O teatro da Casa da Infância ficava ao lado do saguão da portaria, duas portas gigantes de madeira se abriam, um enorme auditório com piso de ladrilhos marrons, centenas de cadeiras de Marfinites verdes e janelas altas, metade da iluminação vinha da quadra e a outra metade vinha da avenida Nazareth, no fim da enorme sala, num plano mais alto, vinha o palco.
De vez em quando as cortinas de feltro eram fechadas, a gigante cortina do palco virava tela de cinema e se projetava aqueles desenhos de massinha da Nova Zelândia, com as cortinas abertas se assistiam as peças ou shows.
O piso do palco, como é comum em todos os lugares, era de sinteco e a madeira se expande, conforme a temperatura do ambiente, isso causa um barulho peculiar.
O menino que ficava na portaria, por medo, nem chegava perto da escada que levava ao andar superior, os grilos faziam barulhos no jardim, de dentro do salão vinha um estalar de madeira, sorte mesmo era sempre estar acompanhado, enquanto a madre Maria lia as suas revista, a gente podia ficar de bobeira no sofá.
Legal mesmo era atender ao telefone, aliás, eu, que sou incapaz de guardar uma centena na cabeça, nunca me esqueci desta milhar...273 2015.
Atender ao telefone era, terminantemente, proibido às crianças, antes de ganhar a rua, a madre Maria recomendou:
_Por nada nesse mundo, atenda ao telefone.
_Sim senhora irmã.
Sem nenhum adulto por perto, escutei os grilos lá fora, corri para dentro do balcão e me sentei na cadeira, passos do lado de fora, o galho do oiti do jardim cismou de bater na porta vidrada, o estalar de dentro do salão repercutia no vácuo e aumentava, som de pancada de madeira.
Empurrei a cadeira para a parede e tudo de novo, todos os barulhos sincronizados, não havia para onde correr, pensei em gritar, quebrar a sequência de pânico, tomei fôlego e, o telefone tocou nesse instante.
_Casa da Infância do Menino Jesus, em que posso ajudar???
_Moleque, eu não acabei de dizer para não atender ao telefone???