[Tremor]
[Passos]
[Gritos]
Abro os meus olhos. Não sei quem sou e onde estou. Não consigo fixar os meus olhos e minha cabeça dói. Então, em um estalo, tudo retorna. O cheiro de carne queimada, óleo, sangue e fumaça são todo o incentivo de que a minha mente necessita. Meu nome é Arthur Legrand e eu sou um soldado. Estou no Castelo de Maida. Fui pego pelos destroços do portão principal quando o mesmo foi completamente obliterado. É um milagre estar vivo. A carga inicial do exército invasor passou por mim, ignorando-me completamente. Os mesmos destroços que quase me mataram nesse momento me permitem viver, pelo menos por mais alguns instantes. Tudo isso acontece em poucos segundos.
- Por Antária! – Gritam nossos invasores. – Morte ao inimigo!
- Pela Rainha Maria! – Gritam meus companheiros, enquanto resistem à onda invasora, ombro-a-ombro, escudos a postos, num misto de fúria e desespero. Lutam por sua Rainha, seu lar, suas vidas. Então apago novamente.
Quando desperto novamente, a batalha já avançou castelo adentro. Cautelosamente consigo me livrar dos destroços que restringiam a minha liberdade. Todo o meu corpo dói, mas ao que parece fui poupado de maiores danos, a armadura resistiu bem. Olho para o céu, o sol está a pino, não fiquei inconsciente tanto tempo assim.
- Vamos Gregor, hora de nos juntarmos a batalha!
- Majestade, por favor! Não há necessidade de se expor assim, o castelo está quase tomado! – mergulho nos destroços no exato instante em que ouço as primeiras palavras e felizmente não sou visto. Ao fazer esse movimento, meu braço resvala em uma besta. Há duas setas ao lado dela. Ao olhar mais atentamente, vejo a mão de seu antigo portador, o restante do mesmo sem dúvidas estando soterrado.
O mais lentamente possível me posiciono de forma a observar a cena que se desenrola. Dois homens no centro, cercados por um, dois, três... Dez soldados avançam pátio a dentro. Um deles usa um elmo com uma coroa. Pelo que posso entender o Rei de Antária em pessoa comanda essa ofensiva! O homem menor ao seu lado parece implorar ao Rei por prudência, sem sucesso. Eles continuam avançando lentamente. Nesse momento, por um inacreditável descuido da escolta real, tenho uma visão clara do rei. A distância é mais do que o suficiente para um tiro de precisão – a besta não requer tanto talento assim para se manusear e sei o suficiente para utilizá-la adequadamente. Mas certamente será a minha morte, não sou nenhum herói espadachim dos contos de Seth. O que fazer? Os segundos se passam enquanto armo a besta e a aponto na direção do rei Antário. Recordo-me da Rainha Maria intercedendo por mim no cadafalso. Lembro-me de seus olhos compassivos, algo que vislumbrei em nenhum outro. Já estou morto, tudo isso é tempo extra. Decido-me no exato momento em que o Rei Romulo I, Rei de Antária, se vira e me olha diretamente nos olhos. Sem hesitar, efetuo o disparo. Consigo ver a transformação em seus olhos no exato instante em que ele se dá conta de que será alvejado. Ouço o grito de “Gregor” ao ver a seta aparecer atravessada no pescoço de seu Suserano. Os soldados sacam suas espadas e já se viram em minha direção. Já estou correndo em direção à eles, minha espada tecendo um arco em direção a cabeça do soldado mais próximo. Imediatamente me viro para aparar o golpe do soldado ao lado enquanto jogo meu corpo em sua direção. Sou mais pesado, então o derrubo. Em dois golpes consigo subjugar o terceiro guarda real, com uma estocada em seu abdômen. Nesse momento, sinto algo quente escorrer por minha perna esquerda, no mesmo momento em que perco minha sustentação e caio de joelhos. Simultaneamente sinto o golpe que decepa minha mão com a espada enquanto uma estocada atravessa meu peito. Já morri, apenas aguardo o golpe final. Antes de partir, já engasgando com o sangue que inunda meus pulmões, vejo rei ser carregado por seus soldados, mas não antes de contemplar seus olhos mortos. Também vejo Seth, Agrale e Adam, meus irmãos-em-armas, acorrentados, mas vivos. Eles testemunharam o que eu fiz. Eu serei lembrado. Arthur Legrand, o Homem que matou o Rei.