As pinturas me observam nas paredes da cidade. Não há museu em que se encaixem, elas se aderem em muros e outdoors, roupas e carros, até nas falas das pessoas.
As pinturas estão presentes na maquiagem das garotas e no perfume dos garotos, em cada conversa e em cada olhar; iludindo, manipulando, fazendo-me acreditar.
Que posso dizer a elas, que me deixem em paz? Elas me observam e não me veem, pois observam não só a mim. Sou uma pedestre dentre a multidão que passa em frente e devolve seu observar.
As pinturas ocupam espaço, elas abrem espaço. Espaço destinado a jovens e idosos, lazer de crianças e adultos, crescimento de área verde. Elas roubam espaço, o meu espaço, o espaço das árvores.
Tenho como dizer a elas que quero meu próprio espaço? Elas invadem até meu lugar mais privado, o tempo todo e todo tempo, pinturas na parede e pinturas soltas ao vento.
Elas têm olhos, sabe, olhos humanos. Elas estão sempre observando, no cenário urbano.