Dores e Amores.
vhladrac
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 03/09/20 01:12
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 3
Comentários: 2
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Palavras: 701
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Em alguns poemas de Cais dos Lamentos, citei a persona de meu avô, Sebastião, e prometi à Shizu que voltaria com mais histórias relacionadas a ele e a minha avó.

Esse fato aconteceu pouco tempo antes de seu falecimento, em uma das milhares de conversas que tivemos e foi crucial para que eu pudesse abrir os olhos e ver um horizonte diferente do azul opaco de sempre. Tornou-se então uma das experiências cruciais para que eu entendesse mais de quem sou e de quem posso ser.

Espero que gostem! Boa leitura!

:)

Capítulo Único Dores e Amores.

Acredito que esse será um dos textos mais difíceis que já escrevi, mas é tão necessário que meu amor por essa história é maior do que a dor que sinto quando lembro dela. Minha família sempre foi muito alegre, todos. Sofremos recentemente com a perda de meu avô Sebastião e sete meses depois com a perda de minha avó Dona Cida – ambos já muito citados em Cais dos Lamentos, se você leu, já deve conhecer um pouco dessas incríveis pessoas.

Desde muito pequena eu sempre fui extremamente fechada, por natureza. Demorei muito tempo para entender as diversas coisas "estranhas" que se passavam em minha cabeça e sempre me achei uma pessoa ruim, por ter pensamentos que achava estranhos. Me culpava por tudo, por ter perdido as amizades do colégio, por estar me sentindo triste o tempo todo, por brigas que hoje entendo que não eram minhas, por problemas no trabalho, eu me culpava por tudo e por isso, acreditava que eu era uma pessoa ruim. Nunca me abri em relação a isso com ninguém, essa é a primeira vez que coloco essa experiência e esses sentimentos em jogo.

Meu avô faleceu em casa, ficou debilitado devido a uma doença pulmonar, e passou muito tempo na cama. Eu estava fora no dia, havia ido até a casa de um amigo e minha mãe me ligou pedindo para que eu voltasse porque ele não estava bem. Quando meu primo foi me buscar, ao entrar no carro, eu sabia o porquê de eu estar indo embora naquela noite, a viagem foi silenciosa, mesmo eu estando com pessoas que eu adorava conversar, mas não haviam palavras naquele momento. Nós chegamos em minha casa, que é do lado da casa de meus avós, junto com o carro que busca os corpos, eu agradeci meu primo, desci do carro e fui em direção a minha mãe. A consolei, respeitei sua dor e fui até a casa ao lado, contra a vontade de minha mãe, mas eu sabia que precisava ir. Andei por toda minha família que chorava, entrei no quarto e me despedi, desejei que estivesse em paz e disse à ele o quanto o amava.

Apesar dessa experiência, essa não é a mensagem que quero passar com esse texto. Pouco tempo antes de falecer, eu estava com meu avô no quarto – eu trabalhava de tarde até a noite, então sempre que saía para o trabalho passava na casa de meus avós para me despedir. Desde sempre, eu adorava papear com eles, sobre absolutamente tudo. Aquela havia sido uma semana e tanto para mim, meu pais se divorciaram e meu pai saiu de casa no sábado, meu maior sonho era ir para os Estados Unidos e meu visto foi negado na terça, meu avô faleceu no sábado seguinte. Essa conversa aconteceu nesse período, eu fui me despedir para ir ao trabalho e meu avô sempre foi muito emotivo, decidiu me abraçar de repente e chorou.

– Você é boa, nunca deixe de ser assim, você é boa – ele disse quando me soltou do abraço e me encarou.

Aquilo para mim foi algo que marcou tudo o que eu sempre fui, que marca o que sou e que marcará o que eu um dia serei. Lhes dou minha palavra que eu jamais contei para ninguém sobre o quão ruim eu achava que eu era e o baque que levei naquela situação foi o suficiente para que não houvessem palavras. Eu apenas concordei e jurei que nunca deixaria de ser como eu era, pois ele me achava uma pessoa boa e, depois daquele dia, eu refleti sobre a possibilidade de ser uma pessoa boa, porque em uma de nossas infinitas conversas ele também me disse que não importava o resto, o que te faz é amor. E isso deu início ao poema Bastien e também a Um Desejo de Domingo.

