É estranho como a vida se assemelha a um castelo de cartas: demora-se tempos para se construir, colocando todo seu esforço e dedicação, para em apenas milésimo de segundo ser destruído. Quantas vezes você suportaria reerguer o castelo antes de desistir? Quantas vezes mais serão necessárias para mantê-lo? Por quanto tempo permaneceria imutável?
Para ser sincera, nunca parei para raciocinar esse tipo de coisa. A vida é tão passageira para perder tempo com questões irrelevantes. Mas o que você faria se soubesse que aquela seria a última vez que veria o castelo de pé? Teria prestado mais atenção, se dedicado mais?
Porque a vida é um castelo de cartas que a qualquer momento pode desabar.
E aqui, ante ao seu túmulo, percebo o quão insignificante somos perante o universo.
“Me perdoa não ter vindo antes, vir até aqui torna tudo mais real. Há dias em que fico sentada no sofá esperando você chegar, sabia? Como se viesse para me contar que tudo não passou de uma piada de extremo mau gosto; nos sentaríamos na mesa e conversaríamos sobre quaisquer banalidades enquanto comíamos bolo com café, mas isso não vai mais acontecer, não é mesmo? Eu sinto sua falta, mãe.
Lembra que você sempre disse que seu maior sonho era ver seus filhos formados? Sabia que provavelmente esse ano também vou me formar? Dói tanto saber que você não conseguiu ver a formatura do meu irmão como desejou, e dói mais ainda saber que esse ano eu me formo e você não vai estar lá como sempre sonhei. É tão difícil fazer planos para o futuro sabendo que não vou te ter ao meu lado. Dois anos se passaram, e eu ainda não consigo aceitar tão bem o que aconteceu.
Todo dia eu me pergunto se você estaria feliz por mim. Sentiria orgulho pela pessoa que estou me tornando? Eu estou fazendo os planos certos? São tantas perguntas, o que você responderia se estivesse aqui? Você sempre foi - e continua sendo - a minha âncora. Espero não ter te decepcionado nesses últimos meses.
Dizem que a dor da perda muda as pessoas de maneiras diferentes. Eu sinto falta de como eu me sentia antes, de como conseguia demonstrar afeto; mesmo sorrindo e rindo o dia todo para os outros eu não tenho vontade, é como se tudo ficasse automático, sabe? Para demonstrar que está tudo bem, que eu estou bem. Mas não estou.
Mas eu só queria te contar que esse ano vou me mudar. A vida continua, não é? Demorei para entender isso. Vou te levar para sempre em meus pensamentos e te manter sempre comigo, independente dos dias que se passem ou dos anos que virão. Você sempre será eterna em meu coração.
Por mim, mas principalmente por você, juro ser forte e te deixar orgulhosa.
Juro viver uma vida por nós duas.”
Após me calar, coloquei o buquê de flores em frente à sua lápide, e apesar de toda a emoção eu estava com um sorriso no rosto, o coração apertado, mas a mente em paz. Porém ao me virar para ir embora, acabei me deparando com um menino
– Ei, moça, ‘tá tudo bem? Quer um abraço? Mamãe sempre disse que os abraços curam, óh! – disse o pequeno já de braços abertos. Não resisti e acabei me ajoelhando para ficar a sua altura e abraçá-lo de volta.
– Sua mãe tem razão, pequeno, abraços curam. Mas se quer um conselho, cuida bem dela, do seu pai, dos seus avós e de quem cuida de você. Priorize os momentos que têm ao lado deles; guarda o celular, o notebook ou o tablet, se permita viver, sentir e registrar na mente cada momento. Sorria, brinque e abrace mais. Diga “eu te amo” mesmo ouvindo alguns resmungos ou não tendo resposta. O presente é uma dádiva, e nós nunca saberemos o quanto irá durar e o que irá acontecer quando acordarmos no dia seguinte.