Acredito que esse será um dos textos mais difíceis que já escrevi, mas é tão necessário que meu amor por essa história é maior do que a dor que sinto quando lembro dela. Minha família sempre foi muito alegre, todos. Sofremos recentemente com a perda de meu avô Sebastião e sete meses depois com a perda de minha avó Dona Cida – ambos já muito citados em Cais dos Lamentos, se você leu, já deve conhecer um pouco dessas incríveis pessoas.
Desde muito pequena eu sempre fui extremamente fechada, por natureza. Demorei muito tempo para entender as diversas coisas "estranhas" que se passavam em minha cabeça e sempre me achei uma pessoa ruim, por ter pensamentos que achava estranhos. Me culpava por tudo, por ter perdido as amizades do colégio, por estar me sentindo triste o tempo todo, por brigas que hoje entendo que não eram minhas, por problemas no trabalho, eu me culpava por tudo e por isso, acreditava que eu era uma pessoa ruim. Nunca me abri em relação a isso com ninguém, essa é a primeira vez que coloco essa experiência e esses sentimentos em jogo.
Meu avô faleceu em casa, ficou debilitado devido a uma doença pulmonar, e passou muito tempo na cama. Eu estava fora no dia, havia ido até a casa de um amigo e minha mãe me ligou pedindo para que eu voltasse porque ele não estava bem. Quando meu primo foi me buscar, ao entrar no carro, eu sabia o porquê de eu estar indo embora naquela noite, a viagem foi silenciosa, mesmo eu estando com pessoas que eu adorava conversar, mas não haviam palavras naquele momento. Nós chegamos em minha casa, que é do lado da casa de meus avós, junto com o carro que busca os corpos, eu agradeci meu primo, desci do carro e fui em direção a minha mãe. A consolei, respeitei sua dor e fui até a casa ao lado, contra a vontade de minha mãe, mas eu sabia que precisava ir. Andei por toda minha família que chorava, entrei no quarto e me despedi, desejei que estivesse em paz e disse à ele o quanto o amava.
Apesar dessa experiência, essa não é a mensagem que quero passar com esse texto. Pouco tempo antes de falecer, eu estava com meu avô no quarto – eu trabalhava de tarde até a noite, então sempre que saía para o trabalho passava na casa de meus avós para me despedir. Desde sempre, eu adorava papear com eles, sobre absolutamente tudo. Aquela havia sido uma semana e tanto para mim, meu pais se divorciaram e meu pai saiu de casa no sábado, meu maior sonho era ir para os Estados Unidos e meu visto foi negado na terça, meu avô faleceu no sábado seguinte. Essa conversa aconteceu nesse período, eu fui me despedir para ir ao trabalho e meu avô sempre foi muito emotivo, decidiu me abraçar de repente e chorou.
– Você é boa, nunca deixe de ser assim, você é boa – ele disse quando me soltou do abraço e me encarou.
Aquilo para mim foi algo que marcou tudo o que eu sempre fui, que marca o que sou e que marcará o que eu um dia serei. Lhes dou minha palavra que eu jamais contei para ninguém sobre o quão ruim eu achava que eu era e o baque que levei naquela situação foi o suficiente para que não houvessem palavras. Eu apenas concordei e jurei que nunca deixaria de ser como eu era, pois ele me achava uma pessoa boa e, depois daquele dia, eu refleti sobre a possibilidade de ser uma pessoa boa, porque em uma de nossas infinitas conversas ele também me disse que não importava o resto, o que te faz é amor. E isso deu início ao poema Bastien e também a Um Desejo de Domingo.
Perdoem-me a melancolia de sempre, mas escrever sobre essa experiência, agora não mais secreta, me pareceu válido e libertador. Porque por mais que ainda haja muita dor, por mais que depois dessa semana infernal eu tenha criado uma incapacidade de relaxar que trato até hoje, eu sei que dentro de mim também há espaço para a bondade e o amor.