caminho
Vírgula Xamã
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 15/02/20 23:38
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
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Palavras: 743
Livre para todos os públicos
Capítulo Único caminho

Suas botas eram grossas, não muito desgastadas, com nenhum estilo em particular, ele achara em um amontoado de pedações de madeira, que poderiam ter sido um armário no passado, em seu caminho.

Eram grandes e resistentes, próprias para viagens, trilhas. Suja, arranhada e rasgada, tanto da terra como das pedras por onde tinha caminhado.

Roupas também grossas, com ideogramas e margens de um vermelho velho, em um tecido marrom.

Seus olhos castanho-claros, cheios de orelhas, e leves queimaduras em seu entorno do clima fervente, olhavam determinados para o horizonte, seu cetro fincava firme na areia demonstrando a força de sua caminhada.

Apenas um pouco de seu cabelo saia da parte das veste que cobria sua cabeça, como um capuz, que cobria a boca, a testa e até as orelhas, diferenciava das túnicas, roupas usadas pela sociedade antiga apenas no formato, que era mais geométrico, quadrado, ainda com as margens e ideogramas vermelhos decorando o fundo marrom.

Era um andarilho, por baixo de suas vestes, seu corpo era forte, preparado para longas caminhadas, à tiracolo, uma bolsa e apetrechos úteis para viagem, um cinto com mais algumas ferramentas e um bom senso de direção.

Areia, terrenos acidentados com formações rochosas desgastadas, lama, mais deserto, ruínas, as paisagens passavam por seus olhos, mas eles continuavam fixos em sua frente.

Um mundo arrasado e sofrido, os ventos ensurdecedores que lambiam a terra de período em período quase tentavam abafar qualquer vestígio antigo, clima forte por vezes, e, por vezes, desolado, mas sempre seco.

Durante a noite, ruínas subterrâneas, ou uma capa de presença e camuflagem eram a única escapatório para os uivos e selva do ecossistema colossal noturno

Dores, descanso, sol como companhia, noite como amiga, caminhando e caminhando, sem pensar, ou planejando.

A árvore era a busca, a grande árvore que salvara uma vez um rio que sobrara ao sul.

Ninguém deu importância à uma árvore diferente, estudada e cuidada por biólogos manifestantes, e isso incluía ele.

Ele mudara, é claro, e hoje era isso que buscava.

O tempo passou, assim como seus passos assinavam seu nome no mundo de areia;

a miragem, era por vezes, quase indistinguível da realidade, mesmo treinado e ciente, por isso, a árvore parecia um milagre que já vira, inclusive, várias vezes em regiões que o deserto tinha climas mais intensos, um sonho. Exatamente por isso, ao encontra-la, foi necessário um tempo de análise, mas a lágrima comprovou.

O choro, é claro, não pôde ser visto pelo pano que lhe cobria a face.

Ele ficou parado, observando, como se os dias fossem anos, e os anos fossem dias.

Nada naquele mundo era mais bonito do que ela; Tinha poucas folhas, era grande e retorcida, havia um pouco de mato ao redor, e menos presente quanto mais distante dela se ia, até sumir em uma areia com uma cor mais viva, quase molhada, transformando-se, aos poucos, na areia de onde viera.

Como ela permanecera esse tempo todo? Quase acreditara nas lendas, mas sabia também que havia muito esforço envolvido, em algo natural, mas, ao mesmo tempo, muito estudado e objeto de lutas titânicas, algo majestoso, como a esperança, como o amor.

Uma pequena parte da raiz se destacava, torta, solitária, e a árvore, por mais incrível que fosse, tinha uma inclinação relativa, resultado do tempo impetuoso, incansável.

Terminada sua contemplação, ele caminhou com passos lentos e cuidadosos, em respeito a majestade, tocou-a com o coração e com a mão, e sentiu a história e o momento.

A seringa com adornos, brincos e faixas saiu de sua mochila e ele injetou na árvore, sentou-se e cantou uma pequena cantiga de sua roda de amigos, que lembrava de sua infância.

O som ressoou por uma distância muito curta, mas com grande força, seus olhos olhavam para ela como se escutasse, paciente, suas histórias e, como duas almas em ressonância, tempo era relativo.

Mesmo com a longa jornada, seus olhos estavam sempre para a frente, mesmo quando estavam tristes, estavam para a frente, mesmo quando estavam para trás, estavam para frente, ele caminhara muito, mas naquele lugar, ele sentou, o vento fez um sussurro delicado, e como, em uma sinfonia, o refrão levantou o sentimento, mesmo com o barulho da terra se revolvendo, era como uma canção, aquilo não era uma simples flor brotando, era o sentimento nascendo:

A flor olhou-o, curiosa, como alguém que não sabe de nada, mas que quer saber. Assim, então, nasceu a segunda, e mais linda, planta daquele deserto.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigado.

Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 16/10/20 01:02

CARACAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! ESSE FINAL EXPLODIU MINHA MENTE! Adorei a maneira que você desenvolveu a temática de forma poética e a criatividade que emerge da narrativa.

Obrigada por compartilhar conosco!

​Meus parabéns ♥

Postado 07/02/21 21:55

Que texto mais lindo!! Essa história foi tocante demais!!

Gostei muito do modo como a caminhada em busca da árvore foi retratada, mostrou tanto sentimento! O que foi confirmado com esse sublime final do nascimento da flor!!

Muito lindo!! Parabéns!!

Um grande abraço!! <3