O alarme do relógio de pulso sinaliza o horário. É a hora que ela sai de casa.
Através das persianas pude ver a sua silhueta andando pela calçada. A vestimenta preta contrastava com a sua pele alva e os cabelos amarelados, enquanto os seus olhos azuis estavam escondidos sob um óculos preto. O seu caminhar que era sempre suave e despreocupado mudou. Agora andava de forma rígida e desconfiada pela vizinhança, a paranoia de estar sendo perseguida não a deixava sair para longe sozinha.
Fechei as persianas cuidadosamente e caminhei até a porta de entrada, assim que a vi parando em frente à minha casa. Esperei um pouco até que ela batesse na porta. Toc toc. Mais um minuto e então abri a porta. Ela sorriu e tirou os óculos escuros. Por um segundo os meus braços envolveram o seu corpo em um abraço que foi correspondido, nos separamos quando ela reclamou de um leve hematoma na cintura. Eu sabia o motivo dela estar aqui, na minha casa. Devia estar com receio de passar as tardes sozinha em casa, enquanto os pais estavam trabalhando. Mas logo as férias terminariam e retornaríamos a nossa fatídica rotina.
Perguntei que horas ela foi dormir ontem depois que chegamos do cinema, mesmo tendo olhado o momento em que as cortinas da janela do seu quarto foram fechadas e a luz do quarto apagada.
Também questionei sobre aquele dia em que ela saiu com um garoto que eu não conhecia e chegou depois das nove horas em casa, quando o som do motor do carro ecoou na rua e o vi estacionar na frente da sua casa, enquanto ela saia com um casaco verde que não parecia ser os que ela habitualmente usa. Naquele dia as cortinas do quarto mesmo fechadas, deixavam a luz fosca e o brilho da televisão, que ficou ligada até a manhã seguinte, escapar.
No momento seguinte ela estava falando sobre o seu hematoma na cintura que ainda estava roxo. Mas eu já sabia. Dois dias atrás, quando ela banhava na piscina de casa e tentou saiu, as mãos deslizaram e a sua cintura bateu contra a borda da piscina. De longe eu não consegui ver se tinha sido grave, mas deveria ter machucado. E realmente a machucou.
Depois perguntei sobre o resfriado, se já estava melhor. No entanto, ontem à noite quando liguei para ela e fiquei a ouvindo perguntar "Diga quem é, senão vou desligar" pude notar a sua voz rouca e cansada do outro lado do telefone.
Eu realmente não sei se ela ficava intrigada com as minhas perguntas, mas eu demostrava ser alguém preocupado. Eu sou apenas uma pessoa que se importa com os outros, assim eu penso.
A minha atenção flutuou por alguns segundos, tempo suficiente para ela estar comentando sobre o dia em que finalmente conseguiu que os seus pais lhe dessem dinheiro para comprar um livro de seu autor favorito que havia chegado há poucos dias na livraria. Nesse dia ela saiu de casa cedo, estacionou o carro em um estabelecimento há dez metros da livraria e praticamente correu para adquirir o livro que até o dia eu não sabia do que se tratava, mas estava na seção de ficção científica, estando um pouco distante eu não pude ler o nome da obra.
Não consigo prever por quanto tempo passamos conversando sobre coisas sem importância, então ela perguntou se poderíamos ir até o meu quarto para continuarmos a assistir a nossa séria favorita. No entanto, eu sabia que agora uma luz vermelha incidia em todo o meu quarto e vários filmes fotográficos estavam espalhados sobre a minha escrivaninha e neles só haviam fotos dela. Algumas sorrindo. Outras enquanto chegava de algum encontro tarde da noite. Várias na piscina. Umas passeando entre as diversas prateleiras de livros. E havia uma que eu considerava ser no mínimo intrigante, por uma pequena abertura da cortina da janela do seu quarto, capturei o exato momento em que ela olhou para a minha casa como se estivesse com medo ou esperasse olhar alguém.