“Cidades pequenas são lugares legais e quietos pra se viver”
No ultimo inverno um caminhoneiro caiu em uma vala e encalhou na rodovia, meu pai o convida para tomar café e ele usa o nosso telefone.
Na primavera seguinte a comunhão da minha igreja faz um evento para doar alimentos.
“Pessoas de cidades pequenas vão ajudar qualquer um!”
Você só precisa ser homem, branco e hétero!
A quietude das cidades pequenas não soam tão reconfortes quando eu preciso gritar por diretos iguais e humanos de básica dignidade...
Mas eles estão apenas sendo “bons cristões”. Eles odeiam todas as pessoas certas.
Então eu ando pelos meios da minha cidade pequena e eu percebo pessoas me olhando.
E não é só um pouco.
Eles encaram como:
Minhas roupas estivessem em chamas...
Eu estivesse dando a luz no corredor 7...
Um gatinho decapitado está pendurado no meu pescoço...
Ou seja, essas encaradas não são amigáveis.
Eles encaram como:
“Sapatão filha-da-puta, que queime!”
“Ponha mais gasolina!”
“Você vai pro inferno de qualquer jeito, então se acostume com as chamas!”
Eles me encaram.
Eu minto pra mim mesma dizendo que eles me encaram por inveja do quão fodidamente linda eu sou. Ou talvez eu tenha algo em meus dentes, esses olhares são completamente justificáveis, está tudo bem...
Está tudo bem!
Cidades pequenas são lugares “legais” e “quietos” para se viver.
Pessoas nem vão te dizer se tiverem um problema com você.
Eles vão apenas punir seus parentes.
Minha mãe teve de parar de dar aulas por que a maioria dos pais tinham medo de por seus filhos na sua turma de 2° série. Ela agora é uma pastora e um dia eu usei uma gravata para ir a missa, ela recebeu mais questões sobre a minha vida sexual que sobre o sermão.
Meu pai é um psicólogo, mas alguém que nem conseguiu “criar sua filha certo”, como pode ser confiado com os filhos dos outros?
Quando os outros me veem, é logo rotulado que eu não sou hetero...
Eles veem o corte de cabelo duvidoso, o chapéu, as tatuagens, uma gravata e o alarme Queer deles vai...
TRIIII-DRIIIIIIM-TIN-DIN-TIN-DIN-TIN-DIN-TIN-DIN .
(EU CLARAMENTE VENERO O CAPETA)
Eu vou a farmácia roubar seus bebês, não comprar um benegripe. Não sabe que pessoas Queer não adoecem? Nós prosperamos e nos desenvolvemos por pesadelos nos alimentando de seus casamentos falidos.
Cidades pequenas são lugares legais e quietos para se viver, bons lugares para formar famílias.
Eu quero que meus pais conheçam minha parceira, minha namorada, mas eu não o farei aqui. Eu prefiro que a mulher que eu amo e meus parentes sejam estranhos no dia do meu casamento á submeter ela a isso.
Essa cidade que supostamente devia ser meu lar e mais parece tortura.
Essa cidade ME QUERIA “legal” e “quieta”.
Me queria sentada e calada. Que assimilasse. Que torcesse apenas para o time que sabíamos que iria vencer de qualquer jeito. Que aceitar apenas os que “se encaixassem”. Que achasse conforto na igreja e em cada idêntica flor.
Mas eu não era ensinada a amar tudo igualmente.
Eu era ensinada para odiar tudo que era diferente.
Eu não percebi, até ser tarde demais, que eu estava sendo ensinada a odiar a mim mesma.