Já era noite cerrada, e Richard Smith encarregava-se de virar as cadeiras de madeira sobre as mesas, no Rose and Crown, bar onde trabalhava. Faltava meia hora para o local encerrar, mas uma rixa de bêbados que sucedera há uma hora atrás obrigara o jovem barman a expulsá-los porta fora do estabelecimento, por isso, agora, o bar estava estranhamento vazio e silencioso.
Richard não se importava, estava cansadíssimo. Tinha sido apanhado na luta, e agora tinha uma nódoa vermelha na maçã do rosto, que lhe doía bastante. Fora golpeado por um soco de direita de um dos homens embriagados, e gravou na mente para nunca se meter com aquele homem sóbrio.
Esfregou o tampo da cadeira vigorosamente, com o pano húmido, e virou-a sobre a mesa redonda, de plástico a imitar madeira. A sua atenção foi desviada das tarefas de limpeza, quando ouviu o leve tilintar de gelo bater contra vidro. Desviou os olhos daquilo que parecia madeira e olhou de viés para a dona do copo que produzira o som, sentada num canto do bar, onde duas paredes se cruzavam.
Ela chegara ao bar a horas nada decentes, mesmo para um universitário; sentara-se naquele canto, sozinha, longe de tudo e de todos. Recusara dois convites de rapazes que lhe ofereceram companhia e, provavelmente, bebida. Pedira dois mojitos e pagou ambos na hora, quando o empregado a atendera, e mandou para trás todas as caipirinhas, martinis, vodkas que algum “atencioso cavalheiro” lhe havia pago.
Richard deixou o pano húmido sobre a mesa que limpara segundos atrás. Aproximou-se da rapariga e interpelou-a, não sem gentileza na voz.
Ela olhava de maneira apreensiva para o telemóvel, mas quando sentiu a presença do barman levantou os olhos negros e pousou o aparelho sobre a mesa.
— Vai desejar mais alguma coisa?
Ela prensou a palhinha preta entre dois dedos e pressionou-a levemente contra uma fatia de limão, dentro do copo. — Não. — Respondeu.
Richard não se mexeu. Queria ir para casa, mal o contabilista — um garoto saído da universidade, com o curso superior de economia, que parecia desesperado a aceitar o emprego, por mais miserável que fosse o salário — acabasse de fazer as contas do mês e saísse da sala do bar, espaço minúsculo num canto da cozinha, onde estava uma mesa retangular e umas quantas cadeiras, todas diferentes. Não queria esperar até ela se decidir a ir embora.
São quase cinco da manhã, pelo amor de Deus.
— Não é habitual vir uma pessoa sozinha até aqui, e permanecer até tão tarde. — Podia ser que a rapariga não fosse dada a conversas e, por isso, pegasse nas suas coisas e saísse, com o nariz empinado, porque o impertinente barman decidira meter conversa com ela.
— Esqueci-me das chaves da minha residência dentro dela. Bati duas vezes à porta em horários diferentes, mas ninguém respondeu. Ou alguém assassinou as minhas colegas dentro de casa, ou elas estão por aí fora a viver a maior festa das suas vidas, e como nem o telemóvel atendem, aposto que é a primeira opção.
Richard esboçou um arremedo de sorriso. A rapariga correspondeu e agitou levemente a cabeça, como se dissesse que estava a brincar. Havia algo de familiar nas maçãs do rosto salientes da rapariga morena. Richard tinha a certeza que já vira aquele sorriso em algum lado.
— Desculpe, mas eu conheço-a? — Perguntou, sem rodeios, mas respeitosamente, deixando claro que não estava a dar nenhuma de casanova.
Ela arqueou levemente as sobrancelhas desenhadas.
— Está a fazer-se a mim?
— Não! — Apressou-se a negar, fazendo sinal com a mão. Ela abriu ainda mais os olhos. “Estará a menosprezar-me?” Inquiriam. — Isto é, penso que já a vi… na Universidade de Cambridge.
Exato. Pescou informações na sua memória. Recordava-se dela da Universidade que frequentava atualmente. Vira-a no início do semestre, no curso de Direito, durante duas semanas, e depois nunca mais lhe pusera a vista em cima.
— Além de me estar a galantear, tem-me perseguido? — Ela estava bastante séria, e Richard não percebia que parte da conversa poderia ter desencadeado aquela conclusão.
Franziu o sobrolho.
