A campainha tocou.
Algo tapou o olho mágico do outro lado da porta, mas a campainha tocou de novo.
- Quem é?
- É o Davi! – disse uma voz abafada.
Quando ela abriu a porta, um homem com o rosto de quem tinha acabado de completar 25 anos estava parado do outro lado.
- Desculpa, Davi, é que eu ouvi uns gritos vindo lá de baixo, e fiquei preocupada.
-Tudo bem, Camila, mas não é nada, era minha mãe gritando.
-Ah - a mulher suspirou.
Ela pensou um pouco, enquanto ele continuou parado a olhando.
-Quer entrar? - perguntou.
-Sim, por favor.
Ela afastou um lado do corpo. Antes ele não tinha percebido, mas quando passou do lado dela, notou que ela estava com um roupão fino sobre uma camiseta e uma calça larga. Não era tão tarde assim, mas Camila já estava na idade de ir dormir um pouco mais cedo.
- Eu vou por uma roupa. - ela disse.
Davi entrou no apartamento, andou até a sacada e ficou olhando as outras janelas dos outros prédios por um tempo. E então olhou pra baixo.
Camila retornou à sala, agora com uma camisa de botão e uma saia longa.
-Nossa, não lembrava de ser tão alto aqui de cima. Faz tempo que eu não venho aqui.
-Pois é, você cresceu um pouquinho. -disse Camila com um meio sorriso.
-Você acha?
-Davi, pode sentar aqui - disse ela sentando-se no sofá perto da sacada. Os dois se sentaram.
-Por que veio aqui? você voltou a brigar com a sua mãe?
-Sim.
-Por quê?
-Porque ela voltou com aquele assunto.
-Qual assunto?
-De me botar pra fora de casa.
Davi virou a cara para frente, mas seus olhos não a escaparam.
-E você não quer?
-Não. Ainda não.
-Por que não?
-Porque eu ainda não estou pronto.
-Mas você viveu a vida inteira nesse prédio.
-E?
-E eu sei que no fundo nós dois sabemos que você quer ir embora daqui.
-Não desse jeito, sendo expulso.
-Então por que você não vai embora por conta própria?
-Não sei, só sinto que não estou pronto.
Camila fez uma pausa e pensou no que ia dizer.
-Você já teve um emprego?
-Não.
Ele virou os olhos, lembrou da mãe.
-Você fez faculdade de que mesmo?
-Cinema.
-Talvez eu consiga um estágio pra você. Eu posso te ajud...
-Camila.
-O quê?
-Eu sou bv.
Ela não soube o que falar, se realmente entendeu o que ele tinha falado.
-O quê?
-Eu sou bv. Tenho 25 anos e nunca beijei ninguém. Nunca transei também.
Ela ficou muito surpresa. Seus olhos pesaram e piscaram dramaticamente.
- Nã...
-Foi por isso que eu vim aqui. Não foi por causa da minha mãe. Foi por causa de você.
-Eu não estou entendendo.
-Eu quero que você tire o meu bv. Queria te beijar.
-Você acha que só depois de beijar alguém, que vai conseguir morar sozinho?
-Não, eu sinto que só depois de beijar alguém, que eu vou conseguir ir embora desse maldito prédio.
Camila fez uma cara de quem não conseguia respirar direito. Apertando as duas mãos no meio da barriga, se levatou do sofá.
-Camila, por favor, é só um beijo, ninguém nunca vai saber. Eu preciso.
Ele seguiu ela até a sacada.
-Davi, chega. Que ridículo.
-Mas eu sempre te achei linda, sempre sonhei que você seria o meu primeiro beijo.
-Você sabe que sou muito amiga da sua mãe.
-Mas, Camila, ela nunca vai saber, e é só uma vez. Eu só quero perder meu bv logo. Depois eu vou embora daqui.
-Isso é ridículo. Eu tenho a idade dela.
-E o que isso importa?
-Que é loucura
-Camila, o motivo de eu ainda não ter ido embora é você. É sério.
Ele parou atrás dela, virada para a janela.
-Eu não acredito. - ela colocou a mão no rosto - Eu não posso
-Você pode sim, e a minha vida vai finalmente começar.
O apartamento parecia estar girando em espiral, mas o silêncio tomou conta de todos os vácuos da sala. Davi ficou olhando para a trás da cabeça de Camila, que se virou confusa:
-Um beijo?
-Sim, apenas um e eu vou embora pra sempre desse prédio.
Camila não sabia se queria aquilo mesmo.
-Tá, só um.
Os dois se sentaram novamente no sofá e não falaram mais nada. Camila deu um selinho em Davi, que logo se tornou mais demorado e mais íntimo, até os dois estarem sem roupa na cama de Camila.
No meio da madrugada, ele acordou com um sentimento de alívio. Sua vida tinha finalmente começado. Finalmente tinha perdido o bv e transado. Nunca mais precisaria se preocupar com isso. Mas agora que tinha feito, sua vida não tinha mais propósito. Ele saiu do quarto e passou pelo corredor escuro até a sala. Sua vida estava ótima. O quê será que seus amigos diriam? Seu maior desejo tinha se realizado. Seu prazer. Ele inclinou metade do corpo por cima da janela e olhou para baixo, do oitavo andar, e caiu.
Obrigado, Camila, por ter feito a minha vida ter valido a pena.