Alguém um dia havia dito que a melhor sensação era acordar e ver o sol nascer ante ao mar, sentir a leve brisa da manhã bagunçar os cabelos e a água tocar suavemente os pés descalços; sobretudo, o momento marcante de olhar para o lado e ver sua companhia ainda adormecida, iluminada pelos raios de sol que despontava no horizonte. Todavia, essa sensação jamais poderia ser sentida no futuro, fato este que deixava a pequena garota de sete anos em total confusão.
– Papai, eu fiz algo errado? – Perguntou, enquanto coçava seus olhos sob os óculos e tentava observar sua mãe que estava aos prantos. Nas últimas semanas a coceira havia se tornado constante e irritante, causando preocupação aos pais que rapidamente levaram a menor ao hospital. Entretanto, os médicos não acharam nada agravante, receitando apenas um colírio com a desculpa que era normal ao se habituar com o novo utensílio.
Mal sabiam que a partir daquele dia a vida de todos – principalmente da pequena garota – mudaria drasticamente.
– Não, meu amor, a mamãe só está um pouco cansada. – respondeu, enquanto pegava-a no colo. – Nós precisamos conversar, mas antes que tal lavarmos essa mãozinha e comermos o bolo de chocolate, huh? Sabe que não pode ficar coçando demais os seus olhos, princesa.
– Mas está incomodando, papai, eu não posso ficar sem os óculos?
– Não, princesa, sabe que precisa disso para enxergar melhor. – respondeu, enquanto sentava-a na cadeira, cortando um pedaço de bolo em seguida e deixando o prato a sua frente.
– Mas eu não ‘tô enxergando melhor, ainda ‘tô enxergando as coisas embaçadas. É ruim, papai. – Ao ouvi-la, seu pai apenas suspirou mais alto, tentando se preparar para o que veria a seguir – Papai?
– Princesa, a mamãe e o papai precisam te contar algo, mas você vai ter que ser forte, tudo bem?
Não havia muitas lembranças a partir desse momento, pois todo o espaço havia se tornado pequeno demais, como se nada daquilo fosse real. Os dois adultos choravam e abraçavam sua filha, na tentativa de confortá-la.
Porém, apenas uma pergunta persistia em sua mente.
“Por que eu vou perder a visão?”