A chuva está caindo suavemente pela janela, Leo. Oh, não, ela começou a engrossar. Eu quero fechar a janela para impedir que elas molhem o carpete, as pinturas suas repousadas na parede.
Estou debilitada, com a garganta fechada, os dedos dele me prendem na cama macia pelo pescoço. Ele sente desejo, ele sente inveja, mas eu sou só sua, Leo, só sua.
Ele me enforca, eu não me debato. Ele bate em meu rosto, aperta minha cintura, e eu não reajo. A chuva está mais forte, ela alcança o cabelo dele. O cabelo dele é tão sujo, Leo, seus cabelos ruivos são tão mais bonitos.
Ele range os dentes, descontente com minha falta de ação. Estou morrendo, Leo, morrendo por você.
Ele solta meu pescoço, e eu continuo sem respirar. Ele nota. Ele me força a respirar. Ele quer começar tudo de novo, ele me quer viva, Leo, ele me quer viva!
Ele nunca se importou, mas deseja que eu viva. O que ele ainda quer comigo? Ele que me machucou, me corrompeu, arrancou minha violeta ingênua com golpes arrebatadores. Por que ele sempre vem quando estou frágil? Ele nunca se importou comigo, e agora está desesperado para me salvar.
Eu não respiro. Você está na janela.
Minha Leo está na janela, com seus cabelos ruivos parecendo uma juba e a face deformada de ódio. Está com ódio de mim? Eu te amo. Ele não quer que eu me junte a você, ou então ele queria e não quer mais.
Eu respiro. Ele suspira. Alívio.
Eu quero parar, mas ele me beija, sua respiração celular me mantém acordada, ainda fraca.
Eu choro, eu me engasgo, eu finalmente me movo e me esperneio e bato nele e o amaldiçoo e ele fica lá, abraçado a mim, com os olhos marejados e se desculpando.
Eu quero te ver mais uma vez. Eu não quero ficar com ele.
Ele me levou para um hospital, para um quarto branco com borboletas que me encaram medonhas e nada se parecem com as suas borboletas.
Eu te amo tanto, Leo, eu quero estar com você para sempre. Contudo, é sempre ele quem me visita. Traz-me flores, cartões, balões, sorrisos e pedidos de desculpa.
Após anos eu saí de lá. Do quarto branco. Eu te procurei, e ele me contou a verdade.
Eu não acreditei.
Porque eu te amo.
E você nunca existiu.
(Então eu não existirei.)