— Não a estou a galantear, nem a tenho perseguido. Estou a fazer o mestrado de Direito, na universidade de Cambridge, primeiro ano, e tenho a certeza de que a vi por lá, nos primeiros tempos.
O rosto dela tomou um semblante descontraído. Gargalhou. Richard não podia dizer se simuladamente.
— Havia de ver a sua cara. Pensava o quê? Que eu ia fazer uma cena e o iria denunciar à polícia?
Richard não respondeu, nem retrucou a gargalhada. Queria dizer-lhe que, após trabalhar desde as seis da tarde, até às cinco da manhã, poucos eram os pensamentos coerentes que lhe passavam pela cabeça, mas calou-se.
— Sim, viu-me na universidade. Deve ter-me visto num ou outro anfiteatro, nos primeiros tempos. Também estava a estudar Direito, primeiro ano, mestrado. Mudei de curso.
— Agora estuda teatro, não?
Elizabeth ignorou a provocação.
— Estou a tirar o mestrado de Ensino Básico. Adoro crianças! — Confidenciou, a sorrir, e o sorriso pareceu sincero a Richard. — Quero ter uma equipa de futebol em casa, no futuro. E você…? — Hesitou — Desculpe, nem me apresentei, Elizabeth. Kent. — Disse, estendendo a mão a Richard. Este apertou-a entre a sua, e reparou nas unhas dela, cuidadas e pintadas de rosa.
— Richard Smith. E o desejo de ter uma equipa de futebol no futuro nunca me passou pela cabeça.
Elizabeth sorriu.
— Não. Porque é que o Richard escolheu Direito.
Richard apertou o polegar e o indicador contra o início da cana do nariz, ligeiramente constrangido.
— Peço desculpa, já não raciocino bem a estas horas.
— Eu percebo. Está a trabalhar desde cedo, para pagar as propinas da universidade, e agora tem de aturar uma chata que não o deixa ir para casa.
Richard ia simplesmente negar aquela afirmação, até porque, em parte, começara a simpatizar com Elizabeth, mas decidiu pegar na conversa do Direito e continuar daí.
— Escolhi Direito porque quero ajudar pessoas.
Elizabeth esboçou um esgar, sarcástico, pareceu a Richard, mas não disse nada.
— E a Elizabeth; porque é que não continuou a estudar Direito?
— O meu pai queria que eu estudasse Direito. Eu…
— Você quer uma equipa de futebol.
— Sim. E não. Também quero ajudar pessoas. Crianças. Dar-lhes educação. Quero ter filhos bem educados. Direito nunca foi a minha vocação, os quatro anos de licenciatura foram uma tortura.
Richard esboçou um sorriso, perante aquela afirmação. Olhou sobre o ombro, para o quadrado de luz que provinha da porta da cozinha, atrás do balcão, ao fundo. Apostava que o rapaz ainda se ia demorar. Têm uma licenciatura e pensam logo que são gente e que estão aptos para o mundo do trabalho. Puxou uma cadeira para si e sentou-se perto de Elizabeth.
Sorriu pela ideia que lhe passou pela cabeça, e partilhou-a em palavras.
— A Elizabeth parece saber o que quer da vida. É uma super mulher, até o sobrenome lhe assenta como uma luva. Kent¹. Também vem do planeta Krypton?
Ela riu com a observação.
— Sou cem por cento inglesa. Quer dizer, quase. Os meus pais dizem que na nossa família corre sangue índio, ou egípcio, algo assim.
De fato, Elizabeth não era a típica beleza inglesa, loira de olhos azuis e pele de porcelana, que qualquer bom gentleman teria medo de tocar, não fosse partir. Ela tinha uma face exótica. Era sensual e picante, com a sua pele bronzeada, olhos e cabelos negros. A cana do nariz era comprida e fina, e assentava perfeitamente na sua cara ovalada, de maçãs salientes, lábios simétricos e dentes perolados.
Richard achara-a bonita, das primeiras vezes que a vira. Naquele momento, à média luz, achava que bonita era pouco para a descrever. Assemelhava-se a uma Cleópatra do século XXI. Alta, elegante.
— E, olhe, esqueça o Elizabeth, trate-me por Lizzie. Não gosto de Elizabeth.
— Elizabeth é bonito — Elogiou Richard.
— Seria bonito, se vivêssemos no século XIX.
Richard fez um esgar.
— A minha avó chama-se Elizabeth.