Perdoem-me a melancolia de sempre, mas escrever sobre essa experiência, agora não mais secreta, me pareceu válido e libertador. Porque por mais que ainda haja muita dor, por mais que depois dessa semana infernal eu tenha criado uma incapacidade de relaxar que trato até hoje, eu sei que dentro de mim também há espaço para a bondade e o amor.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Como sempre, gratidão por ter lido! Não sei se experiências pessoais agradam muito o público da Academia, mas espero do fundo de meu coração que tenham gostado!

Um grande beijo!

:)

Apreciadores (3)
Comentários (2)
Postado 29/10/20 23:01

A profundidade dessa obra abraçou a minha alma e encheu meu coração com a mais pura bondade e amor que já puderam vagar por esse mundo. Perder alguém é tão difícil... Nosso âmago nunca mais retorna ao estado inicial depois de sentir a intensa e massacrante dor de perder alguém que amamos. É o tipo de ferida que somente o tempo cura, mas jamais completamente.

Sua experiência retratada me lembrou de quando minha bisa faleceu. Ela morava em Sergipe e eu em SP. Eu tinha uns 12 anos na época. Mas nas oportunidades que tive de vê-la, ela sempre me dizia que meus olhos eram mergulhados no castanho da bondade e isso foi algo que sempre guardei em meu coração. Ela morreu dormindo, sem dor. Lembro-me que estava dormindo na casa de uma amiga, quando meu pai apareceu dizendo que eu precisava voltar para casa. Nunca vou me esquecer das lágrimas da minha mãe e das lágrimas que nunca caíram dos meus olhos, simplesmente porque não conseguia entender o que aquela dor sufocante significava. Além dessa cicatriz, há as lembranças de ter sido profundamente amada.

Sua experiência foi tão real... Terminei de ler com lágrimas nos olhos. Muito obrigada, de todo o meu coração, por compartilhar conosco seus sentimentos, suas memórias e seu coração (que é sempre sincero). Me senti abraçada por essas palavras, pela minha bisa, por você e por todos que já perderam alguém. Sinto muito por sua perda e fico feliz que você tenha tirado um ensinamento tão belo desse acontecimento doloroso.

Parabéns, Thais, por sempre plantar flores em nossa alma e lágrimas em nossos olhos ♥

Postado 01/11/20 21:40

Ah, Sabrina, muito obrigada!!

Concorto totalmente, perdas são sempre difíceis e nunca somos os mesmos depois delas, o tempo ajuda mas nada consegue ser como antes.

Me encata ver sua ligação com sua avó também, avós são pessoas queridas e incríveis que passam por nossa vida, um amor que supera distâncias e tempos! Sempre nos dizem coisas que marcam o fundo de nossa alma e quando partem deixam um enorme buraco em nosso peito. Felizmente nos ficam as lembranças de dias e momentos bons!

Fico muito feliz por saber que gostou e se emocionou, eu sou quem deve agradecer por todo apoio e carinho de sempre!

Muito obrigada, gratidão por toda doçura e bondade de sempre, Sabrina!

<3

Postado 05/12/20 20:49

Experiências pessoas são algo que eu particularmente gosto e aprecio muito, pois acho tão lindo ver alguém escrevendo sobre momentos importantes e profundos que já viveu...!

Imagino o quanto sua vida devia estar um turbilhão de sentimentos com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo...

Espero que você tenha encontrado paz e conforto em sua alma e em seu coração, pois a senhorita é uma pessoa cheia de luz, e sinto-me extremamente feliz que seu avô tenha podido te dizer isso nesse dia, para que você realmente pudesse acreditar em sua própria bondade!

Agradeço profundamento por ter compartilhado esse texto tão carregado de emoções! Foi lindo!

Um grande e carinhoso abraço <3

Postado 08/12/20 12:33

Eu também adoro experiências pessoais! Transmitem muita emoção!

Foi um período conturbado, deixou várias sequelas mas vamos aos poucos nos recuperando, essa é a vida! Muito obrigada senhorita Mei, não sabe o quanto fico feliz com suas palavras cheias de carinho!

Eu que agradeço por todo seu apoio, carinho e doçura de sempre, senhorita!

Muita gratidão!

<3

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