Two Of Us
Sorelly
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 17/08/20 21:49
Gênero(s): Drama
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
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Palavras: 651
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

So I will keep you, day and night

Here until the day I die

I'll be living one life for the two of us

I will be the best of me, always keep you next to me

I'll be living one life for the two of us

( Two Of Us – Louis Tomlinson )

Capítulo Único Two Of Us

É estranho como a vida se assemelha a um castelo de cartas: demora-se tempos para se construir, colocando todo seu esforço e dedicação, para em apenas milésimo de segundo ser destruído. Quantas vezes você suportaria reerguer o castelo antes de desistir? Quantas vezes mais serão necessárias para mantê-lo? Por quanto tempo permaneceria imutável?

Para ser sincera, nunca parei para raciocinar esse tipo de coisa. A vida é tão passageira para perder tempo com questões irrelevantes. Mas o que você faria se soubesse que aquela seria a última vez que veria o castelo de pé? Teria prestado mais atenção, se dedicado mais?

Porque a vida é um castelo de cartas que a qualquer momento pode desabar.

E aqui, ante ao seu túmulo, percebo o quão insignificante somos perante o universo.

“Me perdoa não ter vindo antes, vir até aqui torna tudo mais real. Há dias em que fico sentada no sofá esperando você chegar, sabia? Como se viesse para me contar que tudo não passou de uma piada de extremo mau gosto; nos sentaríamos na mesa e conversaríamos sobre quaisquer banalidades enquanto comíamos bolo com café, mas isso não vai mais acontecer, não é mesmo? Eu sinto sua falta, mãe.

Lembra que você sempre disse que seu maior sonho era ver seus filhos formados? Sabia que provavelmente esse ano também vou me formar? Dói tanto saber que você não conseguiu ver a formatura do meu irmão como desejou, e dói mais ainda saber que esse ano eu me formo e você não vai estar lá como sempre sonhei. É tão difícil fazer planos para o futuro sabendo que não vou te ter ao meu lado. Dois anos se passaram, e eu ainda não consigo aceitar tão bem o que aconteceu.

Todo dia eu me pergunto se você estaria feliz por mim. Sentiria orgulho pela pessoa que estou me tornando? Eu estou fazendo os planos certos? São tantas perguntas, o que você responderia se estivesse aqui? Você sempre foi - e continua sendo - a minha âncora. Espero não ter te decepcionado nesses últimos meses.

Dizem que a dor da perda muda as pessoas de maneiras diferentes. Eu sinto falta de como eu me sentia antes, de como conseguia demonstrar afeto; mesmo sorrindo e rindo o dia todo para os outros eu não tenho vontade, é como se tudo ficasse automático, sabe? Para demonstrar que está tudo bem, que eu estou bem. Mas não estou.

Mas eu só queria te contar que esse ano vou me mudar. A vida continua, não é? Demorei para entender isso. Vou te levar para sempre em meus pensamentos e te manter sempre comigo, independente dos dias que se passem ou dos anos que virão. Você sempre será eterna em meu coração.

Por mim, mas principalmente por você, juro ser forte e te deixar orgulhosa.

Juro viver uma vida por nós duas.”

Após me calar, coloquei o buquê de flores em frente à sua lápide, e apesar de toda a emoção eu estava com um sorriso no rosto, o coração apertado, mas a mente em paz. Porém ao me virar para ir embora, acabei me deparando com um menino

– Ei, moça, ‘tá tudo bem? Quer um abraço? Mamãe sempre disse que os abraços curam, óh! – disse o pequeno já de braços abertos. Não resisti e acabei me ajoelhando para ficar a sua altura e abraçá-lo de volta.

– Sua mãe tem razão, pequeno, abraços curam. Mas se quer um conselho, cuida bem dela, do seu pai, dos seus avós e de quem cuida de você. Priorize os momentos que têm ao lado deles; guarda o celular, o notebook ou o tablet, se permita viver, sentir e registrar na mente cada momento. Sorria, brinque e abrace mais. Diga “eu te amo” mesmo ouvindo alguns resmungos ou não tendo resposta. O presente é uma dádiva, e nós nunca saberemos o quanto irá durar e o que irá acontecer quando acordarmos no dia seguinte.