— Como disse, seria um nome bonito, se estivéssemos no século XIX. E o Richard, é bastante inglês, não? Com o sobrenome Smith². Tem braços fortes como um ferreiro, posso ver isso.
Richard corou levemente, com o elogio.
— É de acartar diariamente grades de cerveja para saciar os bêbados do local.
— Devia agradecer a esses bêbados.
— Deram-me uma tareia hoje — Ripostou Richard, que não suportava a ideia, nem que fosse a brincar, de agradecer o que quer que fosse aos universitários embriagados que, por vezes, faziam das suas noites um inferno. — Devo agradecer-lhes servindo-lhes bebida até se afogarem nos próprios copos, ou trancando-os no armazém, cheio de cerveja, sem abre-garrafas, para ver se morrem de desespero?
Elizabeth pousou o cotovelo sobre a mesa e apoiou a face na mão.
— Tem um lado vingativo. Absolutamente nada inglês. — Constatou, lançando a Richard um sorriso provocador. Ele perguntou-se se ela estaria a fazer de propósito para o espicaçar. Gostava de pensar que sim.
— O meu pai é dinamarquês, e a minha mãe americana. Só sou inglês no cartão de identificação.
— No entanto tem cara de inglês, olhos azuis, cabelo loiro. Acho que até tem um porte cavalheiresco, se quer que lhe diga. E quanto à sua pele bronzeada sempre pode dizer que foi de ter passado o fim de semana nos Alpes a fazer esqui.
— Claro — Confirmou Richard, num tom sarcástico — Vou todos os fins de semana aos Alpes fazer esqui.
— Viu como sou intuitiva? — Brindou-o com um bater de pestanas negras e um sorriso largo — Richard, ainda está de serviço?
Richard por momentos estranhou a pergunta. Subitamente lembrou-se de que ainda estava de serviço. A conversa estava a ser tão interessante, que se esquecera de que devia estar a perguntar o que Elizabeth desejava beber, não estar prestes a beber algo com ela.
Olhou o relógio de pulso e surpreendeu-se ao ver que passavam dois minutos das cinco, horário de encerramento do bar. No entanto, não se importava de que o garoto das contas se demorasse ou adormecesse sobre os cálculos.
— Há dois minutos que não estou no meu horário de serviço, logo deveriam estar a pagar-me horas extra. — Elucidou, com um semblante divertido — Porquê? Não me diga que me quer convidar para uma caminhada, a fim de vermos o nascer do sol, como se fossemos namorados.
Elizabeth fingiu indignação, e Richard quase pensou ter dito algo que a tivesse magoado, não fosse o ínfimo sorriso no canto da boca.
— Desculpe? Você galanteia-me, persegue-me, e depois eu é que quero ir ver o nascer do sol consigo? — Deixou o ar falsamente grave de lado e esboçou um sorriso. — Só queria uma cerveja. Pressinto que mais tempo sem álcool e irei tornar-me demasiado séria… mas ir ver o nascer do sol não me parece má ideia. — Admitiu, baixando os olhos.
Richard tinha em mente devolver o troco e fingir um ar absurdamente sério e grave, já que Elizabeth fizera isso três vezes, em meia hora, consigo. Mas em vez disso, ao ver-lhe a expressão, afagou-lhe os cabelos negros e lisos e sorriu como uma criança.
Foi buscar as cervejas à geladeira, e retornou à mesa. Pousou as duas médias sobre a mesa e depois fez as caricas saltar, uma de cada vez, com a parte de baixo do isqueiro de plástico, que transportava no bolso.
— Sabe abrir garrafas com um isqueiro. Quando for grande quero aprender a fazer isso. — Aplaudiu, bebendo um golo da cerveja fresca.
— Eu ensino-lhe. Importa-se que fume? — Perguntou a Elizabeth, tirando o maço de cigarros do bolso — Gosto de acompanhar cerveja com cigarro.
— À vontade — Elizabeth encolheu os ombros, não satisfeita. Richard podia ver-lho na expressão.
E tu só a conheces há quarenta e cinco minutos, Richard.
Deu três golos generosos na bebida. Soube-lhe a água do paraíso.
— Não devia dizer-me que me tornei uma desilusão? — Elizabeth piscou os olhos, em sinal de incompreensão — Que o seu futuro perfeito marido de raízes dinamarquesas e americanas, com que imaginaria formar uma equipa de futebol, não devia fumar, beber, nem fazer sexo em dias santos? — E sorriu.
