Febre
Kieran Savage
Tipo: Lírico
Postado: 14/08/19 10:17
Editado: 14/08/19 10:20
Gênero(s): Poema
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
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Palavras: 358
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Febre

Sequela quântica de desvario mui grave.

Arrebentei a porta, e no entanto

retinha a chave, entalada na garganta.

Asco.

Sujeira ratazânica na podridão de aço da metrópole.

Ferruginosa conspurcação metálica de ecos.

Espirro retumbante nos trapos de roupagens baratas.

Pratos a lavar; cantinhos a serem varridos; poeira,

gavetas fodidamente bagunçadas; escombros

de cidadelas empestadas pela guerra; cabelos

ruivos de donzela satânica tomada pelo fervor

da prece fendida entre abismos de especulações

plainando na superfície dos signos postos em marcha

pela embriaguez psicomotora do transe sisudo

locomotivamente com rumo ao fundo do fogo primeiro

nas entranhas do altar-mor da fundição de matéria bruta

da separação do sutil nas reticências oníricas dos cortes

das cores alavancadas em meio ao progresso fúnebre

dos encanamentos que roncam nos círculos de Dante

com incontáveis vermezinhos ruminando a carne pregressa

no auge da receptação do óbulo

imbuído do ônus musical

para levar melodias medonhas aos ouvidos incautos --- e já sem ar para ler linhas que se seguem a linhas --- ininterruptamente --- fatos criminais, manchetes de jornais, memes banais, rostos crispados pela miséria constante, a crucificação cotidiana dos pobres salvos temporariamente na ideia da salvação eterna, talvez salvos enfim eternamente?

Eternidade!

A que isto nos leva?...

Cachoeira de gozo jorrando metafisicamente da mais louca vulva.

Retenho para mim as lágrimas secas do sertão.

Das casinhas de pau-a-pique e dos jegues e do breu,

a lembrança da simplicidade de pensamento que arreia

o cavalo volitivo em direção ao cumprimento de atividades

perfunctórias.

Mas ai! terei ainda de agir?

O chicote da necessidade continuará molestando meu corpo?

Todas essas exigências, discussões, enfrentamentos!

Como isso me pesa!

Como me pesa o agir! O olhar, o ver, o comer...

Como me pesa o nome, o gesto, o registro!

Esses mil olhos em rede; essas feras tramando,

como eu, mil planos na cabeça febril de delírio!

Quem irá deter a roda?

Mas como?

Nem sequer a roda!

O giro preexiste à palavra...

A palavra é uma hipótese na qual pusemos fé.

O giro nem sequer se importa.

O giro?

Agito de forças em que se passa da vida à morte

e da morte à vida

perpetuamente no claustro do real invencível...

❖❖❖
Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 17/10/22 21:25

Poema sensacional! O lirismo que transborda dos versos é palpável e os mesmos são construído de um modo muito inteligente. As reflexões trazidas pelo eu poético são intensas.

Obrigada por compartilhar conosco!

Parabéns