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Postado 18/08/20 20:14

A vida é mais rápida que um suspiro e um piscar de olhos, mas a gente sempre acha que os anos tornam essa ideia insignificante. Somente quando perdemos alguém, entendemos a finitude que se encontram nesses anos que sempre consideramos eternos. É na perda que entendemos o quanto a vida é passageira.

Eu não consegui ler o texto sem descartar o contexo e acho que é por isso que não consigo parar de chorar enquanto escrevo esse comentário. Não deve ser fácil estar na pele dessa narradora e deve ser impossível ser o mesmo depois de uma situação como essa. E tudo bem. A vida pode nos obrigar a muitas coisas, mas jamais pode nos forçar a continuarmos sendo os mesmos. Como podemos existir como antes, depois que alguém amado parte e nos parte? Não tem como.

O texto é, sem sombra de dúvidas, a expressão mais exata do que é estar em mil pedaços e ter a certeza de nunca mais voltar ao estado de completude anterior. A leitura é como visualizar a dor tão exposta e a saudade tão imensa dessa narradora. Todas as palavras alcançam o leitor com a força de uma enorme onda, pois elas são o mais alto lirismo que somente na alma poderemos encontrar. Ao mesmo tempo que tem-se uma narrativa bela e uma importante mensagem, o trágico por trás dessas linhas é devastador.

Existem textos que nos mudam e tocam, mas os seus sempre conseguem fazer os dois. É impossível lê-los e continuar sendo o mesmo.

Obrigada por compartilhar conosco essa obra tão profunda, bela e sincera. Essas linhas me destruíram e não sei se um dia eu vou conseguir lê-las sem chorar.

Parabéns, mil vezes, Pãozinho ♥

Postado 31/08/20 15:58

Mocinha Pam, eu fico tão completamente sem palavras... O comentário da Brina já disse tudo que precisava ser dito, com a perfeição e ternura que só ela conseguiria transmitir.

Eu saí dessa leitura completamente devastada... A vida é muito triste, muito injusta em fazer o castelo de cartas desabar assim, para nunca mais voltar a ser construído.

A dor da perda é algo que nunca conseguimos superar. E está tudo bem nisso. Mas também, como você mesma disse, é preciso tentar continuar caminhando. Isso não é superar, mas é necessário seguir em frente. E de modo nenhum "seguir em frente" significa "esquecer" ou "deixar para trás" a pessoa que se foi, pois a pessoa sempre irá viver em nosso coração independente de quanto tempo passe.

A nossa alma fica em mil pedaços, e com o tempo precisamos ir juntando eles, mesmo sabendo que nunca seremos os mesmos de antes, mas tudo bem, pois a força e a coragem que são necessárias para juntar os pedaços é o que importa, e é o que faz a pessoa que se foi sentir muito orgulho de nós!

A sua escrita, querida Pam, é a mais linda do universo, a mais doce, a mais emocionante! Você fez com que minhas lágrimas viessem com força e com dor. Você é uma pessoa maravilhosa, um ser humano lindo por dentro e por fora! Você tem mil motivos lindos para dar um orgulho imenso, nunca se esqueça disso!

Um grande abraço, Pam, com muito amor e carinho <3

Postado 04/09/20 20:34

E lá se vai a 6 de Janeiro, chorando no horário de trabalho por ler este texto perfeito! Ah Pam... Que doído, mas que conto excepcional! Eu nunca pensei que ia ter essa reviravolta no final, quando eu percebi do que o narrador falava afinal... Gelei inteira, não sei lidar com a morte, nem quando é na ficção. A vida é um piscar de olhos, um sopro... E a gente nunca vai aprender a lidar.

Obrigada de verdade por postar seu texto para o desafio, muito inspirador!