Elizabeth bebeu da garrafa. Depois balançou-a no ar, com o gargalo entre os dedos, e pressionou levemente o vidro frio contra o pequeno hematoma que se formara na bochecha de Richard.
Não sorriu, mas olhou-o com carinho.
— Quem disse que o quereria como marido?
Richard esboçou um leve sorriso. As bochechas de Elizabeth haviam enrubescido, provavelmente pelo álcool. Ela tinha afeição no olhar. Richard queria dizer-lhe que nunca antes vira olhos tão belos, mas em vez disso, respondeu-lhe:
— Prefere um gentleman inglês, franzino, que saiba de cor todos os nomes dos chás ingleses e a leve esquiar aos Alpes nos fins de semana? — Perguntou, com um fantasma de sorriso no rosto. Bebeu da cerveja — Acho que ele fugia de si, mal ouvisse o plano da equipa de futebol.
Elizabeth fez pressão com a garrafa, contra o rosto de Richard, que fez uma careta de dor.
— Nunca mais se vai esquecer disso, pois não?
— Não tenciono — respondeu-lhe.
Elizabeth afastou a garrafa da bochecha de Richard e deu uns golinhos.
— Está a pensar ter uma equipa de futebol comigo, logo, está a pensar em ter relações sexuais comigo. Que inconveniente da sua parte. — Brincou.
— Uau. O álcool fá-la ousada. Mas, sinto muito, não partilho sentimentos desses na presença de uma donzela. Sou um verdadeiro cavalheiro.
Ela sorriu e revirou os olhos. Ao que bebeu o que restava da cerveja. Pegou no telemóvel e abriu a boca de espanto.
— Olhe as horas. Já passa das cinco e meia. — Constatou, vestindo o casaco de cabedal à pressa e abrindo a carteira para pagar as cervejas. Richard recusou o dinheiro, como seria de esperar, e ela não insistiu mais.
Imitou-a e levantou-se da cadeira.
— Tem de ir? — Perguntou, verdadeiramente consternado.
Elizabeth parou de se compor e olhou-o.
— Não queria. Mas deduzo que a sua vida não se resuma a aturar loucas que fazem com que passe mais tempo no seu local de trabalho e lhe confidenciem que querem ter uma carrada de crianças no futuro.
Richard abanou a cabeça, em sinal de negativo. A presença da divertida Elizabeth fora uma das coisas mais fantásticas que lhe ocorrera em meses.
— Quem me dera que mais loucas como você aparecessem por aqui. — Agarrou-lhe nas mãos, com afeição — os últimos loucos que passaram por este bar deram-me uma tareia. — Rodou ligeiramente a face, referindo o soco de direita que um embriagado do tamanho de um touro lhe desferira. — Mas a Elizabeth faz-me rir e ainda me quer pagar cervejas. Definitivamente é a minha louca favorita.
Elizabeth riu. Manteve o sorriso no rosto luminoso e entrelaçou as mãos de Richard nas suas.
— Gosto de si, Elizabeth. — Admitiu Richard, com um ar bastante sincero. — Só conversei consigo hoje, mas sinto que a conheço uma vida inteira.
Elizabeth deu um passo em frente, colocou-se em bicos de pés e beijou-o nos lábios, de forma singela. Sorriu, com a boca, com os olhos, com a alma. Ela vibrava.
— Acho que posso sobreviver à ideia de casar com um homem que não conhece o nome de todos os chás ingleses.
Richard guiou-a pela mão, pegou no casaco, sobre o balcão, num bloco de notas e numa esferográfica preta. Rabiscou algo no bloco e deixou-o sobre a mesa, para o rapaz das contas não pensar que o trancara lá dentro.
— Vais-me raptar e escreveste a quantia que queres de resgate no papel? — Inquiriu Elizabeth, deixando-se levar pela mão, a sorrir.
— Foi isso mesmo. Finalmente estás a tratar-me por tu.
— Vais-me levar contigo para a tua caverna dinamarquesa, acho que tenho o direito. Onde me levas?
— Ao rio Cam. Vamos ver lá o nascer do sol. — Fechou a porta do bar. Fileiras de luzes iluminavam a rua e cheirava a natureza e a chuva. — Agrada-te a ideia?
Elizabeth sorriu e anuiu com a cabeça. Apertou o casaco de cabedal até ao pescoço, para se proteger do frio. Não largaria a mão do seu dinamarquês americano por nada.
— Imenso. Agrada-me imenso.