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Mais uma música havia acabado. Já se viam os casais se separando e se espalhando, prontos para dançarem com novos pares. Se fosse possível abrir o teto do salão e observar a visão de cima, seria cômico: tantas pessoas reunidas que aquilo mais se assemelhava a um formigueiro, cheio de formigas bem-vestidas.
Jane estava encostada em um pilar de mármore, parecendo entediada. E não era para menos, ninguém a tirara para dançar. Sua irmã, Ivy, estava ao longe, girando nos braços de um rapaz bonito e agradável. Como sempre, Ivy atraía mais olhares e bons olhos...
— Ainda são sete da noite, e este inferno está longe de acabar — murmurou Jane, baixinho. — Se ao menos Tom estivesse aqui, seria menos penoso.
Foi só murmurar aquilo que, no meio da multidão, ela o viu.
O cavalheiro vestia o mesmo colete e casaco azul. O cabelo, um tanto bagunçado, destoava da elegância da roupa. O sorriso doce, no entanto, permanecia. Bastou vê-lo para que um sorriso se formasse também nos lábios de Jane.
Era ele. Seu querido.
Mas, de repente, mesmo à distância, ele a fitou. Não mais sorridente, mas com uma expressão angustiada, triste. Com os olhos, indicou o lado de fora, o jardim. Ele queria falar com ela a sós. Mas para quê?
Jane saiu discretamente do salão. A noite estava agradável, com uma brisa morna. Ao vê-la, Tom recuou ainda mais para longe da festa. Ela o seguiu até que ele parou, encostando-se ao tronco de um grande carvalho.
— Não tive coragem de relatar nem de escrever-lhe por carta — disse Tom, umedecendo os lábios.
— O quê? — Jane se aproximou, e isso fez com que ele se afastasse ainda mais, pressionando as costas contra a casca áspera da árvore. — O que há?
— Sinceramente, não sei por que estão comemorando lá dentro — murmurou ele, olhando para o salão iluminado. — Acho que estão se despedindo dos luxos...
— Do que está falando?
— A guerra começou. Todos os rapazes terão que ir para o front daqui a cinco dias, para servir às colônias — suspirou. — Talvez consigamos a liberdade e, desta vez, nos separaremos da Inglaterra.
Foi como se uma bigorna de ferro caísse sobre a alma de Jane. Tom teria de partir? E, se partisse, será que voltaria?
Ela ficou estática por alguns segundos, engoliu o soluço que ameaçava subir à garganta e forçou a vista para que as lágrimas não caíssem.
— Jane... — Agora, era ele quem se aproximava. — Eu queria despedir-me já, não queria que fosse de última hora. — Suspirou pesadamente. — Mesmo que ainda falte tempo, queria que fosse agora.
— Eu não queria que fosse... — Ela falou num tom mais baixo do que o normal. — Mas sei que tem que ir. E talvez... nunca mais volte.
— Por isso, se eu não voltar, quero lhe dizer já o que nunca disse: eu a amo. Ardentemente.
Mais uma pancada atingiu a alma de Jane. Como viveria agora, sabendo que o rapaz por quem nutria afeto desde os catorze anos, seu melhor amigo sentia o mesmo por ela, mas teria que partir?
— Eu... sinto o mesmo — Jane tentou soar sensata, dizer pouco, não olhar muito para ele. — Sinto o mesmo...
Tom se aproximou ainda mais. Agora estavam a um palmo de distância. A única luz que os iluminava era a que vinha do salão, alguns metros adiante.
Ele pousou a palma da mão sobre a tez branca de Jane. Tão macia, tão delicada... Ela fechou os olhos, reagindo ao toque. Tom aproveitou a deixa, inclinou-se e pousou um beijo leve nos lábios dela. Logo, afastou-se.
— Querida, mesmo que eu não retorne, quero que sempre me carregue em seu coração — sussurrou ele.
— Já o carrego...
Tom encostou a testa na dela e, então, inclinou-se para beijá-la novamente. Agora, com mais intensidade.
Parte de si rezava para que ninguém os visse—etiqueta proibia esse tipo de contato antes do noivado. Mas outra parte queria que toda a sociedade das Treze Colônias se explodisse. Assim como o Reino Unido.
Ela retribuiu o gesto. O beijo era doce, delicado, como se um pedaço de sua alma passasse para a dele. E, ao findá-lo, com um mínimo estalo, Jane sussurrou que o amava. Tanto quanto fosse possível amar qualquer ser.
— Antes de partir, roubei parte de você e de sua alma. Não precisará fazer o mesmo, pois tudo o que sou já pertence a você. E só tomarei sua alma por completo quando retornar. Aí, seremos um do outro.
Ele terminou de dizer aquilo e, então, afastou-se por completo. Não voltaria para o baile. Apenas seguiu até onde seu alazão acastanhado estava amarrado, desamarrou-o e montou. Com um último olhar, partiu, tomando a pequena estrada de volta.
Jane ficou ali, imóvel, diante do carvalho, por longos minutos. Não queria retornar ao baile. Apenas sentou-se na grama úmida e ficou ali até que a festa chegasse ao fim. Quando sua condução chegou, partiu com a irmã para casa.
Anos depois — 9 de dezembro de 1787
Era manhã quando Jane, já mais velha, selou seu cavalo, Apolo, e foi até aquele salão. Parou diante da mesma árvore de carvalho e olhou para a estrada ao longe. Mesmo com o passar dos anos, ela nunca mudara.
Ela ainda esperava. Esperava por Tom. Esperava o dia em que ele tomaria sua alma e os dois seriam um do outro.
Mas, no fundo, sabia que ele nunca voltaria.
Ainda assim, até o fim de sua vida, olharia para a árvore forte e para a velha estrada, lembrando-se do único homem que amou.
E, de fato, até seu último dia, nunca esqueceu o que ele lhe dissera naquela noite morna:
"Antes de partir, roubei parte de você e de sua alma. Não precisará fazer o mesmo, pois tudo o que sou já pertence a você. E só tomarei sua alma por completo quando retornar. Aí, seremos um do outro."