Guardadas as devidas proporções
Nilton Victorino Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 15/07/19 15:17
Editado: 15/07/19 15:26
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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Palavras: 938
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Guardadas as devidas proporções

Diz a lenda que, Muhammad Ali, ao derrotar o tanque George Foreman, cumpriu uma velha profecia africana, no exato momento em que ele ergue os braços ao céu, com o derrotado a seus pés, pingos de chuva se precipitam e, já não chovia no Zaire havia 13 anos, no estádio, a torcida comemorava a vitória do herói e a chuva tão esperada.

Então Muhammad Ali, efetivamente fez chover, isso o povo do Zaire vai afirmar com certeza, passará centenas de anos e o fato não será esquecido.

Bom, aquele negão era malandro e, sendo ele à época, a pessoa mais popular do planeta, posto que, andava cercado de reis, empresários, presidentes e Beatles, não é muito difícil imaginar que tivesse amigos na NASA, o que explica o fato de ele ter marcado a luta pra aquele lugar da África e, como era doutrinador, deu o golpe fatal, segundos antes do tempo previsto para a chuva.

Mas tudo bem, se diz a lenda que Ali fez chover, eu aceito, essa é uma linda história.

O Valdevino não era ídolo no planeta, só era conhecido nas imediações do Educandário Dom Duarte e arredores, mas, guardada as devidas proporções, era o nosso ídolo e, numa tarde de inverno fechado, fez o sol brilhar.

O ano era 1978 e todos que se lembram desse ano, ão de se lembrar de que foi um inverno muito rigoroso, por conta disso, as aulas no Attiê foram suspensas.

Cuidava do meu time e fui ter com o Mello, que morava na Santa Barbara, perto do final do João XXIII, querer jogar eu não queria, mas já havia marcado semanas antes e tinha que cumprir o combinado, não se esqueça de que eu era um guri chato.

Quando cheguei à casa do Mello, encontrei-o cheio de dedos e com medo de me dizer o que havia acontecido, apertei-o e ele me disse que um tal de Daniel disse que o jogo só seria realizado se ele participasse.

O Daniel tinha o apelido de Maconha, além de ser maior de idade, andava na famosa gangue do Pivete, o ladrão mais temido da região.

Tendo a liberdade de desmarcar o jogo, não o fiz, julguei que aquilo fosse desaforo... é, eu disse que era um guri chato.

Empenhei a palavra e fui ter com os amigos, encontrei o Viana, o Feliz e o Fabiano, que conversavam amenidades na bifurcação entre o 12 e o 14.

Contei-lhes o ocorrido e disse que ia dar um jeito na situação, nesse instante, sai do bananal do 12 o Lourival e uma luz me veio à mente:

_ Ô Lourival, o Valdevino está no pavilhão?

Ele acenou que sim, puxei-o pela camisa e fomos pelo fundo do 12, os dois pastores alemães vieram em minha direção e o Lourival os acalmou feito isso gritou o nome do amigo.

O Valdevino ainda não fazia parte do meu circulo de amizades, expliquei-lhe a situação com muita calma, ao fim da minha explicação fiz o pedido e, é claro que ele aceitou, antes tinha que se recuperar da lesão e me mostrou o tornozelo direito inchado.

Nesse ponto, vou dar uma pausa na narrativa e explicar um fenômeno peculiar do Educa, dá-se a isso o nome de "fominha", é aquele jogador que, mesmo em coma, não sai de campo.

Todos os internos do Educa eram fominhas, todos, sem exceções... os craques eram mais.

Era uma segunda-feira, eu e o resto do time acendemos velas na intenção da recuperação do Valdevino.

O amigo tinha 15 anos, a nossa faixa de idade era 11 e 12 anos, o jogo seria às 16:00 horas, quando saímos, ele ainda estava na gráfica, na Eiras Garcia o vento gelado cortava a alma, tremíamos de frio e de medo de que o Valdevino não viesse pra nos ajudar.

Quando chegamos, o adversário já estava em campo, se aqueciam pra evitar o frio, um terreno baldio na Rua Santa Barbara seria o cenário da contenda, entramos tremendo, feito ovelhas que chegam ao matadouro, além do Daniel, havia outro mais velho no time deles.

Juntei o time e disse:

_Vamos segurar até o Valdevino chegar... se ele chegar.

As nuvens negras se mostravam no céu, uma fina garoa se precipitava e o vento gelado a espalhava entreguei o nosso dinheiro pro Mello e ele me mostrou o dinheiro deles.

O jogo começou e os dois mais velhos dominavam o jogo, ficamos na defesa, ainda que, a diferença de corpo e de idade deixasse a situação muito desigual, fomos valentes e no primeiro tempo eles só marcaram dois gols.

Intervalo, a vizinhança toda estava presente e riam, pela primeira vez em suas vidas, estavam vendo um time do Educa sendo arrasado, olhamos em volta e toda a extensão do muro que cercava o terreno, bem como as lages e os barrancos da vizinhança estava tomada de torcedores hostis.

O juiz apitou e a bola era nossa, a bola foi tocada pra mim, eu a recolhi e a levei pra defesa, repentinamente o sol rasgou a nuvens negras e se mostrou, olhei pra entrada e vi o Valdevino entrando no terreno, chutei a bola pra fora e pedi tempo, jogo parado, quando passei pelo Daniel e o outro mais velho, vi o pânico nos olhos deles, a torcida, que conhecia o amigo silenciou, tirei a minha camisa e joguei pro Valdevino, o sol só durou meia hora, o tempo exato que duraria a segunda etapa, inacreditavelmente, o Valdevino fez sete gols, sob a vigília atenta do sol.

Quando acabou o jogo, saiu correndo. , disse que tinha um partida de futebol de salão na quadra do Etchegoyen.

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Postado 02/11/20 15:20

Valdevino veio para salvar o dia!!

Isso me lembrou uma cena de um anime de futebol que eu gosto muito, chamado Inazuma Eleven, o time estava sendo massacrado, mas então chegou o cara que seria a salvação. Ele fez um único gol, mas foi o gol que representou uma vitória para o time, mesmo sem terem ganho o jogo!

Obrigada por me fazer lembrar disso através de seu texto!

Um abraço <3