciliar o sono...
Levantou-se e abriu uma das janelas, pensando que o ar noturno a faria sentir alívio, mas ao olhar para fora, ficou aterrorizada! Muitos corvos estavam pousados na cerca que circundava a frente da casa. Ela sentiu um frio gélido a percorrer sua espinha, de repente lembrou-se da sobrinha, de Koisume e o ar ficou ainda mais pesado!
Havia feito um ótimo negócio, nunca mais os Takas a importunaram e também nunca mais soube da sobrinha.
Ela sempre a considerou um peso e sua aparência e modos tiravam o brilho de suas filhas, livrar-se dela foi um ótimo negócio, pois dois meses depois suas filhas conseguiram ótimos pretendes e se casaram e agora ela tinha ainda mais dinheiro com os dotes! Se tornara uma viúva rica e reconhecida e agora tinha até pretendes, veja só...
Mas aqueles corvos sem dúvida eram um mau presságio, aquela noite por si só, era uma noite destinada a coisas ruins... Chacoalhando a cabeça tentou deixar de lado esses pensamentos...
Não ia mais pensar nessas bobagens, aqueles corvos estavam ali por estar e pronto!
Nesse instante o relógio ocidental, presente de um de seus pretendes badalou 4 horas. Seu coração tremeu e uma luz veio em sua direção, era uma flecha com fogo! Ela gritou de susto e instintivamente apagou a flecha. Nela havia um bilhete.
Gritou pelos criados atônita! Nenhum respondia!
Fechou rapidamente a janela e os corvos começaram a grasnar!
Correu até o lampião mais próximo e leu o bilhete, era a letra da sobrinha. Uma única frase:
あなたの平和は終わった
Anata no heiwa wa owatta• (Acabou a sua paz).
Gritou desesperada, nenhum criado respondia, correu para a sala, iria pegar uma arma e defender-se, pensou .
Mas quando chegou lá encontrou a sobrinha em vestes de samurai.
Estacou gélida! Não conseguia se mover nem dizer palavra.
Koisume com os olhos vermelhos de ódio, disse a tia:
_Você irá queimar com todos os demônios! Está sobre a sua cabeça o sangue de todos os seus criados!
A tia, recobrando a postura, falou:
_Uma corja de inúteis, tal qual você! Mate-me! Minhas filhas estão bem e em paz. Você é uma inútil e sempre será Koisume!
Koisume segurou a tia pelos cabelos, com a força que todo o ódio lhe dava.
Com a lâmina da faca escreveu em seu rosto:
死の花
Shi no hana (flor da morte).
_A Koisume morreu para você e você morrerá hoje para ela com toda a violência que você lhe designou. Agora me chamo Shi no hana!
A tia cuspiu-lhe na face, Shi no hana a jogou no chão, pisou em seu pescoço e com sua lança, perfurou o fígado, o ventre deixando as entranhas da tia a mostra e lhe disse:
_Você nunca encontrará paz, pois a sua maldição alcançará suas filhas e será o terror de seus netos. Eles saberão e sentirão constante medo por todas as suas gerações...
_Não!!!
Ela se afastou e atirou uma de suas lanças prendendo a tia ao chão.
Shi no hana, virou-lhe as costas, abriu todas as janelas e ao sair, deu sinal aos corvos que entraram e começaram a comer as entranhas de sua tia ainda viva...
Continua... ???