ei... ei, está me ouvindo?
boa noite, janeirinho
impetulante e explosiva, você vive agora seis primaveras, mas sabe...
as coisas mudam. como a vida adulta é previsível... mas nunca havíamos nos dado conta de que estas coisas aconteceriam mesmo...
há anos atrás, eu grudava meus sonhos nos rostos de meus amigos de fim de semana, e hoje, há outros novos rostos colados nos sonhos deles.
não estamos lá. ficamos poucas horas na rua esperando a emoção, mas ela não vem, e estamos cansados, não é amor? eu sei... inferno, eu sei que é sábado, mas na segunda eu trabalho.
olhamos para os lugares vazios ao nosso lado, os rostos gentis não sentam mais ali, infelizmente a vida adulta nos mostrou que sim, amigos te traem por dinheiro. eles te traem - esta é a verdade que eu menos gostaria acreditar - na vida adulta, não há estrela na testa, não há leite quentinho antes de dormir, na vida adulta você não precisa controlar os nervos para estourar a cabeça de alguém, pois você sabe que não vale a pena, e sua família te espera em casa e felizmente, eles não fazem ideia do quanto você se sentiu traído por aqueles amigos e como tudo parece nu e sem gosto agora...
eu ouço exatamente os mesmos álbuns desde os meus quatorze. não consigo gostar de nada novo. eu já sabia que eu era assim meio empacada...
(a gente sempre soube, né?)
é curioso e triste lidar com as mudanças, são músicas que perdem a vida, e a vida que perde o som.
para os que tem sorte é estudo noite e dia, outros trabalham até chegar ao ponto de chorar no banheiro da empresa, seis reais por hora, aquela calça nova da promoção custou umas dez horas de trabalho.
(você vai comprar todas as suas roupas em brechós)
de repente, você está em filas de banco, e é refém das horas e não tem mais tempo para ver o céu, para ter um hobbie, para se masturbar por tédio ou para andar por aí livremente como se o dia não fosse obrigado a ter um fim.
e a vida adulta machuca, eu me lembro dos nossos sonhos - ser a menina mais jovem dessa cidade a publicar um livro, ser cantora, salvar o mundo, ser motivo de orgulho - para onde foram?
umas três ou quatro meninas mais ricas já publicaram bem antes que eu. elas fizeram bullying com a nossa irmã na escola, e batemos em uma delas, e hoje ela é linda, conhecida e está assentada aonde era antes meu lugar. agora é ela e a galera. antes era eu e os meninos.
meninas de treze anos se sentam na janela compartilhando meias furadas, fumando cigarros emprestados, fingindo estarem tão entediadas em suas maquiagens glamourizadas...
quero vomitar. elas sabem que aquele cara tem uns 30 anos? ano passado ele batia no peito, se dizia ser nazista e agora ele fuma um com a criançada cantando "Imagine". embaraçoso.
tem outros pontos:
a vida adulta te proíbe a participar da humanidade.
não temos mais direito de ficar doentes, surtar ou morrer, pois aqueles contratos do trabalho precisam ser fechados e você é o único que sabe como lidar com aquele cliente e se você faltar, alguém sem suspeitas, irá ligar pra ele e acabar com os planos de uma semana inteira de dor de cabeça que você teve para convencer - por Deus - aquele velho maldito do outro lado do telefone.
eu estou deitada ao lado de um sono eterno. acordo de manhã desejando que a noite chegue logo para que eu possa apreciar melhor a maciez de minhas fronhas de novo e de novo e de novo.
estou na altura da vida que não me acho mais feia, nem mais bonita, nem me descuido, nem me maltrato. apenas convivo comigo como se eu fosse uma rachadura na parede - não incomoda e também não fica bem.
não olho mais meu corpo, não tomo banho todos os dias, não penteio meus cabelos, tiro uma foto ou outra e tem uns vinte elogios, eu ignoro todos, pois não significa mais nada.
nada significou tanta coisa como agora...
estou apenas sem palavras.
sem perspectivas.
me tornei o que a gente mais temia: marionete do sistema.
não, não.
eu não deveria me preocupar.
mas você, meu amor, meu passarinho, também está sofrendo com a vida adulta, você é homem. é de um tipo de criação a base de vídeo-game e ritalina, grite um pouco mais alto com sua mãe que com certeza você vai conseguir aquele doce, mas amor, a vida real não é assim.
mas eu estou tão cheia de problemas, que não tenho paciência para te explicar algumas obviedades e eu grito, e te bato e fico magoada. e eu choro, por que eu te amo, e não sei se estou sendo capaz de te amar como antes eu amava.
é que, bem, você sabe que eu não quero ter filhos. não quero ser responsável por um sofrendo a mais neste mundo. Deus me livre alguém depressivo e sem brilho como eu.
a vida adulta é meio terrível...
ahhh... janeirinho de 6 anos... provavelmente você iria querer ser eu. me desculpe, acho que não consegui nos guiar para um melhor caminho, você sempre soube que se tornaria alguém muito parecida com isto aqui. não conseguimos escapar, você foi uma criança fútil e eu, uma adulta arrependida demais.
sinto muito janeirinho,
mas a única coisa que janeiro me lembra agora, é que este é o nome do mês aonde tudo inclina a recomeçar.
se tivermos sorte,
nós.