Zabé, o anjo negro
Nilton Victorino Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 15/07/19 19:54
Editado: 15/07/19 19:56
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 3
Comentários: 4
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Palavras: 654
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Zabé, o anjo negro

Como todas as crianças que cresceram no Educandário Dom Duarte, vivi sob as regras duras do cristianismo e o irmão Augusto falava da tal alma branca...só que eu cresci e das pessoas que conheci, as que tinham um ar que se aproximava de uma santidade foram poucas, a maioria delas, não tinham a pele alva.

O Carlos Alberto não gosta de ser chamado de Zabé, havia sido interno da Casa de Infância, interno do Educandário Dom Duarte e agora era funcionário da marcenaria.

Acostumei ver o Carlos Alberto no seu caminho diário de pegar água na bica ou a esperar em frente do aprendizado, sereno e sorridente, sempre a cumprimentar a todos, sem qualquer discriminação.

Sempre vi o neguinho como um lago de águas tranquilas, como quem vive num plano superior, onde os seres não se matam entre si, só sorriem, como se o simples fato de sorriem, fosse o bastante pra iluminar e contaminar os outros viventes.

Nunca soube que o Zabé tenha se alterado ou dito uma palavra que ofendesse alguém, somente o sorriso plácido de quem não tem nada e, não tendo nada, tem tudo.

Na parte direita do grupo escolar, restava uma parte de terra, que era usada como área de recreação dos guris da escola, ainda não era cercada e se avizinhava do Aprendizado, esse prédio que agora é do SENAI, no centro desse terreno, uma extensão pequena de terra batida.

Cavamos um buraco e marcamos um círculo em volta, uns 12 meninos e suas bolinhas à ganha, alguns carregavam as bolinhas, alguns eram donos das bolinhas, os outros eram meros torcedores ou arranjadores de confusão.

O Spock era o campeão do 14, o meu pavilhão, o Miguel representava o 13, eu era o assistente do Spock e o Avelino vinha com o Miguel, porque bolinha de gude era um patrimônio e, não se sai por ai, portanto riqueza, sem proteção.

Sabe-se que o Spock era debochado, quando fazia a limpa numa vítima, costumava fazer o ritual da vitória que consistia em cuspir nas mãos, jogar as bolinhas ao alto e depois vinha um gesto obsceno.

O Miguel se sentiu humilhado, perdera toda a sua riqueza e aquele esquisito ainda ria dele, partiu pro pau, a missão do carregador era, em caso de briga, entrar pro lado do chefe e eu entrei também na briga, o Avelino fez o mesmo, os outros meninos ficaram a atiçar.

Veio lá do Aprendizado, o Zabé, entrou no meio da briga principal, segurou os dois e sem dizer palavras e, deu um sorriso.

Até pode ser, que tenha falado alguma coisa, mas todos aqueles meninos que na época tinham uns 10 anos, de vergonha, saíram, cada um para o seu lado.

E cresci, sempre a ver o amigo em seu caminhar sereno e a cumprimentá-lo em qualquer lugar:

_Arrê Zabé. Como se o sorriso desse anjo completasse o dia.…Zabé era um apelido que ele não gostava, então ele me corrigia:

_Zabé não, Carlos Alberto.

Anos mais tarde, vieram os anos de chumbo, o mundo mostrou-nos sua verdadeira face e nos revoltamos e, como se a vida se mostrasse madrasta, gritou o revoltado Viana:

_. Nesse mundo não existe uma pessoa que não tenha má índole e desafio a quem me diga o contrário.

Estávamos todos em frente do pavilhão 22 e tínhamos todos 14 anos.

Fez-se um silencio a turma não sabia o que dizer, ele se sentia bem em ganhar uma contenda e, já abria o riso irônico de vencedor.

Muito tranquilo, esperei que ele saboreasse a vitória, ao cabo de uns segundos fuzilei:

_E o que você me diz do Zabé?

A turma toda visualizou o Zabé em suas mentes e se sentiu aliviada, como se o mundo estivesse salvo.

Mas, o Viana não se deixava vencer assim fácil, depois de pensar bem e coçar a cabeleira, disse:

_Desculpa, eu falava de gente de carne e osso, o neguinho Zabé não existe.

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Apreciadores (3)
Comentários (4)
Postado 15/07/19 22:52

Adorei a narrativa. Parabéns

Postado 08/06/20 13:48

Mesmo que muitas vezes eu não espere salvação para esse mundo a partir de agora poderei ter a certeza de ainda haver um conforto.

Agradeço por compartilhar sua obra.

Assinado alguém que saboreia essa doce espeça, <3

Postado 09/08/20 02:45

Nilton do céu!

Eu me sinto tão bem sempre que leio seus textos (eu sempre falo isso, me perdoe, mas eu não sou boa com palavras, queria saber te elogiar como você merece).

Mais uma obra MUITO BOA!!!

Infelizmente, a cada dia que passa, as pessoas estão se tornando tão amargas, perdendo a cabeça e sendo horríveis tão gratuitamente (me incluo nisso, sou o pior dos piores).

O Zabé deve ser uma meta de vida... Todo mundo conheceu uma vez na vida, pessoas que não existem como ele, que parecem ser miragem, que parecem ser todos os sentimentos bons, juntos... E parece que, depois dessas pessoas, a gente nunca mais conheceu ninguém...

Amo a reflexão que suas obras me trazem, e, mais uma vez, se isso algum dia se tornar - ou já for - um livro, EU PRECISO COMPRAR ELE!

Como sempre, você é SENSACIONAL!

Postado 30/08/20 23:30

Nunca vou me cansar de exaltar suas obras e as mensagens intensas que elas transmitem! Você consegue sempre unir contextos cotidianos a lições de vida e isso sempre agrega muito ao leitor.

Obrigada por compartilhar essa obra incrível conosco!

Parabéns, como sempre, Nilton